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sábado, 15 de outubro de 2011

Atlética

A Helena deveria ter uns 5 anos quando aconteceu.
Frequentei a Associação Atlética da faculdade  por muitos anos depois de formada e Helena ia comigo nadar naquele piscinão azul e fundo. Ela fazia aulas de natação desde os três anos portanto se virava bem. Antes das brincadeiras na água atravessávamos várias vezes a  piscina e ela me acompanhava direitinho para surpresa de muita gente que achava que ela era pequena demais para tanto esforço. Ela usava uma boia de cortiça na cintura, que muita gente não via - acho que nem produzem mais este tipo de artefato.
Era nesta época do ano; e numa reviravolta do tempo um grande temporal se anunciou. Corremos muito, dei um banho quente nela, sequei ao máximo seu corpinho e seus cachos, e com roupas secas e quentinhas  saímos rápido para chegar em casa antes da chuva. Íamos a pé e nem tinha pensado em guarda-chuva; o dia tinha começado muito azul.
Nem passamos na lanchonete ali do lado onde havia o mais gostoso e cheiroso pão de batata.
Mas não teve jeito, a chuva desabou com direito a raios e trovoadas, ao meio do caminho!
E ela ainda com o cabelo úmido da piscina abriu um berreiro e reclamou:
- Estou toda molhadaaaaaaaaa!
E eu:
- Pois é, eu também! Quem está na chuva...
Tratamos de relaxar e curtir aquela chuva de lavar o coração!

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Inverno

A chuva balbuciava lá fora.
Um vento assustou as cortinas e eu acordei transida de frio.
Aqui, entre quatro paredes - as minhas paredes - espero o amanhecer da segunda-feira.
Ontem passeávamos em um céu sem nuvens e no meio da noite, a chuva, a chuva.
Andar nas nuvens? Mais dificil que correr na areia fofa...
E assim, divagando, deixo que o dia se arme; uma luz difusa e tênue.
Hoje os aviões atrasarão, o trânsito estará ainda mais complicado.
Mas temos que viver o ruim também. Um contraponto.
Mesmo em um dia assim, que começa inesperado pela madrugada, haveremos de comer pão, tomar café e escrever um pouco.
A vida continua e o tempo é circunstância.




terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Despedido

Despedido.
Lá fora o rapaz denso como uma estrela de neutrons caminha sob a chuva forte e não sente. Voltou-se para dentro e procura o buraco negro onde devem estar todas as respostas. Respira sem consciência e pára no farol aguardando o trânsito. Na faixa de pedestres chuta um papel molhado que gruda em seu sapato e segue pela avenida agora encharcado e ignorante. Os assaltos continuam ocorrendo por perto. Centenas de pessoas saem do buraco do metrô, abrem seus guarda-chuvas e atrapalham quem vem atrás. O tumulto é inevitável mas ele passa ao largo, desdenha a multidão. Segue bem rápido agora e se perde na densidade de sua chuva que nunca terminará.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Temperos

Queria  um pouco de açúcar para temperar este dia tristonho e lerdo.
Quem sabe uma chuva doce transformasse a rua vazia em uma multidão, ainda que de formigas e suas sombras.
Talvez eu pudesse enfim beber da água da chuva sem mistérios ou receios.
(As palavras fluem mas eu não.)
Estou triste mesmo e nem um bolo de chocolate resolverá.
Este dia salgado, cheirando a bife, começou e vai acabar assim.
Temperado demais, prolongado demais, preguiçoso.

terça-feira, 2 de março de 2010

Goteiras!

Sempre considerei goteiras um problema social. Imaginava que quando estivesse em melhor situação financeira não sofreria com elas.
As goteiras aconteciam com frequência nas casas da minha vida no interior. As chuvas pesadas, o vento enlouquecido, mangas despencando sobre o telhado, telhas quebradas! Nada mais natural que goteiras. Fazia parte colocar panelas para aparar os pingos ou jorros dependendo da intensidade do evento. Um pano em volta da bacia também ajudava com os respingos. Muitas vezes era preciso deslocar a cama para não acordar sob o efeito da tortura do pingo sobre a cabeça. Quantas vezes vi lâmpadas acesas com água dentro, pela metade, como pode? Para mim era o próprio coquetel Molotov. Dava medo.
Depois da estação das águas, lá pelo fim de Março a chuva dava um tempo, os telhados secavam e era possível trocar as telhas quebradas; os quartos com o assoalho manchado iam ficando menos úmidos.
Puxa, tinha sido um pesadelo, bastava balançar a cabeça e esquecer.
Até começar tudo outra vez.
Depois que me casei, passei muitos anos livre delas - morava no sexto andar de um prédio de dez e o que torturava era a infiltração pelo cano corrompido do vizinho de cima.
Apesar de às vezes o vasamento ser pelos canos do esgoto, era menos humilhante.
Isso mesmo, goteiras são humilhantes! Acaba com a auto-estima até do pavão.
E hoje, que tenho um marido adorável, uma filha queridíssima e uma casa linda, cá estou de novo às voltas com as malditas.
Chove no quarto, chove na sala, chove no banheiro, no lavabo, no sótão.
O som dos pingos que muda de tom de acordo com o preenchimento da vasilha - de metálico e raso passa a gordo e profundo - é quase tão ruim quanto o som dos primeiros pingos de goteira no sinteco. Som seco e definitivo. Tec.....tec.....tec... Não há dúvidas. Goteiras!
Começo a compreender que elas são gotas divinas, uma espécie de remédio celeste para tratar a arrogância que às vezes adoece o coração.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

A febre

Ao meu lado sentou-se uma mulher com febre.
Dela emanava um cheiro quente de cânfora e resignação.
Estava quieta, encolhida, sonolenta. Espesso, grisalho e fosco, seu cabelo estava cansado.
Não me decidia a levantar porque o ônibus estava lotado e teria que ficar em pé pelos 45 minutos que faltavam para o fim do trajeto. Pensei em respirar mais devagar, fingir que não temia seu estado contagioso, mas estava alarmada.
Ela acordou de repente, pressentiu seu ponto (quem anda muito de ônibus tem este dom), levantou fungando e sofrida desceu para a chuva, sumiu embaralhada às pessoas coloridas e comuns.








sábado, 12 de dezembro de 2009

Caos

Vi o caos de perto na quinta-feira. Quando voltamos de São Paulo e saímos com o carro do aeroporto Santos Dumont, em poucos minutos ficamos ilhados - água por todos os lados. Era tarde da noite e passamos mais de três horas em congestionamentos movidos a barreiras de água. Cada caminho planejado mostrava-se inútil depois de poucos metros. Andar cem metros era glorioso.
Hoje, vi umas fotos tristes, mas belíssimas do caos em São Paulo na semana passada.
http://blogs.estadao.com.br/olhar-sobre-o-mundo/cidade-submersa/
Ao vivenciar e ver estes desastres observei que curiosamente não há pânico, ninguém buzina, todos esperam por qualquer sinal de melhora do aguaceiro, poucos se aventuram nas águas, sem sucesso. Pessoas empurram carros enguiçados, empurram carrinhos, motos, bicicletas, muitos encharcados tomam plenamente a chuva, a revolta da natureza.
Todos estão tristes. Todos parecem conformados.
Conformados.
Caos consciente.
Nossa espécie auto-ameaçada.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Lamentação

As cigarras lamentam.
Clamam pela chuva, por um pouco de sombra, por um eclipse do sol.
Estão há quase um mês cantando roucas, mas hoje é pura lamentação.
Muita vida espreita debaixo da terra seca. Querem explodir, mas aguardam.
Não posso prometer que chova hoje. Mas estarei cantando aqui dentro de casa, chamando uma chuva mansa, que seja abençoada por Deus e seus escudeiros.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Desculpe, senhora

Desculpe, senhora, se pareço triste, mas é que meu nego morreu. Vivemos juntos por mais de 14 anos, dividindo a cama e as contas e agora estarei sozinha.
Desculpe se me atrasei, chove por toda parte, a descida da serra está um perigo, além disso meu bem morreu; aqui está seu pão e seu leite.
Sinto uma falta custosa, parece que estou com fome, dói-me o estômago, ele, ontem à noite, não telefonou. Depois ligaram do hospital. Passei a noite chorando, veja meus olhos inchados, veja meu coração inflamado, o coração dele parou.
Os pimentões não estão vingando, apodrecem ainda novos e caem no chão de lama. Tenho lama nos sapatos, minha alma não vingará sozinha, veja como vai murchando.
Desculpe, senhora, se não a ouço. Estou surda de tristeza e desamparo, nem posso ir despedir-me, que bem longe de mim morreu.
Vou rezar por ele e por mim e por todos que perderam alguém para sempre.
Não somos mais as mesmas, de hoje em diante sou um pouco menos, aqui está seu açúcar, senhora, adoce seu café.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Alô?

- Oi, você me telefonou?
- Sim, só para saber se está tudo bem.
- Tudo bem e você, onde está ?
- Estou longe, mas vou embora mais cedo.
- Oba, vamos nos ver antes de anoitecer?
- Com certeza, a menos que chova.
- A tarde está tão bonita...
- Vou instalar alguns programas no computador novo e depois caio fora...a menos que chova.
- Se chover dirija com cuidado. E não me telefone enquanto estiver dirigindo, é perigoso.
- Não telefono mais.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Cassiel

"- Ela insiste em dizer que comeu isso, aqui!! Mentira, ?"
Um casal gordinho passou por mim no calçadão e foi somente isso o que ouvi. Eles caminhavam bamboleantes, roupinhas básicas e confortáveis e iam indo, tagarelando.
Eu estava correndo, no sentido contrário, já bastante cansada depois de quarenta minutos.
Não chovia mais e o mar estava prateado pelo reflexo das nuvens pesadas. Tratei de me distrair imaginando que se eu fosse um dos anjos caídos do filme "Asas do Desejo", estaria ouvindo muitas outras conversas, outros sons e todos os pensamentos...

terça-feira, 21 de julho de 2009

Oca

Estou oca.
Acordei pensando no tempo que queria, claro e quente.
Está frio e chove.
Haveria de voltar para os lençóis se não fosse a minha fome sempre imperiosa pela manhã.
Levantei e fui pegar uma fruta e vi meu destelhado telhado, puxa vida.
Para recuperar o teto, deve-se saber que se as telhas já não existem, o telhado é um vão, com vento e chuva selvagem entrando dentro da casa, que sem teto não é casa, mas um espaço delimitado sem função.
Pretendo recuperar a lucidez, mas preciso de uma boa noite de sono.
Por enquanto, estou oca.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Bolo

Hoje, ao bisbilhotar a geladeira, encontrei um pedacinho de bolo de chocolate meio velho, e lembrei do gosto de um dia especial. Vinha confeitado com bolinhas coloridas e insossas. Ao morder, lembrei da chuva daquele dia em que compramos e comemos nosso bolo de aniversário.
Faz tanto tempo que comemoramos, muito tempo mesmo. Muitas vezes só acrescentamos um número ao pacote de números, outras vezes, comemoramos em um festa linda e chique, feita de encomenda para outra pessoa, mas que aproveitamos como se fosse nossa e melhor ainda, uma festa surpresa. Dançamos de rosto colado e renovamos o sabor alegre do nosso beijo.

domingo, 28 de junho de 2009

Queijo esquecido

Queijo Brie, sem goiabada, sem vinho, sem nada. Eu, meu Miguel, minha filha, saudade. De novo. Sensação aguda de amor, derramado, solto, aos pedaços, ao vento, numa chuva morna de verão.
Um cachecol vermelho, esquecido no sofá, se insinuando entre almofadas e mantas e gato.
Volte. Vem semear de pequenos lembretes minha casa imensa e vazia.

terça-feira, 16 de junho de 2009

Pranchas e guarda-chuvas


O gingado característico dos meninos das praias deve ter a ver com carregar pranchas de surfe.
Nunca participei de uma aula de surfe mas os professores devem instruir sobre como caminhar na praia, andar de bicicleta, tomar uma água de coco sem "pranchear" as pessoas em volta. Aquilo é uma arma. Os meninos carregam a prancha na horizontal que forma um T com seus corpos esguios. Volteiam pra lá e pra cá e todo mundo parece sair incólume. Deve haver um segredo...
Eu sempre tive medo e só de pensar que uma prancha pode me atingir quando estou pegando um jacaré, sinto um frio no estômago e quero voltar para a areia. Ou para o calçadão que é definitivamente o meu lugar.
Em São Paulo, não há praia, mas há chuva. Muita chuva. E lá meu maior problema são os guarda-chuvas... Avenida Paulista, chuvarada de fim de tarde, todo mundo saindo do trabalho, todos armados com seus guarda-chuvas abertos. Como sou ligeiramente mais alta que a média das pessoas, as malditas pontas de guarda-chuvas ficam bem na altura dos meus olhos. Assim, se estou sem o meu, fecho os olhos e saio tateando as pontas e me esquivando. Quando estou com a sombrinha aberta, uso meio inclinada, para me proteger das pontas muito mais do que dos pingos de chuva.
Saudade das minas gerais...

segunda-feira, 1 de junho de 2009

O frio

Amanheceu chovendo, frio, triste. Eu estou chovendo também, além de outras coisas. Mas terminei de fazer minha primeira sacola ecológica e tratei de começar a segunda. Atualmente sinto falta de exercícios. Atualmente sinto falta. Não quero ficar sozinha. Preciso de um cobertor e de que alguém me embale e cante.