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sábado, 7 de novembro de 2009

Apagão

As luzes do bairro se apagaram quando eu estava a dois quarteirões de casa. Acabei de chegar, já pensando onde teria colocado as velas; e antes de abrir o portão, chamei o cachorro para ele saber também pela voz, que somos amigos.
Quando saí de casa, ainda estava anoitecendo, mas depois de uma hora, era puro breu. Quando consegui colocar a chave na fechadura e abri a porta de entrada, fui tateando, procurando o móvel onde costumo guardar velas, clipes, tesourinhas, fósforos. Achei as velas e nada dos fósforos. Fui seguindo pelas paredes em direção à cozinha, arregalando e piscando os olhos, um pouco tonta e aturdida.
Chutei a perna da mesa da sala, (quem mudou a posição dessa mesa sem me avisar?), cheguei depressa demais ao pequeno corredor e entrei na cozinha onde o pote de água do gato passou na minha frente e molhou meu pé. Finalmente cheguei ao fogão, acendi uma das bocas no automático, vi as horas no relógio do micro ondas e morrendo de tédio fui buscar a lanterna que fica no criado mudo do Miguel. Com a lanterna, as duas velas e uma cerveja que escolhi na geladeira, voltei para a sala, para o meu canto do sofá e esperei. Aqui dentro, eu e o gato, no quintal o cachorro e o resto do mundo, na rua.
Um calor absurdo - sempre ocorrem apagões no verão porque, é lógico, todo mundo liga o ar condicionado ao mesmo tempo!
Sem croche, sem livro, sem rádio, sem TV, sem Internet, sem Miguel, sem Helena, fui ficando comigo, me engambelando como diria a mamãe e quando vi no relógio do vídeo que eram dez horas, resolvi ir para a cama. Apaguei as velas, fui com a lanterna para o quarto, tomei um indutor de sono e desanimada com o calor, tive a ideia de deixar o ventilador ligado, caso a luz voltasse enquanto eu dormia. Quando apertei o interruptor a máquina começou a soprar. Oba, a luz voltou. Pena que tomei meu remédio para dormir...
Mas, espere aí... como acendi a vela com o acendedor automático elétrico, quando cheguei em casa? E a luz da geladeira quando escolhi uma cerveja? E os relógios???
Pois é...a luz voltou logo que cheguei e eu não tinha percebido.
A solidão e a saudade, mesmo compartilhada com os bichos, me deixam sem energia.
Além disso, miolos cozidos ao calor não funcionam bem.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Bugalhos

Um bolor em forma de gota cresceu em meu campo visual.
Não sabia a quem recorrer e fui ver um pai de santo que me aconselhou repouso e anti-inflamatórios.
As pálpebras também estavam inflamadas e meu olho, quase fechado, parecia um sapo no sal.
Usei colírios que o farmacêutico indicou, fiz as compressas da minha mãe e coloquei gelo por minha conta, alternando as experiências. Meu olho continuava macilento.
Uma pomada fez muita sujeira na fronha e lacrimejei durante todo o fim de semana.
Quem me viu veio perguntar que dores de amores eram aquelas, tentando me consolar porque eu chorava e ao virem o estado lastimável do meu bugalho faziam uma cara estranha de ...eca!...
Os óculos escuros, com o tempo fechado, denunciavam certo recato e meu nariz vermelho e a caixa de lenços faziam de mim um enlutado.
Fui assistir ao "Bastardos inglórios" e saí consciente de que tirar o uniforme não desfaz o monge.
Assumi meu olhar patológico e fui em frente.
Ao assumir publicamente meu olhar caprino, também tornei público meu desdém pela coisa toda.
E magicamente lá se foram todos os sintomas.
Hoje acordei bela dona!
Era olho gordo.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Sampa

Eu tinha uns 13 anos quando formei minha primeira ideia sobre São Paulo. Para mim era um outro país, muito, muito distante. Naquela época viajar de carro por meia hora para ir ao clube já era tempo demais, imagine ficar no trânsito por duas horas...Só podia ser mentira...
Em umas férias, na fazenda, conheci uns garotos paulistanos, lindos, diferentes demais dos meus amigos mineiros. Falavam uma outra língua, falavam de si com desenvoltura, usavam shorts curtinhos e tinham as pernas mais brancas que eu já tinha visto em minha vida.
Um deles tinha também olhos azuis resplandecentes, o que me transformou em uma meninazinha apaixonada e sonhadora.
São Paulo foi ficando menos vago quando minha irmã mudou-se para lá para estudar medicina. Eu me dava ares de importância quando dizia: - " Tenho uma irmã que mora em São Paulo! " Então aconteceu de um roqueiro loiro e cabeludo dar um show na paulicéia. A Renata precisava ir e também precisava de companhia e lá fui eu com ela. Não tinha a menor noção do tamanho da encrenca. Fomos ao show, lotado de gente, música linda e altíssima e lá longe no palco eu podia ver - mais até do que a pequena Renata- aquele cabelão girar fulgurante como um cometa. Na hora da saída, um conflito: Não tinha mais ônibus, não tinha mais táxi; e o tempo passando; e cada vez menos gente; e a escuridão substituindo os faróis; e o silêncio, as buzinas. Ela então resolveu perguntar para um moço que estava dirigindo um carro chique, acompanhado de uma moça perfumada e muito bem arrumada, como poderíamos ir até os jardins. Acho que era um anjo... Ele nos disse que nos levaria aos jardins e nós entramos naquele carrão cheio de luzes e som. Pouco se conversou naquele trajeto. Eu, pelo menos não ouvi, estava surda de pavor e vergonha, querendo voltar pra Minas, querendo voltar pro meu quartinho, seguro e quentinho.
Mas, finalmente ele nos deixou em frente ao prédio em que estávamos e a cidade, naquele momento pareceu-me acolhedora e suave.
Uns anos depois a própria Renata casou-se e mudou para São Paulo, que cresceu aos meus olhos ainda míopes demais para a grandeza da cidade.
E o sábio destino que foi me apresentando São Paulo aos poucos, apresentou-me definitivamente a cidade quando eu própria me casei e mudei para lá.
Mas ficava ali, no meu mundinho, protegida, só ia por perto e em geral a pé. Sempre gostei de caminhar. Ônibus para mim são entidades do mal, aquilo não pode dar certo...Táxi, era caro demais... O medo limitou meu espaço e São Paulo continuou pequena. Mas nos fins de semana, Miguel me levava de ônibus para o centro da cidade. Íamos em busca de todas as novidades fotográficas, comprávamos muitos filmes, em preto e branco, porque montamos um minúsculo laboratório de fotografia, que nos rendeu muitas noites entre produtos químicos e imagens de São Paulo. Lembro-me de ter fotografado meninos da rua, eu no centro da cidade com uma máquina, com certeza melhor que a média e fotografava assim de improviso, sem susto, quase sem medo.
E ali vivemos, quase vinte anos. E ali tivemos nossa única filha, que criou raízes profundas e invioláveis em sua cidade natal. Durante este tempo, eu aprendi a dirigir pela cidade e pasmem, eu andava de moto. Ia pra onde tinha que ir, mas meu medo interior era maior e eu nem me dei conta das situações de risco sério que eu devo ter passado. Trabalhava perto de casa, comia perto de casa, passeava perto de casa. Mas com Helena, precisava levá-la a todo lugar onde se levam as crianças e perdi o medo de dirigir, transportando minha pequena. Fui vivendo dia a dia... e puxa, como passou depressa.
Agora já moro no Rio há mais de dez anos e vejo São Paulo pelo prisma da maturidade e do distanciamento. Tenho simpatia pelos paulistanos. Ainda são muito brancos, ainda tem ocasionalmente olhos azuis, ainda falam uma língua familiar, mas estrangeira.
E minha filha, uma semente que brotou naquela terra, mora lá. Ela adora São Paulo e sempre que vou visitá-la vejo que a cidade pertence a ela e a cidade contem Helena.
Ela tem me apresentado sua versão de São Paulo que é muito mais gentil e complacente, mas que continua gelada.. Usa com confiança os transportes públicos da cidade. Vai onde quer ir, mesmo que seja longe. Ela está sempre vestida, sempre esbanjando sua própria interpretação da moda.
Não me lembro de ter visto nos shoppings de lá, cartazes que dizem - Proibido entrar sem camisa. Puxa, porque uma pessoa iria ao shopping sem camisa? Morando no Rio, eu sei porquê. Em Sampa ninguém aguenta.