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domingo, 25 de outubro de 2009

Banho de imersão

Nunca tivemos banheira lá em casa. Com tantos irmãos para tomar banho e um só banheiro, era preciso ser rápido e objetivo.
Se queríamos tomar um banho de imersão, íamos para o tanque, que era enorme e a gente se revezava, submergindo por turno, nós e o cachorro.
Em São Paulo, lá pelos 24 anos, tive minha primeira banheira, em um apartamento antigo, mas espaçoso. Ela era de um azul duvidoso, não tinha bem uma torneira, só um cano de onde saía água e eu sempre perdia a tampa do ralo e precisava improvisar, vocês sabem como.
Mas eu tomei alguns banhos muito confortáveis e relaxei bastante nos fins de tarde, esperando o Miguel chegar do hospital.
Comprei sais de banho, shampu em gotas, espuma de banho...
Preparava o ambiente com aquecimento e luz indireta, colocava o rádio para tocar música clássica e preparava toalhas e cremes e pantufas para depois do banho.
Numa das primeiras vezes que a Renata foi nos visitar, resolvi preparar um banho de imersão para ela, que gostou da novidade e esperou.
Caprichei no carinho, como se fosse um presente. A banheira era custosa de se encher, o fluxo de água era lento e eu precisava agitar as mãos com vigor para fazer espuma e misturar os sais.
Quando estava tudo pronto disse a ela que aproveitasse.
Uns cinco minutos depois ouvi a porta do banheiro se abrir e ela saiu, já enrolada na toalha felpuda e com outra toalha na cabeça.
-" Já???????"
- " Ai, Titinha, eu fiquei pensando, pensando, senti uma angústia e resolvi sair."
Tá certo, a ideia era curtir e não ficar angustiada.
Nós duas, farinha do mesmo sertão, temos formas diferentes de relaxar.
Eu, tomo banhos de imersão em São Paulo e faço caminhadas no calçadão aqui no Rio. Enquanto isso penso, para existir.
Ela toca violão e canta e conversa bastante. Sua terapia é interagir.
Há pouco, contou-me que começou a caminhar e que dependendo da música que está ouvindo, ensaia uns passinhos de dança!

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Uma cidade

Quando planejamos a viagem, saímos ali pelas 9 horas da manhã, para podermos chegar no meio da tarde.
É bom porque vamos com calma, conversando e ouvindo música.
Ao chegarmos, a cidade nos recebe com seus bonitos e fortes abraços, um emaranhado de ruas, avenidas, viadutos...
Colocamos o rádio na nossa estação favorita, com locutores animados, carregando no sotaque.
Lembranças tantas...
Lembra quando compramos a Explorer aqui na Caltabiano? E fomos buscar Helena no Palmares e ficamos na fila de carros dos pais que aguardavam e ela nem sabia do carro novo e ficou encantada em nos ver ali, juntos? Ela era tão pequena que não alcançava o estribo do carro.
Ali! Tinha uma loja da BBKids...eu vinha sempre com ela comprar brinquedos, a loja estava sempre cheia de gente e de novidades...um perigo.
Nossa, desta vez, precisamos passar na Brunella, doces e salgados muito bons. Lembra da coxa-creme de frango? Daquela briga pela última coxa-creme que o freguês atrás de nós dizia que era dele?
Essa ladeira, esse hospital, será que já concluíram?
Puxa, a essa hora da tarde, a avenida Rebouças está toda parada, ainda bem que vamos entrar na avenida Paulista.
Será que tem alguém morando no apartamento da Alameda Santos? Faz tanto tempo...
E o cinema Belas Artes... como era bom quando as salas eram grandes e novas... e a gente sempre enfrentando as filas das estreias. Quando fomos assistir o Pasqualino Sete-Belezas, chegamos quase no fim daquele início eletrizante em preto e branco..."oh yeah!"
E as casas de Fliperama? Como era bom, como nos divertíamos. Mesmo tendo que esperar um pouco para chegar a nossa vez. A que frequentávamos sempre, virou uma loja de sucos...
E o primeiro McDonalds' ? Filas e filas para conseguirmos dois sanduíches e batatas fritas, mas era tão bom...sempre gostamos das novidades.
A São Silvestre, quando era na virada do ano mesmo. Saíamos de casa as onze da noite e íamos a pé até em frente ao cine Gazeta, para assistirmos à chegada dos atletas. Havia sempre muita gente e uma chuvinha fina.
Continuamos a viagem inteira assim, lembrando, relembrando, fuxicando as ideias.
Helena vê a cidade de duas formas. Por um lado é a cidade que vivemos juntos, os três, até doze anos atrás.
Por outro lado, é a cidade renovada que ela vem descobrindo e que gosta de nos mostrar.
É quando ela nos conta uma história de amor.



quarta-feira, 29 de julho de 2009

Sampa

Eu tinha uns 13 anos quando formei minha primeira ideia sobre São Paulo. Para mim era um outro país, muito, muito distante. Naquela época viajar de carro por meia hora para ir ao clube já era tempo demais, imagine ficar no trânsito por duas horas...Só podia ser mentira...
Em umas férias, na fazenda, conheci uns garotos paulistanos, lindos, diferentes demais dos meus amigos mineiros. Falavam uma outra língua, falavam de si com desenvoltura, usavam shorts curtinhos e tinham as pernas mais brancas que eu já tinha visto em minha vida.
Um deles tinha também olhos azuis resplandecentes, o que me transformou em uma meninazinha apaixonada e sonhadora.
São Paulo foi ficando menos vago quando minha irmã mudou-se para lá para estudar medicina. Eu me dava ares de importância quando dizia: - " Tenho uma irmã que mora em São Paulo! " Então aconteceu de um roqueiro loiro e cabeludo dar um show na paulicéia. A Renata precisava ir e também precisava de companhia e lá fui eu com ela. Não tinha a menor noção do tamanho da encrenca. Fomos ao show, lotado de gente, música linda e altíssima e lá longe no palco eu podia ver - mais até do que a pequena Renata- aquele cabelão girar fulgurante como um cometa. Na hora da saída, um conflito: Não tinha mais ônibus, não tinha mais táxi; e o tempo passando; e cada vez menos gente; e a escuridão substituindo os faróis; e o silêncio, as buzinas. Ela então resolveu perguntar para um moço que estava dirigindo um carro chique, acompanhado de uma moça perfumada e muito bem arrumada, como poderíamos ir até os jardins. Acho que era um anjo... Ele nos disse que nos levaria aos jardins e nós entramos naquele carrão cheio de luzes e som. Pouco se conversou naquele trajeto. Eu, pelo menos não ouvi, estava surda de pavor e vergonha, querendo voltar pra Minas, querendo voltar pro meu quartinho, seguro e quentinho.
Mas, finalmente ele nos deixou em frente ao prédio em que estávamos e a cidade, naquele momento pareceu-me acolhedora e suave.
Uns anos depois a própria Renata casou-se e mudou para São Paulo, que cresceu aos meus olhos ainda míopes demais para a grandeza da cidade.
E o sábio destino que foi me apresentando São Paulo aos poucos, apresentou-me definitivamente a cidade quando eu própria me casei e mudei para lá.
Mas ficava ali, no meu mundinho, protegida, só ia por perto e em geral a pé. Sempre gostei de caminhar. Ônibus para mim são entidades do mal, aquilo não pode dar certo...Táxi, era caro demais... O medo limitou meu espaço e São Paulo continuou pequena. Mas nos fins de semana, Miguel me levava de ônibus para o centro da cidade. Íamos em busca de todas as novidades fotográficas, comprávamos muitos filmes, em preto e branco, porque montamos um minúsculo laboratório de fotografia, que nos rendeu muitas noites entre produtos químicos e imagens de São Paulo. Lembro-me de ter fotografado meninos da rua, eu no centro da cidade com uma máquina, com certeza melhor que a média e fotografava assim de improviso, sem susto, quase sem medo.
E ali vivemos, quase vinte anos. E ali tivemos nossa única filha, que criou raízes profundas e invioláveis em sua cidade natal. Durante este tempo, eu aprendi a dirigir pela cidade e pasmem, eu andava de moto. Ia pra onde tinha que ir, mas meu medo interior era maior e eu nem me dei conta das situações de risco sério que eu devo ter passado. Trabalhava perto de casa, comia perto de casa, passeava perto de casa. Mas com Helena, precisava levá-la a todo lugar onde se levam as crianças e perdi o medo de dirigir, transportando minha pequena. Fui vivendo dia a dia... e puxa, como passou depressa.
Agora já moro no Rio há mais de dez anos e vejo São Paulo pelo prisma da maturidade e do distanciamento. Tenho simpatia pelos paulistanos. Ainda são muito brancos, ainda tem ocasionalmente olhos azuis, ainda falam uma língua familiar, mas estrangeira.
E minha filha, uma semente que brotou naquela terra, mora lá. Ela adora São Paulo e sempre que vou visitá-la vejo que a cidade pertence a ela e a cidade contem Helena.
Ela tem me apresentado sua versão de São Paulo que é muito mais gentil e complacente, mas que continua gelada.. Usa com confiança os transportes públicos da cidade. Vai onde quer ir, mesmo que seja longe. Ela está sempre vestida, sempre esbanjando sua própria interpretação da moda.
Não me lembro de ter visto nos shoppings de lá, cartazes que dizem - Proibido entrar sem camisa. Puxa, porque uma pessoa iria ao shopping sem camisa? Morando no Rio, eu sei porquê. Em Sampa ninguém aguenta.

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Número desconhecido

Tocou o telefone e ao perceber que era de um número desconhecido de São Paulo, atendi aflita. Helena, Helena... Adrenalina a mil. Era um amigo, de passagem pela cidade. Quem vem sempre quer voltar. Cidade de pesadelos em paisagens magníficas. Caos no trânsito, corcovados, horizonte úmido. Distante de tudo, na preguiça da tarde, ouço um cão ladrar, um avião cruzar o céu, o vento nos coqueiros. E só. Hoje, sou toda ouvidos.