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quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Entardecer

Que pena que entardeci...
Poderia ter compreendido melhor meu compasso, ao descobrir alguns recantos nas entrelinhas do meu dia, usando cada ponto bordado no tapete, como o início de um ponto de vista.
Quisera acordar ainda no meio de uma manhã, tomar café com leite, comer pão com manteiga e ir relaxar na rede da varanda da mamãe.
Aproveitaria os detalhes das rachaduras do teto, compreendendo seu desenho caprichoso e bem humorado.
Argumentos ditos ao pé do ouvido seriam absorvidos com muita calma e mastigados como as frutas maduras da estação. Sementes brotando àtoa, as folhas se espreguiçando.
Almoçaria sem cálculos, voltar a comer por prazer e aventura.
Faria uma puxa, fervendo água com açúcar e limão, você se lembra como era bom comer da colher?
Faria um bolo recheado e confeitado, a massa batida com zelo , cuidados no recheio cremoso e na cobertura branca, enfeitada de florezinhas.
Sentiria o calor na boca do forno; e nos pés descalços, o chão frio de ladrilho vermelho da cozinha.
E quando houvesse uma chuva, daquelas pesadas, choronas, ficaríamos encharcados, meus irmãos, eu e o cachorro, felizes, jogando fora algumas horas da preguiça, que não podemos mais.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Desculpe, senhora

Desculpe, senhora, se pareço triste, mas é que meu nego morreu. Vivemos juntos por mais de 14 anos, dividindo a cama e as contas e agora estarei sozinha.
Desculpe se me atrasei, chove por toda parte, a descida da serra está um perigo, além disso meu bem morreu; aqui está seu pão e seu leite.
Sinto uma falta custosa, parece que estou com fome, dói-me o estômago, ele, ontem à noite, não telefonou. Depois ligaram do hospital. Passei a noite chorando, veja meus olhos inchados, veja meu coração inflamado, o coração dele parou.
Os pimentões não estão vingando, apodrecem ainda novos e caem no chão de lama. Tenho lama nos sapatos, minha alma não vingará sozinha, veja como vai murchando.
Desculpe, senhora, se não a ouço. Estou surda de tristeza e desamparo, nem posso ir despedir-me, que bem longe de mim morreu.
Vou rezar por ele e por mim e por todos que perderam alguém para sempre.
Não somos mais as mesmas, de hoje em diante sou um pouco menos, aqui está seu açúcar, senhora, adoce seu café.