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quarta-feira, 17 de agosto de 2011

No Incor

Semana passada estive em São Paulo para acompanhar a mamãe em  um procedimento relativamente simples  de se realizar na hemodinâmica -  uma ablação de nó AV.
Tive a oportunidade de rever pessoas queridíssimas, amigos de verdade, mas também esbarrei em gente que detesto. Não pude evitar...
Andei pelos corredores do Incor intimidada pelo ambiente asséptico, frio, com uma pletora de aventais brancos e  uniformes de várias outras cores, elementos que há muito tempo saíram da minha rotina, hoje tão mais amena.
Sei que pelo menos 60% das pessoas que agora circulam por lá não são da minha época, mas existe um ar familiar de prepotência velada e eficiência manifesta; cada um cumpre seu papel na trama acadêmico- hospitalar.
Bem, depois de muitas horas de espera agoniante, chegamos à hemodinâmica - a lentidão da carruagem logística continua a mesma. E os elevadores são de enlouquecer.
Mamãe muito cooperativa, mas exausta e faminta, foi transferida para a mesa de exames. Várias pessoas circulavam por ali cada um cuidando de sua parte no esquema. Alguém cutucava seu braço, outro levantava a perna, outro ainda perscrutava as orelhas, enquanto auscultavam seus pulmões.  Eu olhava a certa distância para não entravar a dinâmica geral.
Chegou o momento de instalar  os monitores cardíacos, colocar os  campos cirúrgicos e introduzir os cateteres para chegarem ao coração em um procedimento que, no caso dela, seria de no máximo cinco minutos. Então um dos médicos, já com o avental de chumbo e devidamente paramentado,  muito educado e solícito explicou a ela: Dona Elvira, agora nós vamos armar o circo!
Ao que ela prontamente respondeu:
E eu sou o palhaço!?

segunda-feira, 11 de julho de 2011

King

Mais de uma vez por dia, todos os dias, por todos estes anos, lembro-me dele.
É mais dolorido nesta época do ano em que a temperatura se assemelha àquela em que ele foi arrancado brutalmente da minha vida. Ainda era paixão, mais do que amor. Ainda não tinha desgostado, sabe, falo destas pequenas compreensões das diferenças do outro, que aparecem em todas as relações de amor ou amizade.
Era tudo muito intenso, infinito, definitivo.
Não me cansava de olhar, acarinhar, procurava a todo instante, onde está? onde está? Com certa apreensão, para em seguida encontrá-lo brincando com a sombra da árvore, ou com os ramos de trigo seco da floreira.
No fundo eu tinha muito medo de perdê-lo e quase que já o perdia quando o perdia de vista.
Por que tinha que ser?
Hoje tantos anos depois quando ainda sinto sua presença atrás do sofá para dar um bote, estremeço de mágoa,  estou machucada, uma ferida que não cicatriza.
Nenhum linimento acalma, nenhum outro ser substitui, vou carregar para sempre a dor da ablação daquela veia recém transplantada para meu coração.
Ainda choro às vezes, um soluço sentido e visceral.
Reparar a perda é um processo longo e diário, eu sei bem.
Mas quando a perda foi violenta, quando o tomar foi agressivo, nunca nos perdoamos.
Se eu tivesse esperado um pouco mais, se eu tivesse evitado o passeio, se eu tivesse vigiado mais.
E se eu tivesse desistido antes de brincar de divindade, que tudo pode e que tudo quer.