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segunda-feira, 4 de junho de 2012

"Ausência de presença"

A manta do sofá guardava ainda a forma do corpo dela, hoje pela manhã. Pude vê-la aqui ao meu lado, a descansar sobre as almofadas e, muito moderna e encantada ler Machado em seu Kindle,
Peguei a coberta e desfiz a ilusão. Com uma chacoalhada pulverizei sua presença por toda a sala.
Micro bolhas multicoloridas pairaram no ar e depois se assentaram sobre os móveis, as frestas, as persianas...
Algumas eu fiz explodir com um toque, ao saborear um brigadeiro, tomar um Nespresso, ou caminhar na praia.
O dia está lindo, mais uma vez.
E sei que as microbolhas de presença que se espalharam por aqui vão nutrir meu cotidiano até a próxima vez.

domingo, 22 de maio de 2011

Ver o mundo

      Ah, mundo, faz isso não, abra a porta para eu entrar.
Se não for a porta pelo menos uma janela, um basculante que seja, eu preciso ver de fato.
O que vejo daqui, das telas de tv e computador, não tem os cheiros que preciso, nem os sabores de dar água na boca. São imagens esterilizadas, e a emoção que sinto é emprestada dos filmes ficcionais ou não.
    Olha mundo, entre você em minha casa, eu que chamo todos para as visitas do ano, entre por minha porta de madeira, aberta, pelas frestas das janelas, pelas passagens das goteiras do teto. Traga seu hálito fresco e novo e sua pulsão de vida. E com a água das chuvas interrompa esse marasmo, faça-me irritações de toda espécie, liquide de vez a anestesia da minha língua e minha falta de tato.
   Outono do mundo pode entrar e traga suas folhas douradas. Vão sujigar meus medos de pequenos insetos.
   Mexa comigo, mundo. Faz-me viver.



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segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Movimento Browniano

Pela manhã escancaro todas as  janelas.
Sem filtros, miasmas noturnos entram e se escondem nas frestas escuras dos quartos e das salas.
Momentos aprisionados se expandem para o jardim, num rodopio.
Navios atracam nas camas, outros apitam felizes em partir para o dia.
O vento, o vento. Não há calma, nem silêncio. Sons fugidios agarram-se aos batentes.
Sou eu quem não tem filtros,  nem mesmo uma tela mosquiteira separa  o dentro do fora. Preciso desse ir e vir browniano, para aquecer e rearranjar os sentidos.
Sei que assim exposta corro riscos, eu sei. Não tenho o corpo fechado como ele...
Mas em plena criação quem pode conter esses fluxos?