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domingo, 4 de outubro de 2009

Semelhanças

Comecei a faculdade de medicina em Uberaba em 1977, antes de casar e mudar para São Paulo. Fiz várias amizades nesses dois primeiros anos em que as matérias e os ambientes da faculdade são tensos - Anatomia, microcópio, provas práticas, gincanas.
Atualmente é ocasional que eu ouça falar de algum colega daquela época.
A Helena se forma este ano na ESPM em São Paulo. Desde o primeiro ano, tem uma amiga muito querida, que nasceu em Uberaba, como eu. Como se não bastasse a coincidencia, o pai dela foi meu colega naqueles dois anos de medicina.
Não sei onde ela aprendeu a lutar... no meu tempo a única academia de artes marciais de Uberaba era o Gaona, onde meus irmãos treinaram judô.
Gabi é muito sensível, mas sabe que tem "a força" e assim navega ao sabor das ondas, entre investidas intimidantes e recolhimento cauteloso.
Há uns meses foi de metrô até a rodoviária de São Paulo comprar passagem. Distraiu-se na viagem e no susto acabou descendo uma estação antes do terminal rodoviário.
Decidiu ir a pé. Isso parece tanto comigo que até dá aflição. Errar a estação e ir a pé? Mas essa sou eu!!
Ela é uma menina, parece recém saída da adolescência, puxa, ninguém vai acreditar.
Mas, olha, desta vez não estou inventando. Ela é de verdade e é maluquinha. Foi assaltada enquanto caminhava e reagiu, - "larga minha mochila, você não vai me roubar!" e o ladrãozinho, que tinha um canivete, levou uns bons sopapos e ela se feriu nas mãos.
Não sei quanto tempo depois ela tocou a campainha do apartamento de Helena. Machucada, magoada e assustada, depois de um tempo de conversa, concordou que talvez não devesse ter reagido.
Helena cuidou daquela figurinha fragilizada e depois me contou.
Eu fiquei ouvindo e cada cena era tão familiar... Nunca aprendi a lutar mas tenho um pequeno samurai aqui dentro e sempre acho que posso tudo. Também desmonto às vezes e em outras, adoeço.
E agora fico aqui pensando, porque será que entre tantos colegas de faculdade, a Helena foi encontrar na Gabriela uma de suas melhores amigas?

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Distrações

Não sei. Um rolo de barbante branco cutuca minha costas e eu escrevo deitada meio de lado. Horrível. Preciso corrigir minha postura. Gosto de ser lembrada pela postura sempre elegante, pescoço comprido e bem esticado, costas retas. Hoje, no shopping, algumas amigas me encontraram, chamaram por mim e quase que eu não via... Devo parecer esnobe... Gente, preciso de um desconto, afinal sou meio surda e muito desatenta, vivo em um mundo muito bem decorado, cheio de pequenos mimos e distrações.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Cabernet e Brie

Depois de uma semana com boas companhias, voltei ao meu estado natural de solidão planejada. Gosto de ficar sozinha. Mas assim, imediatamente depois de ter hóspedes, tudo fica um tanto silencioso aqui em casa.
Mas, fiz meu esquema habitual das segundas feiras. Tomei café, fui correr, academia, passeio com o Haus e por fim, pedalei na ciclovia do Recreio. Desta vez fui um pouco mais longe, por um caminho que desconhecia e que para uma primeira vez, pareceu-me meio ermo. Depois que pensei nisso e já voltando por onde tinha ido, aquela música que a Elis Regina cantava tão lindamente. " ... a barra do amor é que ele é meio ermo, a barra da morte é que ela não tem meio termo; " grudou em meu pensamento e ainda está bem aderida. Como é muito linda apesar de triste, deixei que povoasse o dia.
Almocei um "matinho" trivial, temperado com alho e cebola torrados, aceto balsâmico e sal.
Depois fui ao salão para "hidratar o cabelo" o que para mim significa uma boa massagem na cabeça.
Voltei para casa relaxadinha e a solidão continuava aqui na sala e perguntou-me se eu queria um café.
- "Café? Pode. Sem açúcar e sem adoçante, por favor."
Fiquei rindo e lembrando que a Marthinha pintou meu cabelo e brincou comigo perguntando se eu queria café. Conheço esta garota desde os 15 anos, é uma das poucas pessoas que grudaram feito chiclete em minha vida mas tem sempre sabor, chiclete suculento. Quando vai perdendo o gosto, tudo se renova e lá estamos nós de novo em pleno momento tutti-fruti.
Quando eu a conheci, era uma adolescente cabeluda e mal humorada e por alguma confusão que nem sei explicar, tinha por certo que ela não podia falar porque tinha um problema no pálato.
Assim, imaginei que era por isso que era tão fechada, tão calada. Quando a vi dar uma sonora gargalhada é que percebi meu engano, era apenas seu jeito de ser.
Como acontece sempre, a vida vai moldando a gente na marra. Atualmente estamos bem mais serenadas mas continuamos a bater o pé quando discordamos e o tempo fecha se a "panela" esquenta.
Torço para que seja sempre assim. Amizade bem temperada com Cabernet e Brie.