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terça-feira, 12 de julho de 2011

DNA

Caminhava com ela, ao lado dela e no meio de muita prosa às vezes olhava para ela e me via, assim novinha.
Era eu que nela era a outra que em mim produziu-se.
Era bom!
Que boa risada, menina, que menina alegre e forte!
A companhia dela é dupla, tripla, um povo! Não há sozinho, nem procura, é!
Mas às vezes, como se não bastasse a surpresa de ver-me nela, via a Martha. Num mosaico dinâmico, ora era a tia, ora era eu.
Gente, era ela mesma! Única, linda, completa.
Depois disso ficar tão longe ficou mais fácil.
Bem aqui no fundo da alma sei que comigo tem uma parte de mim que pertence a ela, e uma parte do pai que não me pertence... e isso me conforta!

quarta-feira, 22 de junho de 2011

23

Fiquei acostumada a vê-la caminhar pela sala, pequenininha, sempre muito cautelosa, raramente caía. Segurava com firmeza as pontas de apoio, os dedinhos  brancos da força que fazia para sentir-se segura.
Alguém disse que coragem é sobrepujar o medo.  Como os cães animosos que eriçam os pelos mas partem para o perigo.
Tem medo sim, minha menina, mas é cheia de coragem. Não se atira não, que isso a mãe é quem faz, ela se entrega. Envolve-se  com seus projetos, que escolhe com cuidado, e vai em frente.
Fiquei acostumada a vê-la chorar muito por qualquer incidente ou repreensão. Chorava com efeito "blockbuster" - o mundo ouvia. Com os anos foi ficando mais contida na garganta mas os olhos marejados traem.
Qualquer suspiro mais fundo de alguém querido e ela fica muito preocupada: o que foi? O que aconteceu?
Depois se acalma, discute com bons argumentos, quer resolver tudo. Então segue adiante.
Quem já ouviu aquela risada cintilante sabe o que quero dizer. Delícia. Se pudesse me transformava em um palhacinho sobre seu ombro, só para vê-la gargalhar mais amiúde.
E o abraço? Como pode ser tão envolvente e quentinho?  Vem lá de dentro, gente e se expande numa aura cálida.
Reconheço às vezes em um reflexo o meu bebezinho, mas 23 anos depois ela tem muitos poderes.
Tomem cuidado, vocês intempestivos.
A única kriptonita para ela é a injustiça.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Xixi!

Helena pegou a mão do irmão e puxou-o para si. Ao abaixar-se ele não compreendeu o que ela sussurrou: xixi! E ele: Hein? Ela repetiu mais alto: xixi! Ele espantou-se, olhou para todos os lados; e agora e agora?
A menininha de quatro anos saía sem a mamãe pela primeira vez. Um passeio histórico para ela - usava seu melhor vocabulário e  um mimo de vestido, vermelho com rendinhas brancas na barra e nas mangas. A postura muito ereta e a sandália de saltinho anabella davam todo o tom da  novidade e excitação.
O irmão encabulado levou-a até a porta do banheiro. Sempre vira as mães levarem seus meninos ao banheiro feminino, mas ali ele teria que improvisar. Resolveu ficar próximo à porta a escolher uma pessoa com aparência de mãe e que estivesse sem um filhote do lado. Entraram duas adolescentes de uniforme. Uma senhorinha com sua bengala de três pontas. A moça da lojas americanas...não.
Helena apertava as perninhas, os joelhos um pouco dobrados.
Então fez-se a luz!
- "Querido, você por aqui? Como vai Brasília?"
Ele a abraçou saudoso e aliviado. "Que bom que você chegou! Helena quer muito ir ao banheiro."
A amiga conpreendeu o desafio e caiu na risada. "Tudo bem, pode deixar que eu a levo". Deu a mão para a pequena e disse: Vamos? Entraram as duas conversando e ele lá fora apreensivo... E se não for xixi? Que vergonha...
Quando elas sairam, perguntou: "Você lavou essa mão?"
A menininha disse que não com um ar divertido. A amiga retrucou: "Como não? Claro que lavou!"
Eu, que estava observando de perto, pensei com meus botões: - Ela aprendeu a apertar o pino do dispenser de sabonete com a mão direita e só depois esfregou uma mão na outra. Parece-me que a mão esquerda também queria aprender.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Dirigir

Quando ia fazer o vestibular estudava demais. Era uma rotina pesada e cheia de angústias. Muitas vezes quando  estava no meu limite, outras  só por desfastio e amizade, a mamãe saía comigo tarde da noite para passearmos de carro e aliviarmos as tensões. Em geral ficávamos caladas, só curtindo a proximidade uma da outra e relaxando. A mamãe aprendeu  a dirigir mais tarde e eu saía bastante com ela  quando ainda estava aprendendo; passamos por algumas  aventuras mas nada que eu me lembre para contar. Sorte minha que foi com ela que aprendi a ser tolerante com os novatos, porque depois precisei acompanhar o Miguel, dirigindo em São Paulo e recém ingressado no reino dos motoristas.
Agora é a Helena quem aprende a dirigir. Ela também vai experimentar São Paulo como pista de treino. Sei que em pouco tempo estará segura e confiante nesta nova empreitada, sempre foi assim.
 Depois de tê-la transportado para todo lado, colégio, festinhas e cinema, fico aqui pensando nos rodopios, nessa circular ascendente que fez de mim uma carona  de minha mãe, depois uma motorista para Helena e com certeza daqui uns anos  serei carona outra vez mas  de minha filha.
Espero que ela me leve ao Shopping para tomar sorvete e que  tenha muita paciencia comigo!

domingo, 3 de outubro de 2010

Gatos ainda

Nesta madrugada, tive um sonho.
Acordei cedo e ainda havia os gatos por toda parte. Esgueiravam-se pelas sombras, atrás dos sofás, sobre as mesas. Procurei cada um deles e me lembrava do preto e branco que quando me viu desapareceu. Do outro, este branco e preto que miou aguda e longamente, mas quando fui encontrá-lo também esvaneceu. Um malhado atrás da porta, um engraçado frajolinha, e outros, muitos outros.
Sempre que os via, chamava a atenção da Helena - olha, Helena, que lindo aquele, você vê?
Não, ela não via, apenas piscava lentamente as pálpebras.
Então apareceu o gato marron dourado, no tapete da sala. Desta vez ele me deixou tocá-lo, passei a mão em seu dorso e sentia seu ronronar. Tornei a perguntar a ela: E este Helena, você vê? Ela via. E sentia. Também quis afagar o bichano. E desta vez  fui  eu que esvaneci, morta de pesar de ter sumido de meu próprio sonho tão delicioso e mágico.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Low battery

Caminhei e ouvia a trilha sonora do seu cotidiano.
Estive encantada.
Foi uma viagem imaginar seu humor, seu sentimento quando gravou cada canção.
Uma música e eu voltava no tempo, outra, instigante, nem reconhecia.
E as que eu tive que cantar junto? Assim, no meio da rua, bem alto,  estalando os dedos no ritmo, feliz, sem perceber em volta, a não ser a grandeza do dia de céu esfuziante e azul.
Foram várias horas e só terminou quando fui informada: "low battery".
Valeu a pena!

terça-feira, 10 de agosto de 2010

O último sono

-"Tita, estou com o gatinho da Helena, ele é cinzinha, tem o peito e as luvinhas brancas e olhos verdes."
Algumas horas depois a Tiaberé tocou a campainha e eu chamei a Helena para ver pela janela. "Olha, filhinha ela está com uma caixa, o que será? Vai abrir a porta pra ela."
Helena desceu as escadas levando a chave do portão que, ela já sabia, tinha um "joguinho" para abrir.
E ouvi a voz da Tice subindo as escadas com ela que dava risadinhas deliciosas.
As duas entraram com a caixa e de lá saiu um gatinho minúsculo e assustado.
Helena estava encantada, olhos brilhantes, carinha vermelha e feliz.
Uma senhora japonesa de Osasco era a dona da ninhada de  vira-latinhas. Quando entregou o Felipe disse  que queria que ele fosse muito amado e bem cuidado ou  deveríamos devolvê-lo. Nunca me esqueci disto.
Passamos por tanta coisa juntos...
- O Miguel foi comigo  ao veterinário. Pedi  que levasse o Felipe  no colo que eu iria passar de carro na esquina  e seguiríamos juntos. Ao parar o carro pude ver o Miguel desesperado com o gatinho mais desesperado ainda subindo-lhe pelo pescoço! Antes de chegar ao consultório, paramos no primeiro pet shop do caminho e compramos uma bela caixa de transporte que temos até hoje.
- A visita à Dra Márcia para as vacinas e um primeiro exame - "Olha só, ele tem o rabinho quebrado!"  Explicou-nos então que ele deveria ter ascendência de gatos siameses, raça em que é comum rabinhos partidos, ou então quebrara-se na confusão dos muitos filhotes embolados na barriga da mãe.
- A difícil decisão de castrá-lo para que não marcasse teritórrio em cada canto e eu que não sabia nada de animais fui gostando muito do assunto. Vi os efeitos da acepromazina pela primeira vez - ele olhava para mim, fixamente e o veterinário perguntou, ele já está sedado? e eu: Não, ainda está de olhos bem abertos!!!
E aprendi, fui  aprendendo com ele.
Conheci uma sala de cirurgia veterinária, observei a forma de prender o bichinho para o procedimento e assisti boquiaberta ao evento tão simples e objetivo.
Viemos para casa e rimos muito do pobre, tontinho pelo efeito da anestesia tentando andar pelo corredor e já o amávamos tanto; ele  nos tornou uma família mais feliz. 
- Helena telefonou para o Miguel: "Papai, o Felipe sumiuuuuuuu"  e toca a chorar!  Havíamos procurado por toda parte ele tinha desaparecido e procuramos de novo e de repente ouvimos um miadinho bem fraco, que vinha de onde? De onde?  Na desordem do quarto da Helena, cheio de brinquedos, roupinhas e livros havia uma gaveta de escrivaninha aberta. Ele havia se enfiado atrás da gaveta e poderia ter sido amassado se alguma alma mais organizada passasse por ali.
Foi o primeiro dos muitos resgates.
- Teve o telhado altíssimo do vizinho da frente que eu escalei sem medo até voltar a colocar os pés no chão com o gato no colo e começar a tremer;
- O telhado da área de serviço da vizinha de baixo de onde foi pescado pelo Miguel com uma rede improvisada;
- O telhado da casa da esquina onde ele sobreviveu três dias de inverno e chuvas às custas de pedaços de carne que  a boa alma que morava embaixo, já saturada de tantos miados, jogava pra ele;
- A grande aventura no Rio quando ele sumiu por quase uma semana e foi encontrado por acaso no telhado de um sobrado de pé direito bem alto, que ficava ao lado de um terreno baldio. Neste terreno estava um felino desconhecido que um caçador de gatos imaginou que pudesse ser o meu. Às três da manhã, Miguel e eu fizemos estrepolias dignas do Cirque para resgatá-lo;
- As patadas na Poli e sua liderança absoluta entre os Rottweilers da casa;
- O salto que deu sobre o dorso da Poli, feito um tigre sobre um búfalo quando ela cismou com o Fred - o outro gato - que ele nem gostava muito;
- Os inúmeros passarinhos, borboletas, morcegos e pererecas que capturou e veio nos oferecer ou comer nos  escondidinhos da casa;
- A hepatite tóxica  depois de ter comido o rabo de um calango provavelmente temperado com agrotóxicos;  - O soro de hidratação no colo da veterinária e a carinha de fastio e raiva do gato adoentado;
- A noite que passou internado quando tripudiou todos os funcionários da clínica e em meio aos rás e fus, ao ouvir minha voz, miou feito um filhotinho;
- A terrível esporotricose, que eu já tinha visto em pessoas e que começava a se tornar epidêmica entre os gatos no Rio. O tratamento demorado e zeloso - salvá-lo, acreditar nele e em mim, não desistir.
Foi a esporotricose que diagnostiquei clínica e microscopicamente que me fez pensar em cursar uma nova faculdade e abrir de vez meu coração e os livros de veterinária.
O aprendizado, as novas amizades, todos os outros bichos, várias espécies, vários tamanhos.
Helena e seu gato juntos, mais de 15 anos salvando vidas, pricipalmente a minha.
Hoje que estou velando o último sono torporoso e dispnéico do meu estimado amigo, ainda quero que ele fique mais um pouco com a gente. Nunca desisti dele. Mas hoje não posso mais.
Ele precisa partir, vai gato,  ser  anjo na vida.
Nos veremos na quarta dimensão, onde me disseram que os gatos são só o sorriso.



terça-feira, 22 de junho de 2010

vinte e dois

Há vinte e dois anos  foi o dia mais intenso que vivi.
Desde então não preciso que me levem, eu vou.
Nem que me animem, tenho o riso frouxo e passo ao largo das frustrações.
Vou correndo, aflita por assisti-la viver.
Como é lindo, como é linda, como é bom!

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Partir

Não vá chorar agora, no final.
Emoções pelo ano todo, dias bons, ruins, normais, afetos, afagos, desconsertos e agonias...
Enfim o ambiente  sem você e você aguda, agulha, única, para se jogar de novo,  mas com a cautela da criança que conheço.
Partir é bom, remove as águas que vão seguir em frente até a imensidão do mar.
E você, estrela da manhã, vai brilhar de novo nesta terra, que este é seu mais puro destino.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

"O palhaço sou eu"

Lembro-me da única vez que ganhei o beijo de um palhaço. Ele era ator e a peça, literalmente, uma palhaçada. Chamava-se Ado e esperava pelo público ao fim do espetáculo, na saída do teatro. Sentia muito respeito pelo ator, aquela figura mística, cheia de sombras, inatingível...
Teatros eram antros; atores eram drogados; atrizes, vagabundas.
Neste mesmo teatro conheci a Derci Gonçalves, por quem sentia curiosidade e interesse, apesar da aspereza de seu linguajar.
Naquele palco, alguns anos depois, eu também ensaiei uma peça, que nunca foi encenada porque a censura não permitiu, nunca entendi porque...
Mas a experiência deixou sua marca e hoje, quando Helena vai ao palco, para interpretar ou sapatear, reconheço que os teatros são casas-cenários, os atores, pessoas sensíveis e as atrizes, mulheres intensas.
Frederico é um ator e quando criança ganhou um presente inusitado. Renata e eu construímos um boneco-palhaço, cuja estrutura, montada em um cabo de vassoura, foi trabalhosamente elaborada. Ela no comando e eu ajudando no que podia.
Frederico era criança ainda e não tenho bem certeza de sua reação diante do presente. Mas outro sobrinho, que certa vez o visitava, não conseguia dormir no quarto do palhaço que, segundo ele, o olhava com "aqueles olhos" e dizia ho, ho, ho.
-"Mas então, é o Papai Noel!", disse a Fernanda, mãe do Frederico.
Não sei como aquela noite acabou nem que fim levou aquele mimoso palhacinho, mas na mesma época, levamos as crianças para assistir ao circo que passava pela cidade.
Picadeiro para os atores e poleiros para a plateia, debaixo da grande tenda colorida.
Parece mágica mas mesmo aquele circo simplesinho, com as trapezistas em roupas muito brilhantes já puídas pelo tempo de uso e os palhaços barulhentos, com a voz metálica dos microfones, enfiados em seus sapatos enormes, calças de barril e colarinho dançante, induzem o meu respeito.
O circo mambembe e o Cirque du Soleil, ambos extremos de mesma grandeza, agradecem os aplausos que arrancam de suas plateias.
E todos merecem um "quebre a perna" antes de cada espetáculo.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Positivo

Um dia, num post-it cor de rosa, estava escrito: o exame deu positivo.
A letra trêmula era da Dona Lourdes, a faxineira, que antes de sair deixou este recado, sem saber do que se tratava.
Havia um número de telefone. Eu liguei; e depois de ler, ouvi. Seu exame deu positivo.
Queria compartilhar mas tinha medo. Depois perdi o recato e espalhei a novidade:
Chegou minha vez, estou positiva!
Desde então, espero e diariamente me preparo para ver e brotar e ter e ver nascer a minha boa ideia.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Promessa

Eu prometi. Era só isso o que eu tinha a dizer sempre que perguntavam de olhos arregalados : Como você pôde??? Eu não deixaria de jeito nenhum! Sua única filha! Por que vocês a querem tão longe ? Você não tem medo, não? Coitada! E o Miguel, não falou nada? E se acontecer alguma coisa com ela, como vai ser?
Foi muito difícil. Meu coração arrebentava e eu estava morta de medo.
Já tive meus dias de virar ninguém em São Paulo, entrar na dança, ser uma a mais na multidão. Tinha mais ou menos a idade dela, mas estava casada, tinha alguém com quem dividir os sustos e as filas de pré-estreia nos cinemas. Era um porto seguro e é ainda.
-"Mas ela vai morar com quem? Sozinha? Mas que absurdo" diziam, fazendo não com a cabeça.
É que aprendi em casa, desde novinha a cumprir promessas. Sempre foi assim e é desta forma que se adquire confiança e segurança. Prometeu, cumpra!
Quando mudamos para o Rio, ela com 9 anos, completamente sem amigos, nova, a estrangeira no colégio, com um sotaque particular, foi complicado para ela.
Deixou amizades sólidas em São Paulo; algumas duram até hoje!
Via sua tristeza, sentia com ela as dificuldades de ser ingrediente novo em uma massa de bolo: bata bem as claras em neve e junte devagar, delicadamente, até que a mistura fique homogênea.
Disse: - "filha, por enquanto você precisa viver onde vivemos, não há outra forma. Estude, aprenda, desenvolva suas habilidades naturais. Quando chegar a hora, se ainda quiser ir para São Paulo fazer faculdade, você vai.
E foi isso que ela fez. Ela cumpriu e eu tinha prometido.
Ela é a mesma que não desgrudava da minha perna, que estranhava todo mundo e só queria o meu colo, e que chorava de ficar roxinha, perdia o fôlego. Ela se fortaleceu, ora, desenvolveu-se.
Não, eu não a empurrei para longe de mim.
Eu a empurrei para perto de si mesma.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Plantão

Ainda sonho com os horários e as noites dos plantões.
Acordo com susto, porque estou atrasada e em falta com o mundo.
Os plantões noturnos sempre foram um pesadelo para mim. Sinto um sono atávico, herdado do meu pai; as dez horas da noite estou dormindo e pronto. Acordo depois de uma meia hora e se for preciso, continuo, tropeçando até a manhã seguinte.
Saía de madrugada, mais ou menos as cinco e meia, depois da última leva de trabalho. Ia à pé até a padaria, em geral ainda com as portas semi-cerradas e o cheiro do pão no forno era inebriante.
Esperava por ali, sentindo o frio natural do sono e da cidade. Assim que abriam, entrava e pedia uma média e um pão na chapa. Era reconfortante, um auto-afago e vinha com a sensação de dever cumprido.
Depois ia para casa, sentindo o alheamento e o entorpecimento das noites mal dormidas, o corpo sujo e dolorido.
Chegava quando já começava a amanhecer; tomava um banho ritual, caprichado, de chuveiro.
Com o cabelo molhado envolto por uma toalha, ia até o quarto da Helena dar-lhe um beijo, um cheiro, uma mordiscada. E ela esticava os bracinhos, se espreguiçava e ainda não sabia do tamanho do mundo, nem da importância que teria em toda a minha vida.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Feriado

Este fim de semana promete! O sol resolveu brilhar, o mar continua lindo e estou voltando aos meus exercícios. Mas o melhor de tudo é que esperamos Helena para o feriado. Já temos muitos planos, somos amigas há tanto tempo! Muitas conversas e risadas depois, enquanto ela cochila no fim da manhã, Miguel e eu vamos comentar mais uma vez, a falta que ela nos faz.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

H

O H de Helena, esta tecla do meu computador, insiste em não escrever. Talvez por ser inspirada - fala-se como se não existisse - seja a letra mais misteriosa do alfabeto. Seu som é imprevisível ao combinar-se com outras letras e a estrutura forte do seu desenho me lembra Helena.
As torres gêmeas, se tivessem o braço de ligação nem teriam caído.
Seja maiúscula em forma de degrau de escada, seja minúscula em forma de cadeirinha, nunca deixa a desejar. Convida ao dar-se as mãos, convida ao descanso.
Aqui no Rio, o H faz parte do sotaque: Beijosch, baschta, vamosch!
E é bastante eclético:
Shhhiiii, as crianças estão dormindo.
Hahahaah, isso é mesmo muito divertido!
Ah, não, não vá embora ainda.
Hein? quem disse essa bobagem?
Preciso apertar com força a tecla desta letra que amo tanto.
Saudades de um abraço que dizem ser o melhor!

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Um delicioso texto da Helena...

Helena escreveu este texto para mim. Preciso dividir com vocês... Aproveitem!

Ela é forte. E como é forte. Bota forte nisso. E como todos nós, às vezes sabe disso, às vezes nem tanto.
Ela já ficou muito doente (mesmo), muitas vezes. Desde criança. Aliás, quase todas as coisas que eu já tive ela conhece bem, porque também teve. Genética ou não, ajuda ter alguém que entende bem a coisa. Mas tudo isso passou.
Hoje ela tem um coração invejável (em muitos sentidos). Com ele, corre bem, malha bem, escreve bem demais, cuida (e muito bem) de mim, dos gatos, da casa, do meu pai, do Haus, do mundo. Faz os melhores bem-casados do planeta, só pra mim.
Existe uma expressão em inglês que diz "levar o coração na manga". Sempre lembro dela quando ouço. O coração potente é o que a define. Em tudo. Está sempre presente.
Se ela faz, FAZ. MESMO. Até o fim. Bem feito. Bonito. Nota dez.
Meu pai costuma dizer que às vezes "ela some, aí depois aparece". Sempre tive o costume de, ao sair com os dois, ficar com um olho em cada um. Porque ele vai pisando seu caminho de sempre, confortável. Ela até acompanha, mas aí vem um passarinho tão bonito que ela vai atrás, só um pouquinho. Às vezes volta sozinha, em outras eu chamo o passarinho para vir conosco, aí ela vem também.
Com ela, sem grosseria. Faz com que ela se encolha. Mas não para sempre. Quando chega no limite, o coração aparece, puto.
Também trago sempre o meu coração comigo. Aprendi com ela, tenho orgulho disso. Aprendi a trazer o coração, o casaco, o passarinho dela, a música, a respiração, a bebidinha, as balinhas, o crochê, o gato. Ops!
Não ligue, às vezes a gente se confunde.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Balas

Era fim da tarde, hora da soneca da Helena, que tinha uns quatro anos. A porta do quarto dela ficava aberta e como morávamos em um apartamento pequeno podia ouvi-la de onde estivesse.
Às vezes acordava e ficava brincando com as mãozinhas; algum tempo depois começava um chorinho de desconforto e eu esperava mais um pouco, que era para ela aprender a esperar... coisa que nunca aprendi, por mais que tenha esperado. Quando eu não dava mais conta ia pegá-la no colo e ficávamos esperando o "nosso pai" (era assim que ela chamava o Miguel.)
Mas naquela tarde, aquele choro, eu nunca tinha ouvido. Começou do nada, sem barulhinhos anteriores, um choro forte e triste, quase uma despedida.
Corri lá.
-"O que foi, filhinha? e já fui tirando do berço.
Então ela me contou: -" Eu vi uma balinha, quando fui pegar, ela... ela, vooooooou"; e chorava
e chorava.
Acho que foi o primeiro "pesadelo" de que ela se lembrou. Foi um susto para ela, não fazia sentido. Afinal para onde teria ido a balinha?
Hoje ela me contou que perdeu uma outra balinha, (um prendedor de cabelo em forma de bala) e que está triste por isso.
Mas é uma tristeza conformada, uma tristeza adulta.
Por quantas perdas a minha menina teve que passar para ficar fortalecida.
Por que perder dói sempre e tanto.
Por que nos ligamos tanto a objetos que nem são comestíveis, mas que nos fazem falta como uma fome antiga.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Direção

Nunca gostei de dirigir. Carro pelo menos, não.
Aprendi com instrutor, nas ruas do Sumaré, sem grandes alardes, algo necessário, mas enjoado. Fiz exame médico, psicotécnico e deixei pra lá. Quase um ano depois telefonaram avisando que se eu não fizesse a prova prática ainda naquele mês, teria que começar tudo de novo. Exame médico, psicotécnico...
Marquei a prova e fui. Nada aconteceu de extraordinário. Fiz o que o professor pediu e passei. Recebi a carteira e pronto, podia dirigir em São Paulo.
Ganhei um fusquinha amarelo, usado, mas bem ajeitadinho, do Miguel.
Ele ficou no estacionamento ao lado do nosso prédio, por quase um ano. Dirigi 500 Km com ele.
A lembrança me vem agudamente, do cheiro do interior do carro, dos dias frios, da chuva, do medo.
Tinha a impressão de que ali dentro do carro, se reuniam muitas pessoas que tagarelavam, discutiam. Era o caos. Compreendi que tinha medo do interior.
Resolvi aprender a pilotar motocicleta.
Havia um curso excelente da Honda, ali perto do Detran.
Aprendi a dirigir moto grande, (uma CB400), fiz o curso direitinho - tinha uma parte teórica em que eram mostrados acidentes e situações de risco para assustar mesmo os mais afoitos.
Então fui fazer a prova prática. Tomei bomba. Queimei uma faixa na hora de fazer o circuito em oito... Mas assim que pude, fui fazer a prova outra vez. Tomei bomba de novo, desta vez porque achei que tivesse queimado a faixa, mas não tinha... Da terceira vez, eu consegui.
Então ganhei do Miguel uma XLX- 250 cilindradas, uma graça, uma moto de trilha, alta e elegante. Tinha que dar partida no pedal, não tinha moleza não.
Aí sim, de capacete, luva, botas e muitas vezes capa de chuva, lá ia eu onde tivesse que ir.
Levei uns sustos, passei por momentos ruins no trânsito, mas não caí, nunca machuquei. Sentia uma segurança que não tinha conhecido ao dirigir meu fusquinha. Foi assim, pilotando a moto que conheci a cidade.
Perdi o medo de dirigir carro e fazia o trajeto que precisasse, sem prazer, mas também sem traumas. O prazer mesmo era com a moto.
Depois tive a Helena, passei por uma grande cirurgia e precisei rever minhas prioridades.
Vendi a moto com pesar e comecei a carregar minha pequena para a pediatra, para a escolinha, para o teatro nos fins de semana e por causa dela, fui desenvolvendo uma coragem que não achava que tivesse.
E agora, em uma época em que ela precisa aprender a dirigir, os primos estão ganhando seus carros e autonomia, fico torcendo por eles. Afinal, São Paulo está 20 anos mais entulhada que na minha época, todas as cidades estão mais perigosas.
Espero que toda essa geração tão tecnológica possa experimentar o prazer de ir e vir no banco do motorista, dirigindo de fato.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Uma cidade

Quando planejamos a viagem, saímos ali pelas 9 horas da manhã, para podermos chegar no meio da tarde.
É bom porque vamos com calma, conversando e ouvindo música.
Ao chegarmos, a cidade nos recebe com seus bonitos e fortes abraços, um emaranhado de ruas, avenidas, viadutos...
Colocamos o rádio na nossa estação favorita, com locutores animados, carregando no sotaque.
Lembranças tantas...
Lembra quando compramos a Explorer aqui na Caltabiano? E fomos buscar Helena no Palmares e ficamos na fila de carros dos pais que aguardavam e ela nem sabia do carro novo e ficou encantada em nos ver ali, juntos? Ela era tão pequena que não alcançava o estribo do carro.
Ali! Tinha uma loja da BBKids...eu vinha sempre com ela comprar brinquedos, a loja estava sempre cheia de gente e de novidades...um perigo.
Nossa, desta vez, precisamos passar na Brunella, doces e salgados muito bons. Lembra da coxa-creme de frango? Daquela briga pela última coxa-creme que o freguês atrás de nós dizia que era dele?
Essa ladeira, esse hospital, será que já concluíram?
Puxa, a essa hora da tarde, a avenida Rebouças está toda parada, ainda bem que vamos entrar na avenida Paulista.
Será que tem alguém morando no apartamento da Alameda Santos? Faz tanto tempo...
E o cinema Belas Artes... como era bom quando as salas eram grandes e novas... e a gente sempre enfrentando as filas das estreias. Quando fomos assistir o Pasqualino Sete-Belezas, chegamos quase no fim daquele início eletrizante em preto e branco..."oh yeah!"
E as casas de Fliperama? Como era bom, como nos divertíamos. Mesmo tendo que esperar um pouco para chegar a nossa vez. A que frequentávamos sempre, virou uma loja de sucos...
E o primeiro McDonalds' ? Filas e filas para conseguirmos dois sanduíches e batatas fritas, mas era tão bom...sempre gostamos das novidades.
A São Silvestre, quando era na virada do ano mesmo. Saíamos de casa as onze da noite e íamos a pé até em frente ao cine Gazeta, para assistirmos à chegada dos atletas. Havia sempre muita gente e uma chuvinha fina.
Continuamos a viagem inteira assim, lembrando, relembrando, fuxicando as ideias.
Helena vê a cidade de duas formas. Por um lado é a cidade que vivemos juntos, os três, até doze anos atrás.
Por outro lado, é a cidade renovada que ela vem descobrindo e que gosta de nos mostrar.
É quando ela nos conta uma história de amor.