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quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Presságio

Estava lá fora quando ouvi um estrondo. Fogos de fim de ano? Não eram... Nem helicóptero e nem trovões.  Eram tiros de verdade.
Não estavam ao alcance da minha vida nem mesmo da minha vista, mas arregalei os olhos num presságio mudo. Mataram ou morreram? Quem?
Suspirei relaxada, feliz de não ser ainda, vítima de balas que se perdem.
Não devo nada a ninguém. Nem ofereço resistência se me assaltam. Somente uma bala sem destino se alojaria em meu corpo.
Se houver tiroteio arregalo os olhos e num alvoroço me escondo de mim.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Furtos, roubos, latrocínios

Furtaram meu anel, joiazinha de beleza singela, herdada de minha avó. Uma pérola levemente rosada, em uma aliança de ouro português; que pena. Ainda tenho o hábito de buscá-la no anelar direito com o polegar, se estou nervosa ou preocupada.
Havia deixado sobre a pia, no quarto do hotel, porque estaria visitando o centro da cidade onde o roubo é comum. Quando voltei ao quarto e dei pela falta, acionei camareiras, gerentes, tudo.
Ninguém tinha entrado no quarto, ninguém.
Uma tênue marca de pele mais clara no dedo confirma que o que eu tinha ali era querido e usado constantemente. Mas, nunca mais vou vê-lo, nunca mais vou tê-lo. É de partir o coração.
Roubaram-me certa vez uma corrente. Dessas muito finas de se pendurar o santo, ou os filhos.
Saí distraída do meu prédio e nem vi quando o rapaz veio ao meu encontro,  bateu a mão no meu peito e levou minhas lembranças. Apesar de triste, fiquei mesmo muito assustada e em pânico, chorei como havia anos não chorava.
Uns tempos depois me aconteceu ser vítima de um roubo qualificado. Os dois rapazes fizeram-me um cerco na porta do carro e um deles, conversando baixinho comigo, com uma expressão inteligente e amigável, me mostrou o trabuco na cintura. Não gosto mesmo de armas, mas aquela teve o efeito de uma convulsão. Perdi as pernas, acho que até babei de pavor. Saí da frente deles, cada um entrou por uma porta e lá se foi minha bolsa. Só, porque o carro, não conseguiram levar, talvez por ser automático; deixaram lá todo aberto e fugiram na Pajero em que tinham chegado.
A sensação de vazio é quase irreparável quando lhe roubam a bolsa. Para nós, mulheres, bolsa  é uma espécie de fetiche, um missal; um objeto de aglomeração da identidade.
Meus documentos, minhas fotos, minha caderneta de anotações e a de endereços,  minhas chaves, nossa, o quanto de mim havia ali?
Tinha me conformado com a via sacra necessária para fazer a segunda via dos documentos, cancelar cartões e tirar nova cópia das chaves.
Depois de uns três dias, recebi uma ligação de uma amiga querida, com quem não falava há meses.
Ela disse-me que recebera um telefonema curioso: Disseram-lhe que os meus documentos tinham sido encontrados e estavam a minha disposição na igreja evangélica de um bairro da periferia. Conseguiram o telefone dela na minha agenda de endereços.
Não podia acreditar! Mas eu iria até lá? Nem morta!
Chamei um táxi, dei a ele o endereço e pedi que fosse buscar os documentos para mim, que eu o pagaria na volta por todo o processo. Ele topou, concordou comigo que eu não deveria mesmo ir e me fez esse grande e caro favor. Voltou trazendo a bolsa, um pouco enxovalhada mas quando olhei dentro tive uma grata surpresa. O dinheiro, os cartões, o celular e outras quinquilharias tinham desaparecido, mas meus documentos estavam muito bem arrumados dentro da carteira, coisa que jamais consegui manter.
Quando bate um desespero de não encontrar mais nada lá dentro, crio coragem  e esvazio no tapete todo o conteúdo para dar um jeito e jogar  fora pequenos papéis e outras bobagens. Mas assim que arrumo a bolsa e saio de casa, algo acontece lá dentro e as tralhas em conluio se desarranjam.
Confesso que senti certa vergonha do bandido. Mas fiquei muito feliz de reaver os documentos.
Bom, não gosto muito de pensar no assunto, mas do jeito que vai, o próximo acontecimento dessa natureza  é um roubo qualificado seguido de latrocínio. Eu, hein?

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Ora, técnicos!

Eu bem que poderia ter comprado uma nova. Ficava livre deste entra e sai de técnicos abusados ou indiferentes ou o pior, que não têm a menor ideia do que estão fazendo.
-"A parte mecânica está reformada, o defeito agora é elétrico, é outra coisa."
Aos poucos dava uma máquina nova!
-"Não, a máquina da senhora é muito boa, vale a pena reformar!"
Estão é construindo uma máquina frankenstein, droga! Depois da reforma mecânica ela saiu dançando pela área de serviço, quase escapole pela porta.
Depois foi a geladeira. O técnico veio, abriu as duas portas e ficou um tempão olhando lá dentro, com as mãos apoiadas na cabeça e os cotovelos nas portas abertas.
Perguntei: -" o senhor encontrou algum defeito?" E ele ríspido: - " ' olhando aqui!"
Depois, com um sorriso meio forçado disse que a deixasse descongelar por 24 horas - os canos estavam entupidos de gelo - e que quando eu colocasse para funcionar no dia seguinte, ela estaria novinha em folha. Estava mesmo, mas com o mesmo defeito.
No hospital, o técnico do Rx também agiu estranhamente. Sentia que ele mexia no meu tórax para lá e para cá, virava mais para a direita e outra vez para a esquerda... Muito chato.
E ainda teve que repetir tudo e começou toda aquela apalpação outra vez. Fiquei quieta e maleável, as mãos acima da cabeça. Foi um assalto!
Técnicos!
Outro dia soube que abriram vagas para técnicos em geral e que uma parte substancial dos inscritos tinha curso superior, muitos até pós-graduação... Salário base de seiscentos reais...
Bom, um torneiro mecânico pode conseguir muito sucesso, todos sabemos disso.
O que falta saber, tecnicamente falando, é se estão preparados para ele.

domingo, 27 de setembro de 2009

Crisma

Assim que saí do prédio, com pressa, procurando um táxi, senti a mão pesada e grosseira no meu peito. Ele arrancou minha corrente de ouro com a cruz, presente de crisma de minha madrinha Fernanda. Ele correu e eu, loucamente, corri atrás. Ao cair em mim, desisti, não tinha chances.
Fiquei um pouco atordoada, mas parei um táxi e fui, fazer exame para pilotar motocicleta. Estava zonza, confusa, acabei queimando a faixa, fui reprovada. Voltei para casa de táxi, entrei no apartamento tensa, as mãos frias e um formigamento no rosto. Por fim, ainda com a carteira de identidade nas mãos, desabei!
Telefonei chorando para minha mãe.
- Mamãe, fui assaltada, um grandão roubou a corrente que a Nanda me deu quando fui cremada!
Ela deu uma risada gostosa. Cremada? Está doida, Tita?
Eu estava mesmo fora do prumo.
Perdi minha corrente tão querida depois de levar um soco no peito, perdi a dignidade e a ousadia que o momento exigia, enfim... fui assaltada mesmo!
O primeiro dos muitos assaltos que aconteceriam pela minha vida.