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quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Emoção stricto sensu

Kai-hung Fung é um radiologista chinês que transforma tomografias em arte. Segundo ele, cada detalhe de cor tem relação específica com alguma estrutura anatômica verdadeira.
Ele é um cientista, usa cores para definir estruturas.
Eu, formada de pão e manteiga, queijo e goiabada, bem sei como é lidar com ciências tão distintas quanto a arte e a medicina. Já circulei por inúmeras mídias dentro da arte, experimentando e inventando cada vez que criava. A descoberta das possibilidades e a frustração de ver que mesmo muito bons ingredientes podem juntos, desandar, fez da minha viagem pela arte uma estrada pouco linear, com montanhas, desfiladeiros, vales, vulcões e também planícies, lindas e bucólicas planícies.
Minhas primeiras pinturas foram feitas com tinta para aquarela que eu aplicava como tinta óleo sobre o papel. Espessas camadas de tinta cobriam tudo, minha " aquarela" tinha textura. Mas era tão grande a minha necessidade de expressar, que tudo começou assim, explosivamente.
Ainda me lembro da intensa emoção de iniciar um trabalho e em pouco tempo, vê-lo falar comigo, devolver-me a tomografia dos meus sentimentos.
Depois aprendi a técnica da aquarela e descobri que sou densa, bruta demais para algo tão delicado e perigosamente fugidio.
Dentro da medicina, também enveredei pelas imagens. Tinha uma atração aguda por radiografias e tomografias. Depois do diagnóstico (e da solução), eu começava minha viagem.
O microscópio desorganizou de vez as minhas tintas. Quantas vezes atarefada em concluir um laudo, encontrava um campo especial e interrompia meu raciocínio, para fotografá-lo pela beleza estética, queria torná-lo meu, parte do meu arquivo. É bem provável que aqueles campos de flores, aquelas linhas tortuosas e sensíveis já estivessem armazenadas no meu inconsciente e apenas vinham à tona. Emoção stricto sensu.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Reminiscências...

Opera, ópera. Mavioso canto, transformador. Onde estava antes de ouvir tanta beleza. Onde estarão todas as minhas emoções. Em que velha mala guardei tudo que experimentei e que são lembranças tão apagadas, aquarelas antigas. Como pude sofrer tanto, por tanto tempo e por quase nada. Coração cheio de lástima, silêncio... escute apenas.
Brincadeira de criança essa de sentar na calçada, roer as unhas e mastigar capim, displicentemente. E depois ficar com medo de contrair câncer. Medo de ficar banguela, de cair da pinguela da rua da minha avó. Lobos maus babando, olhos vermelhos terríveis, não me deixe cair, acorde, acorde.