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quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

A hora da partilha


Nem bem a Nona  exalou pela última vez seu elaborado suspiro, a Nora e a filha mais Nova se engalfinharam às portas da funerária.
- Nova – disse a Nora – A Nona me presenteou com aquela baixela de prata que fica sobre o aparador faz dois anos, tá? 
- Eu, hein, não me lembro de ela ter falado nada... 
- Juro por esses olhos que a terra há de comer!
- É relíquia da família, e só sai da casa por cima do meu cadáver!
Era tamanha a presença da morte, que ali não se falava sobre outra coisa.
Depois do enterro, olhos cobiçosos variam cada centímetro da propriedade.
- Essa porcelana inglesa, esse jogo de jantar é meu!
A Nora e a Nova, cada uma a segurar por uma alça da sopeira, por fim deixaram-na cair e se espatifar no porcelanato.
Muitas cacos depois, cada uma juntou seus trapos e foi chorar num canto, saudosas da matriarca que era um verdadeiro rei Salomão.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

A noiva


Está pronta! 
Vestido branco de rendas, véu diáfano; a grinalda é uma coroa de flores. 
O véu que lhe cobre o rosto pertenceu a sua mãe, única peça que restou da matriarca. 
Seus sapatos forrados de cetim tem salto baixo; todos os convidados sabem por quê. 
Olha para a palma da mão como se pudesse descobrir ali seu destino, depois fecha os olhos e balança levemente a cabeça, a desistir dos pensamentos sombrios que às vezes retornam. 
A marca de aliança no anular direito se insinua quando pega o buquê sobre o aparador. Confere uma última vez os dentes no espelho, estariam borrados de batom? 
Um suspiro. 
Então, decidida, abre a porta e segue em direção ao carro que a levará desta vez para a desconhecida travessia.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Tragédias

Quem é você?
Você que está sentado aqui ao meu lado na sala da escola, quem é? O que será?
Qual é sua história, de onde vem seus pais, que heranças trouxe dos seus antepassados?
Que dores sofreu, que traumas,  que sonhos, que infância?
Não sabemos mais quem são os outros, os amigos, os inimigos, não há certeza entre amor e ódio e descemos todos da montanha nada mágica da decadência e do horror.
Que Deus salve pelo menos a rainha, matriarca e poderosa, se não no jogo da vida pelo menos na ficção do jogo de xadrez.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Agave-dragão

Em volta do corredor de pedras que leva até a frente da casa, tenho umas plantas  robustas com folhas grossas de um verde claro e um tom acinzentado dependendo do angulo em que se olha. Ocasionalmente algumas mudinhas se desenvolvem aos pés da matriarca. Seu verde intenso,  recepciona todos que entram.  O sol bate direto nelas, adoram o calor.
Um mês atrás, início da primavera, aqui no "Rio Incandescente", elas amanheceram doentes. As folhas tão verdinhas estavam com manchas castanhas e aspecto envelhecido. Estavam morrendo?!
Meu jardineiro então explicou. As folhas sofreram com a geada.
Geada?????? No Rio????? Como assim?
Achei que ele estivesse enganado e que elas morreriam para sempre...
Hoje estava reparando nelas. As folhas novas estão verdinhas e saudáveis. Daqui a um tempo estarão completamente renovadas.
Sim, era geada mesmo!