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quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Perigo no condomínio

Colocaram em nossa caixa de correio - que anda bastante vazia por causa da greve - uma folha de papel A4 usada na orientação paisagem, com texto em caixa alta. É um texto incomum porque há vários erros de concordância, mas que  tornam ainda mais pungente a dor daquele aviso.
Dizia assim: PERIGO NO CONDOMÍNIO
ALGUÉM NO CONDOMINIO É ILEGAL E USAR VENENO ALTAMENTE TÓXICO NA COMIDA JOGADA QUE PODEM MATAR GATOS E CÃES EM POUCOS MINUTOS.
NOSSO GATO FOI ENCONTRADO MORTO À NOSSA PORTA NA SEMANA PASSADA E EVIDÊNCIAS FORENSES MOSTRAM CHUMBINO FOI USADO.
TOMEM MUITO CUIDADO COM O SEU ANIMAIS COMO ESTA É UMA SITUAÇÃO MUITO PERIGOSA NO CONDOMINIO
SEUS ANIMAIS DE ESTIMAÇÃO NÃO SÃO MAIS SEGURAS ATÉ QUE A PESSOA CRIMINAL É IDENTIFICADO.
POR FAVOR, NÃO SOFREM A MESMA TRAGÉDIA TEMOS.
Em seguida vinha a rua e o número da casa.
Evidentemente não se trata de um analfabeto mas de uma pessoa muito sofrida de outra nacionalidade. Já vi estes erros de concordância na linguagem de alemães, húngaros,  americanos...
Hoje pela manhã durante minha caminhada passei em frente. Lembro-me de ter visitado aquela casa quando estávamos procurando uma para comprar. Era de um casal de franceses e fiquei muito impressionada com os quadros nas paredes todos fantásticos de autores que não consegui identificar..
Era uma casa cor de rosa, muito grande e cheia de "puxadinhos" - a medida em que os filhos cresciam e se casavam o casal construía mais um apartamento. Era um labirinto. Em torno de toda a casa havia um "lago" de um metro de profundidade por uns 80 cm de largura, repleto de lindas carpas. Segundo a senhora francesa, ela não tinha pernilongos nem outros insetos, as carpas comiam.
As pedras de revestimento do piso externo  tinham um desenho em baixo relevo de uma flor que muito me encantou.
Não moraria ali, mas o passeio foi  instigante.
Faz pelo menos um ano, a casa passou por uma grande reforma. Não sei se venderam ou se eles mesmos decidiram organizar o espaço.
Contei esta história para a Helena que me disse que os surdos também escrevem assim. Faz sentido, LIBRAS também é uma língua.
Notei que os gatos que circulavam pelas ruas - eram poucos, uns 5 ou 6- sumiram.
Fico aqui pensando na dor dessa família, na sua necessidade de compartilhar essa violência, esse insulto.
E penso no que eu faria se o gato fosse meu...



segunda-feira, 11 de julho de 2011

King

Mais de uma vez por dia, todos os dias, por todos estes anos, lembro-me dele.
É mais dolorido nesta época do ano em que a temperatura se assemelha àquela em que ele foi arrancado brutalmente da minha vida. Ainda era paixão, mais do que amor. Ainda não tinha desgostado, sabe, falo destas pequenas compreensões das diferenças do outro, que aparecem em todas as relações de amor ou amizade.
Era tudo muito intenso, infinito, definitivo.
Não me cansava de olhar, acarinhar, procurava a todo instante, onde está? onde está? Com certa apreensão, para em seguida encontrá-lo brincando com a sombra da árvore, ou com os ramos de trigo seco da floreira.
No fundo eu tinha muito medo de perdê-lo e quase que já o perdia quando o perdia de vista.
Por que tinha que ser?
Hoje tantos anos depois quando ainda sinto sua presença atrás do sofá para dar um bote, estremeço de mágoa,  estou machucada, uma ferida que não cicatriza.
Nenhum linimento acalma, nenhum outro ser substitui, vou carregar para sempre a dor da ablação daquela veia recém transplantada para meu coração.
Ainda choro às vezes, um soluço sentido e visceral.
Reparar a perda é um processo longo e diário, eu sei bem.
Mas quando a perda foi violenta, quando o tomar foi agressivo, nunca nos perdoamos.
Se eu tivesse esperado um pouco mais, se eu tivesse evitado o passeio, se eu tivesse vigiado mais.
E se eu tivesse desistido antes de brincar de divindade, que tudo pode e que tudo quer.

terça-feira, 19 de abril de 2011

Instinto

Estavam os três a caminhar - mãe, filha e cachorro-salsicha, quando passou por eles um motoqueiro desatinado, que parecia querer livrar-se de um animal. Ele parou a moto mais à frente, chutou o bicho para o meio da avenida e literalmente fugiu. A filha, incapaz de lidar com o abandono, foi até ele - tratava-se de um gatinho de uns dois meses, um vira-latinhas branco de olhos azuis, muito, muito estressado e com o rabo ferido e sangrando... Ela levou o bichinho ao veterinário, deu  vacina, vermífugo, anti-pulgas, comida e água, cuidou dele.
Pois a filha é dessas pessoas que cuidam por princípio. De pessoas, de bichos, de casas, carros, papéis... Mas principalmente de bichos. Por que? O que faz com que individuos da mesma espécie amem, desprezem ou maltratem?   Ela cuida por instinto, o cuidar atávico que acontece as vezes com gente, a outra face da loucura também atávica que destrói, que mata.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Morrer


Outro dia vi um gatinho agonizando, era velhinho, velhinho e estava tão doente. Fiquei ali do lado, confortando e acudindo, mas acho que nem ouvia mais. Prestei atenção em sua respiração, cada vez menos, cada vez mais fundo. Contava o tempo entre uma e outra respiração; penso que é como nascer ao contrário, contamos as contrações da mãe para o nascimento da criança. Quando mais próximas mais perto da hora. Talvez morrer não seja nada além de um trabalho de parto.

domingo, 12 de setembro de 2010

Schrödinger, Heisenberg, Faraday

Era uma vez, em um conto de fadas, um pesquisador que era  professor de faculdade.
No principio era o livro mas o livro era pouco e divagou e divagou.
Assim surgiu a ideia que a pesquisa confirmou ser justa, mas quem era o justo, quem era o deus?
Saiu para caminhar, voltou sem  respostas e tornou ao livro mas não lia, não via, sonhava, antevia.
A princípio era o gato em seguida eram dois ou três, todos dentro da caixa de Schrodinger.
As possibilidades multiplicadas se um não-olho dentro. Se olho também, porque entre os três gatos qualquer combinação é possível. Até uma a mais... se calhar ocorre uma ninhada. Tão incerto quando as partículas de Heisenberg todos em qualquer lugar e em lugar nenhum. Como não vemos as partículas a incerteza é uma certeza.
No começo eram os gatos na gaiola de Faraday.
Lá estarão seguros mesmo que haja cães ferozes ou tempestades de raios. Estarão seguros e visíveis portanto serão exatamente quantos forem e isso é definitivo.
Gatos, cães, partículas, gente.
Com o andar pausado e interrogativo dos jabutis, o professor de física volta às aulas.
Seu destino é incerto e o meu também.
Vamos todos pra gaiola, embrulhada para presente e que os raios todos nos partam e descubram.




terça-feira, 10 de agosto de 2010

O último sono

-"Tita, estou com o gatinho da Helena, ele é cinzinha, tem o peito e as luvinhas brancas e olhos verdes."
Algumas horas depois a Tiaberé tocou a campainha e eu chamei a Helena para ver pela janela. "Olha, filhinha ela está com uma caixa, o que será? Vai abrir a porta pra ela."
Helena desceu as escadas levando a chave do portão que, ela já sabia, tinha um "joguinho" para abrir.
E ouvi a voz da Tice subindo as escadas com ela que dava risadinhas deliciosas.
As duas entraram com a caixa e de lá saiu um gatinho minúsculo e assustado.
Helena estava encantada, olhos brilhantes, carinha vermelha e feliz.
Uma senhora japonesa de Osasco era a dona da ninhada de  vira-latinhas. Quando entregou o Felipe disse  que queria que ele fosse muito amado e bem cuidado ou  deveríamos devolvê-lo. Nunca me esqueci disto.
Passamos por tanta coisa juntos...
- O Miguel foi comigo  ao veterinário. Pedi  que levasse o Felipe  no colo que eu iria passar de carro na esquina  e seguiríamos juntos. Ao parar o carro pude ver o Miguel desesperado com o gatinho mais desesperado ainda subindo-lhe pelo pescoço! Antes de chegar ao consultório, paramos no primeiro pet shop do caminho e compramos uma bela caixa de transporte que temos até hoje.
- A visita à Dra Márcia para as vacinas e um primeiro exame - "Olha só, ele tem o rabinho quebrado!"  Explicou-nos então que ele deveria ter ascendência de gatos siameses, raça em que é comum rabinhos partidos, ou então quebrara-se na confusão dos muitos filhotes embolados na barriga da mãe.
- A difícil decisão de castrá-lo para que não marcasse teritórrio em cada canto e eu que não sabia nada de animais fui gostando muito do assunto. Vi os efeitos da acepromazina pela primeira vez - ele olhava para mim, fixamente e o veterinário perguntou, ele já está sedado? e eu: Não, ainda está de olhos bem abertos!!!
E aprendi, fui  aprendendo com ele.
Conheci uma sala de cirurgia veterinária, observei a forma de prender o bichinho para o procedimento e assisti boquiaberta ao evento tão simples e objetivo.
Viemos para casa e rimos muito do pobre, tontinho pelo efeito da anestesia tentando andar pelo corredor e já o amávamos tanto; ele  nos tornou uma família mais feliz. 
- Helena telefonou para o Miguel: "Papai, o Felipe sumiuuuuuuu"  e toca a chorar!  Havíamos procurado por toda parte ele tinha desaparecido e procuramos de novo e de repente ouvimos um miadinho bem fraco, que vinha de onde? De onde?  Na desordem do quarto da Helena, cheio de brinquedos, roupinhas e livros havia uma gaveta de escrivaninha aberta. Ele havia se enfiado atrás da gaveta e poderia ter sido amassado se alguma alma mais organizada passasse por ali.
Foi o primeiro dos muitos resgates.
- Teve o telhado altíssimo do vizinho da frente que eu escalei sem medo até voltar a colocar os pés no chão com o gato no colo e começar a tremer;
- O telhado da área de serviço da vizinha de baixo de onde foi pescado pelo Miguel com uma rede improvisada;
- O telhado da casa da esquina onde ele sobreviveu três dias de inverno e chuvas às custas de pedaços de carne que  a boa alma que morava embaixo, já saturada de tantos miados, jogava pra ele;
- A grande aventura no Rio quando ele sumiu por quase uma semana e foi encontrado por acaso no telhado de um sobrado de pé direito bem alto, que ficava ao lado de um terreno baldio. Neste terreno estava um felino desconhecido que um caçador de gatos imaginou que pudesse ser o meu. Às três da manhã, Miguel e eu fizemos estrepolias dignas do Cirque para resgatá-lo;
- As patadas na Poli e sua liderança absoluta entre os Rottweilers da casa;
- O salto que deu sobre o dorso da Poli, feito um tigre sobre um búfalo quando ela cismou com o Fred - o outro gato - que ele nem gostava muito;
- Os inúmeros passarinhos, borboletas, morcegos e pererecas que capturou e veio nos oferecer ou comer nos  escondidinhos da casa;
- A hepatite tóxica  depois de ter comido o rabo de um calango provavelmente temperado com agrotóxicos;  - O soro de hidratação no colo da veterinária e a carinha de fastio e raiva do gato adoentado;
- A noite que passou internado quando tripudiou todos os funcionários da clínica e em meio aos rás e fus, ao ouvir minha voz, miou feito um filhotinho;
- A terrível esporotricose, que eu já tinha visto em pessoas e que começava a se tornar epidêmica entre os gatos no Rio. O tratamento demorado e zeloso - salvá-lo, acreditar nele e em mim, não desistir.
Foi a esporotricose que diagnostiquei clínica e microscopicamente que me fez pensar em cursar uma nova faculdade e abrir de vez meu coração e os livros de veterinária.
O aprendizado, as novas amizades, todos os outros bichos, várias espécies, vários tamanhos.
Helena e seu gato juntos, mais de 15 anos salvando vidas, pricipalmente a minha.
Hoje que estou velando o último sono torporoso e dispnéico do meu estimado amigo, ainda quero que ele fique mais um pouco com a gente. Nunca desisti dele. Mas hoje não posso mais.
Ele precisa partir, vai gato,  ser  anjo na vida.
Nos veremos na quarta dimensão, onde me disseram que os gatos são só o sorriso.



domingo, 1 de agosto de 2010

Balanço

Acabaram-se as férias, as festas, os encontros.
Esvai-se lentamente, todo dia um pouco, a vida do meu último gato.
Olho para a frente, em busca do futuro que está ofuscado pela luz intensa do sol a pino.
Mas há um futuro.
Tento deixar os acontecimentos atuais em um caldo, para que se apure o gosto e eu possa aproveitar sua essência.
Amanhã é o futuro, mas e depois de amanhã? Sinto a pressa da viagem, preciso chegar.
Enquanto isso, rezo um pouco. Pelos que foram, pelos que ficaram.
Hoje, quero voce perto de mim, vamos conversar coisas de casal.
Que saudades senti.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Felipe

Pela manhã, acordo apreensiva e abro a porta do quarto. Espero vê-lo no corredor, ver se ele me aguarda.
Dá bom dia, barulhento e vai na frente, mostrando o caminho até a vasilha, vazia de comida.
Reclama da minha demora, sente fome, sente.
Confiro a casa e procuro sinais de seus enjoos e sofrimentos. Se está tudo bem, depois que tomamos café faço com que engula um pequeno caco de comprimido para que possa suportar a próxima refeição.  Tem comido o que quer, ofereço tudo que posso, em pequenas e várias porções durante todo o dia.
Ele sobe no encosto do sofá e fica ali esquentando ao sol. Fecha e abre os olhos, uma fresta apenas e verifica se estou ali. Às vezes me olha tão profundamente que eu não consigo desviar o olhar; devolvo a mirada e tento compreender. De repente vem para o colo e fica muito tempo, se estiiica, apoia o queixo em meu joelho. Atualmente tem preferido ficar quieto no colo, não quer que o toquem como antes. Será que sente dores? Quando compreendi que tocá-lo incomoda, passei a servir apenas de anteparo. Sinto seu corpinho quente em minhas pernas e quero congelar este momento para sempre.
A cada dia mais magro - a metade do que já pesou - e cada dia menos disposto, mas me acompanha pela casa. Ainda quer ir à rua, mas quando abro o portão duvida se sai ou se fica. Acaba voltando para o jardim, onde se sente mais seguro.
Ainda repreende o cachorro, que não liga, nem compreende.
Eu compreendo. E a cada grama que ele perde, perco um pouco de mim.


quinta-feira, 27 de maio de 2010

Felipe

Um dia, um gato chegou e foi ficando. Faz quinze anos e ele ainda fica!
Bom garoto, companheiro demais, sempre sentiu meus desconfortos e doenças e vem miar no meu colo; ele me consola.
Fico animada com ele, funcionamos como um casal.
Agora que está bem doente, olho para ele e penso: como vai ser possível?
O que vou fazer sozinha sem a sua companhia ?
Essa é a maior tristeza de ter bichos: Eles morrem antes, envelhecem antes. Assim, ter um bicho ainda que seja desde filhote significa que ele vai embora antes de nós e somos nós a lidar com a perda.
Assim funciona a natureza.
Seria bom se pudéssemos todos desligar juntos!
Como quem desliga o rádio. Como quem faz uma escolha consciente.

quarta-feira, 10 de março de 2010

Branco

Eu sei que é muito cedo para acordar, é noite ainda.
Mas fico aqui; olhos arregalados a verem a lua que boia no céu.
Quando o sono vem bem devagarinho e quase adormeço, de susto meus olhos se abrem, -"não, é muito cedo para dormir." É desta forma que as horas passam, acordando e dormindo.
Um gato passeia branco como a lua, como a lua.
Subiu no meu peito, apertou minhas costelas e sem se despedir evanesceu.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Estranheza

Era a primeira vez que passava uns dias fora de casa e sozinha, sem os pais e a irmã.
Sentira que poderia ficar, mas quando viu o carro do pai dobrar a esquina, assustou-se.
Entrou na sala com a tia, que a segurava pela mão e falava com ela doce e suavemente, mas ela nem ouvia.
Olhou os móveis que já conhecia  tanto, como se fossem novos, que estranha luz que não havia antes e esses cheiros tão agudos, de onde vieram.
Continuava a ouvir surdamente a voz familiar.
Notou então que a tia esperava uma resposta.
-"Ahn?"
Agora ouviu a pergunta.
Balancou a cabeça assertivamente, abrindo bem os olhos.
Foi brincar com os gatinhos lá no quintal.
Quando se deu conta era quase noite, era hora do banho e do lanche.
Acho que posso, pensou concluindo.


sábado, 7 de novembro de 2009

Apagão

As luzes do bairro se apagaram quando eu estava a dois quarteirões de casa. Acabei de chegar, já pensando onde teria colocado as velas; e antes de abrir o portão, chamei o cachorro para ele saber também pela voz, que somos amigos.
Quando saí de casa, ainda estava anoitecendo, mas depois de uma hora, era puro breu. Quando consegui colocar a chave na fechadura e abri a porta de entrada, fui tateando, procurando o móvel onde costumo guardar velas, clipes, tesourinhas, fósforos. Achei as velas e nada dos fósforos. Fui seguindo pelas paredes em direção à cozinha, arregalando e piscando os olhos, um pouco tonta e aturdida.
Chutei a perna da mesa da sala, (quem mudou a posição dessa mesa sem me avisar?), cheguei depressa demais ao pequeno corredor e entrei na cozinha onde o pote de água do gato passou na minha frente e molhou meu pé. Finalmente cheguei ao fogão, acendi uma das bocas no automático, vi as horas no relógio do micro ondas e morrendo de tédio fui buscar a lanterna que fica no criado mudo do Miguel. Com a lanterna, as duas velas e uma cerveja que escolhi na geladeira, voltei para a sala, para o meu canto do sofá e esperei. Aqui dentro, eu e o gato, no quintal o cachorro e o resto do mundo, na rua.
Um calor absurdo - sempre ocorrem apagões no verão porque, é lógico, todo mundo liga o ar condicionado ao mesmo tempo!
Sem croche, sem livro, sem rádio, sem TV, sem Internet, sem Miguel, sem Helena, fui ficando comigo, me engambelando como diria a mamãe e quando vi no relógio do vídeo que eram dez horas, resolvi ir para a cama. Apaguei as velas, fui com a lanterna para o quarto, tomei um indutor de sono e desanimada com o calor, tive a ideia de deixar o ventilador ligado, caso a luz voltasse enquanto eu dormia. Quando apertei o interruptor a máquina começou a soprar. Oba, a luz voltou. Pena que tomei meu remédio para dormir...
Mas, espere aí... como acendi a vela com o acendedor automático elétrico, quando cheguei em casa? E a luz da geladeira quando escolhi uma cerveja? E os relógios???
Pois é...a luz voltou logo que cheguei e eu não tinha percebido.
A solidão e a saudade, mesmo compartilhada com os bichos, me deixam sem energia.
Além disso, miolos cozidos ao calor não funcionam bem.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Um delicioso texto da Helena...

Helena escreveu este texto para mim. Preciso dividir com vocês... Aproveitem!

Ela é forte. E como é forte. Bota forte nisso. E como todos nós, às vezes sabe disso, às vezes nem tanto.
Ela já ficou muito doente (mesmo), muitas vezes. Desde criança. Aliás, quase todas as coisas que eu já tive ela conhece bem, porque também teve. Genética ou não, ajuda ter alguém que entende bem a coisa. Mas tudo isso passou.
Hoje ela tem um coração invejável (em muitos sentidos). Com ele, corre bem, malha bem, escreve bem demais, cuida (e muito bem) de mim, dos gatos, da casa, do meu pai, do Haus, do mundo. Faz os melhores bem-casados do planeta, só pra mim.
Existe uma expressão em inglês que diz "levar o coração na manga". Sempre lembro dela quando ouço. O coração potente é o que a define. Em tudo. Está sempre presente.
Se ela faz, FAZ. MESMO. Até o fim. Bem feito. Bonito. Nota dez.
Meu pai costuma dizer que às vezes "ela some, aí depois aparece". Sempre tive o costume de, ao sair com os dois, ficar com um olho em cada um. Porque ele vai pisando seu caminho de sempre, confortável. Ela até acompanha, mas aí vem um passarinho tão bonito que ela vai atrás, só um pouquinho. Às vezes volta sozinha, em outras eu chamo o passarinho para vir conosco, aí ela vem também.
Com ela, sem grosseria. Faz com que ela se encolha. Mas não para sempre. Quando chega no limite, o coração aparece, puto.
Também trago sempre o meu coração comigo. Aprendi com ela, tenho orgulho disso. Aprendi a trazer o coração, o casaco, o passarinho dela, a música, a respiração, a bebidinha, as balinhas, o crochê, o gato. Ops!
Não ligue, às vezes a gente se confunde.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Faz três noites que não durmo

Tenho uma topiária muito graciosa no jardim, velhinha e em forma de mico, que sempre me encantou. Queria restaurá-la e procuro alguém aqui no Rio que faça esta arte, mas mesmo pela internet está difícil.
O Felipe, meu gatinho de 14 anos, aliás, meu não, da Helena, presente da Tiaberé quando ela fez 7 anos, está muito doente. Tenho esperanças de que ele se recupere, é um gatinho muito valente. Desde pequeno, sempre foi à rua e por conta disso já se meteu em muitas encrencas.
Há uns 10 anos, (ainda morávamos no Novo Leblon,) chamei por ele, que não respondeu nem veio rápido encontra-se comigo. Esperei um pouco, chamei de novo. Saí pelo condomínio procurando e chamando, quem me viu certamente pensou -" lá vai a maluca! ". Dia seguinte e nada do bichano voltar. Falei com todo mundo que encontrei, pensava que ele poderia ter morrido, mas voltava a procurá-lo quando me lembrava de que se estivesse vivo, estaria assustado ou ferido.
Soube que ali perto morava um outro maluco, que passava algumas noites da semana tentando engaiolar gatos vadios; esses que todo mundo acha que pode ir deixando assim, pelos condomínios, famílias inteiras de felinos meio mortas, abandonadas à sorte fortuita de alguma criança apaixonar-se por algum deles e levar para casa. Os mais fortes acabavam sobrevivendo e por sua vez tinham seus filhotes e tudo se repetia. O rapaz caçava os gatos para levá-los para cuidados veterinários, depois castração e então colocá-los para adoção. Tarefa difícil e muito corajosa. Eu mal posso ver fotografias de bichos abandonados em portas de pet shops que já fico toda lacrimosa.
Daquela vez o meu bicho tinha me abandonado e faz tempo que decidi não deixar que me abandonem impunemente.
Resumindo, fui atrás do rapaz e pedi a ele que se, em seus passeios noturnos, encontrasse um gatinho cinzinha, com peito branco e rabinho quebrado, que me avisasse, era o meu!
Confesso que já estava resignada, na terceira noite...
O telefone tocou lá pelas três da manhã. O moço tinha visto um gato diferente em um terreno baldio, na rua paralela a minha. Deixamos a Helena dormindo (com um bilhetinho explicativo caso ela acordasse) e fomos Miguel e eu, felizes, oba, só pode ser ele, só pode ser ele.
Com a lanterna vimos no meio do mato um bichano meio malhado, meio amarelo... eu não acreditava. Resolvi chamar, quem sabe era uma camuflagem?
Chamei e o Felipe respondeu....mas de cima do telhado da casa ao lado do terreno baldio!!!
Ficamos conversando os três no meio da rua e eu chamava o Felipe e ele preso lá em cima sem conseguir descer... A porta da sacada do segundo andar da casa se abriu e um casal meio tonto de sono, cabelos desgrenhados, apareceu. Falei com os dois com muito jeito, se me permitiam por favor, buscar meu gatinho e eles disseram que ele estava lá havia três noites, miando miando...já pensaram? Que bom alguém acabar com aquela tortura!
Entramos rapidamente (lindos quadros na parede!) e fomos na parte de trás da casa onde o telhado era mais baixo. Subi em uma mureta e o chão duro me esperava uns dez metros abaixo. Chamei e o Felipe veio e eu quase encostava nele, faltavam centimetros. Naquele equilíbrio precário resolvi subir nos ombros do Miguel, assim conseguiria alcançá-lo. Mas quando me viu tão perto, com medo de cair, o gato não se aproximava tanto. Ofereci um biscoitinho e ele estava faminto e eu quase pegava e ficamos nisso minutos intermináveis, pelo menos para o Miguel que me equilibrava nos ombros.
Num impulso temerário, consegui agarrá-lo por um braço e puxei com força, ele caiu em cima de mim e eu desci dos ombros do Miguel; nós tres estressadíssimos e saímos da casa agradecendo muito, diante do olhar aliviado do casal.
O Felipe ficou bem depois de um banho, muito carinho, comida e água.
No dia seguinte, quis oferecer aos donos da casa, um agrado e fui a uma floricultura muito especial, onde conheci as topiárias. Eram bichos vários ou outros arranjos interessantes . Eu fiquei com o tal mico que tenho até hoje e levei para os anfitriões do Felipe uma topiária de gatinho, muito simpática. Mandei entregar com um cartão, agradecendo por nós quatro!
Durante toda aquela semana, várias vezes me peguei cantando uma variante de uma canção infantil:

"Faz três noites que não durmo, ô Lalá, pois perdi o meu gatinho."

segunda-feira, 31 de agosto de 2009



sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Convite

Venha até minha casa, vamos conversar, tomar vinho, falar de antes, comer queijos, falar de agora e suspirar, descansadas, saciadas de lembranças. Conte-me seu novo trajeto para casa, dos cães que viu em seus passeios, dos cachorros-homens que rosnaram e estragaram seu dia. Lembre-se de trazer suas fotos mais recentes, das últimas baladas, para eu saber que está se divertindo enquanto amadurece. Venha ver as últimas mudas que plantei no jardim, há joaninhas por toda parte.
Chame meu gato de fofo, repare nas novas almofadas da sala, conte-me de sua mãe.
Vamos falar em todas as línguas, vamos rir bastante de nós mesmas e vamos nos despedir, às gargalhadas, no meio da chuva.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Voltar a ser

Tenho esperanças de voltar a ser. No piano, vários papéis empilhados, causam uma impressão de desleixo. Contas a pagar. Quando eu voltar a ser, as contas não mais atrasarão.
Sobre o mármore na cozinha, umas frutas esperam para serem lavadas e empilhadas na fruteira. Falta de tempo, falta de ânimo. Quando eu voltar a ser, vou comer todas as frutas que comprar.
Os vidros das janelas estão sujos, choveu e choveu e os vidros estão muito sujos. Vai chover de novo, mas tenho que me preparar para limpá-los. Vidros sujos escurecem as sombras e as penumbras.
O cão se coça no jardim, curtindo o prazer da coceirinha. Preciso banhar o cão e talvez o gato. Acho que posso deixar para amanhã, mas amanhã sem falta, se não chover de novo.
As malas estão por desfazer, roupas sujas, roupas usadas, uns tênis, coisas de toucador e eu sei, em algum cantinho está um bombom Garoto.
No quarto de quem mora fora, tudo está em ordem. A ausência organiza. O silêncio limpa.
Vou varrer a casa e depois trocar as roupas de cama, mas antes preciso falar com a Beth sobre as aulas de ginástica. Se ela puder vir, convido para um chá com bombas de chocolate. A Beth nem vai reparar, talvez me ajude a reparar tudo, talvez faça um curativo no meu machucado.
Preciso comprar pão, vou de bicicleta, ou melhor vou pedir ao meu menino que busque o pão, de bicicleta. Lá fora, o sol arde, aqui está confortável por causa do ar, não vou sair, vou esperar que alguém vá e compre, vou deitar um pouquinho, minha cabeça dói.
Amanhã, quando acordar, estarei menos ferida, quem sabe amanhã mesmo, volto a ser.

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Uma bolsa triste

Chove no paraíso tropical. Faz frio também. O gato e eu esperamos a chuva acabar de chover. Olhamos pela janela, as mãos no queixo, os cotovelos no parapeito. Enquanto isso caraminholas brotam, emergem, do fundo falso da minha bolsa. Olho para dentro e o espaço vazio está cheio de pequenos pulgões e traças. Alguns vermezinhos brancos e molengas deslizam entre fios de algodão. Alcanço algo macio e descubro que é um bem- casado esquecido depois de um casamento bêbado. Uma mancha escura com cheiro de chocolate lembra-me que comprei toblerones na última viagem. Um pedaço de fita do senhor do Bonfim era o desejo de ter algo que despedaçou. Um batom vermelho meio torto, salpicado de fumo de cigarros amassados pela pressa, também estão lá. (Só as pessoas que já carregaram maço de cigarro e batom sem tampa na bolsa conhecem essa imagem.) Ahn, também encontro uma lente gelatinosa da minha filha, ressecada e opaca. E uns pelos de gato amarelo, muito antigos, um gato que já morreu...
Cá entre nós, ainda bem que este fundo era falso.
Vou deixar isso pra lá e sair pra comprar uma bolsa nova, com cheiro de novidades.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Que remédio!

Todo mundo que tem ou já teve um gato sabe como é difícil dar remédio para eles. Comprimido até que é possível, se a pessoa for esperta e for objetiva e bruta.
Pega-se o gato preso entre as pernas, com a mão esquerda abre-se bem a boca até ver a goela lá no fundo e coloca-se o mais profundamente possível, o comprimido.
Mas existem riscos. Se não for fundo o suficiente, o gato cospe e se for fundo demais pode ir parar no pulmão...
Tenho gatos há 14 anos, sempre deu certo, nenhum acidente.
Mas hoje foi diferente. O veterinário receitou gotas e mls...
Fiz o procedimento habitual, o Felipe muito estressado depois da visita ao veterinário com coleta de sangue e pareceu-me que tudo estava bem, primeiro as gotas depois meio ml da seringa.
Soltei o gato e fui lavar as mãos.
Quando voltei - pânico! O gato babava horrores! Uma gosma branca e preguenta, e babava e babava. Será que intoxiquei o coitado?
Levei um tempo para lembrar que as gotas de plasil são muito amargas...Coitado...vidinha mais ou menos, como diz minha cunhada.
Mas o mais triste de tudo é que ele deve ter "secretado" todo o remédio. E agora? Aplico uma nova dose? Espero o próximo horário?
Resolvi passar na farmácia e comprar a medicação em comprimidos.

terça-feira, 14 de julho de 2009

Tenho

Minha casa, meu caminho, minha vida. Minha mãe, meus irmãos, minhas irmãs. Minha filha, meu marido, meu cão, meu gato. Minha bolsa, meu celular, meu computador.
Sou uma senhora de posses...