O mendigo, coitado vive na esquina dorme
ali e come os restos da padaria, dizem uns que era casado e feliz até que sua
mulher largou dele por outro; começou a beber, era trabalhador, era brasileiro,
trabalhador, lá da Bahia veio morar em São Paulo, era servente, depois ajudante
de pedreiro e aprendeu a reformar sofás, então trabalhava muito e era tão
feliz, naquele dia bebeu até o dia seguinte, invernou, há quem diga que
a mulher largou dele por que já bebia demais ela não suportou, que ela fugiu
com outro todos concordam, se foi bebida antes ou depois é que ninguém sabe,
também ninguém atenta para a vida dos pobres todos querem que o serviço seja
feito, se atrasar é que vão reclamar e as vezes reclamar tem conseqüências
terríveis, porque pode detonar um inferno, contam que o rapaz invernou e a mulher teve que trabalhar para
terminar o serviço que não ficou muito bem feito ela não tinha as manhas da
coisa, reclamaram do atraso, depois do serviço porco, depois da falta de alguém
para atender, depois do bêbado transfigurado que ficava escornado lá num canto
cheirando a vômito. Aquela dona tinha encomendado a reforma do sofá assim do
nada, era um bom serviço, bem pago mas tinha que ficar perfeito e ele não
conseguiu, a dona queria que entregassem em sua casa, ele perguntou se tinha
elevador e tinha, então prometeu levar no sábado quando concluísse o acabamento;
sua mulher nada sabia, esperava que fossem buscar aquela marmota e nada, precisava do dinheiro; se bem que não tinham
filhos poderiam se virar de qualquer forma eles viviam bem
desde os tempos de Bahia que ela gostava dele, mas agora nem me fale, nem me
fale, que vou embora daqui e largo tudo vou largar tudo e deixar este frouxo as
traças, em seu vomito fedido ele era bom mas sempre teve uma queda, por mim e
pelo gim, qualquer coisa, no final, beber a torto e a direita, bebia até
perfume quando não podia beber outra coisa o álcool consumiu seu fígado
destruiu suas verdades e ele esqueceu que pode-se ser feliz, ou não só depende
do sujeito. A dona veio fula perguntar pelo sofá, falava com um sotaque
esquisito, francês não era, japonês, é japonês ou chinês, ela era nipônica
demais e estava pisando nas tamancas furiosas, estava brava pra caramba; então largou tudo lá e
foi-se embora com o porteiro do prédio, em frente que já queria largar aquele serviço
porque nunca gostara de elevadores e havia 4 que sempre
encrencavam, ele queria voltar para a Bahia e plantar coco, ela achou perfeito
e foram, tudo ficou abandonado, estopa e
panos , frangalhos de pano, a maquina de costura numa solidão de dar dó, a
lâmpada esquecida acesa e assim ficou até que acabou seu tempo de vida útil e o
mendigo babado ia ser preso, porque recebeu adiantado pela reforma do
sofá, desistiu, desistiu completamente e
passou a viver na esquina foi despejado do pequeno porão onde trabalhou tanto.
Nunca mais seria baiano de novo, nunca mais brasileiro, nunca mais humano, era
um bicho, um bicho acuado e fedorento, deixem-me deixem-me , todo mundo
conhecia, passavam por ali e davam comida ele comia, porque não, comia e depois
dormia e acordava e ia beber, comprava pinga e misturava com limão estava
acabado; até que parou de respirar foi visto frio, gelado e morto, acabou-se.
Amenidades
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quarta-feira, 1 de dezembro de 2010
quarta-feira, 11 de novembro de 2009
Cinco ou seis sentidos
Ao ver, encare a verdade de frente. Olhe para sua imagem, seu reflexo no espelho e reflita sobre o bom e o bem. Amadureça com a franqueza das frutas e aceite o significado da passagem pelo tempo.
Ao ouvir, não se deixe levar pelos floreios, maneirismos de intérprete.
Escute, sinta o som, que flui e se espalha. Se não o puder recolher como uma concha, espere, os sons viajam e voltarão.
Cheire, para destilar e purificar sua bebida, inale profundamente; miríades de efervescência excitarão seu cérebro, que compreenderá que excessos eliminar e que sutilezas faltam naquele bouquet.
Saboreie, mastigue, processe os valores da fome. Apure o paladar para definir que detalhes refrescantes, apimentados, eróticos, calmantes, enfim, toda a percepção sensorial que puder obter dos alimentos.
Percorra a superfície das pessoas e das coisas como se fosse adivinhar um presente, entusiasme-se! Até mesmo o áspero e o rugoso têm sentido e razão próprios.
Perdoe as imperfeições de ser. Não há graça no igual, apenas no equivalente e no novo. Arrisque-se!
Voce já sabe que é da natureza alternar-se entre caça e predador.
Ao ouvir, não se deixe levar pelos floreios, maneirismos de intérprete.
Escute, sinta o som, que flui e se espalha. Se não o puder recolher como uma concha, espere, os sons viajam e voltarão.
Cheire, para destilar e purificar sua bebida, inale profundamente; miríades de efervescência excitarão seu cérebro, que compreenderá que excessos eliminar e que sutilezas faltam naquele bouquet.
Saboreie, mastigue, processe os valores da fome. Apure o paladar para definir que detalhes refrescantes, apimentados, eróticos, calmantes, enfim, toda a percepção sensorial que puder obter dos alimentos.
Percorra a superfície das pessoas e das coisas como se fosse adivinhar um presente, entusiasme-se! Até mesmo o áspero e o rugoso têm sentido e razão próprios.
Perdoe as imperfeições de ser. Não há graça no igual, apenas no equivalente e no novo. Arrisque-se!
Voce já sabe que é da natureza alternar-se entre caça e predador.
quarta-feira, 14 de outubro de 2009
Sangue e vinho
Sangue e vinho. Uma experiência sombria. Foi quando experimentou o vinho e pegou gosto. Divertiu-se, perdeu a conta das taças e a hora da madrugada. Foi levado carregado para casa pelos amigos, que o colocaram na cama e se foram sem comentários...
Dia seguinte, a porta do quarto trancada, duas horas da tarde e nada do menino acordar... Alguém teve a ideia de abrir as venezianas da janela por fora e ver o que se passava ali dentro. Foi um susto! O menino estava largado sobre a cama e ao redor dele uma grande poça de alguma coisa viscosa e vermelha...É sangue! Vamos arrombar a porta! É sangue, meu Deus, ele está machucado. Ao entrarem pela porta arrombada, perceberam que não era sangue nada, apenas muito, muito vinho meio digerido, empoçado no chão do quarto!
Não sei se existe alguém no mundo que nunca tenha tomado um porre. Há dias em que estamos distraídos, ou tristonhos ou alegres demais. A base do prazer de beber é deixar-se levar, perder o controle. Se voce não consegue perder o controle com serenidade é pouco provavel que beba demais, ou de menos.
A primeira vez que bebi alguma coisa parecida com vinho foi no Natal e eu tinha 13 anos. Porque era Natal, papai sugeriu um brinde e eu também quis. Se bebi uma taça foi muito, mas logo fiquei com o rosto afogueado e com o riso solto. Papai segurando sua taça, olhou para mim, deu uma estranhada e disse. -"Voce não vai beber mais, não!"
Fiquei sem graça, estava achando tão bom... foi a primeira vez que perdi as rédeas por causa de bebida.
Muitas outras vezes depois, muitos porres vexatórios depois e eu ainda não aprendi a beber com moderação.
Gosto de beber, gosto da tonturinha, gosto de exagerar.
Não me peçam moderação, eu sou dos extremos.
E em tempos de lei seca, vale a pena convidar os amigos e beber em casa, hospedando todo mundo. Saúde!
Vai ser divertido acordar no meio da tarde seguinte e ir conferir se salvaram-se todos.
Vai ser divertido acordar no meio da tarde seguinte e ir conferir se salvaram-se todos.
quinta-feira, 30 de julho de 2009
Místico
No Rio, é comum encontrar pelas esquinas, oferendas aos espíritos, aos orixás. Nada sei sobre o assunto, não sei diferenciar macumba, de Candomblé, de magia negra, de simpatia. Mas tudo o que é místico, eu respeito. Mais que respeito, eu temo.
Assim, encontro garrafas de bebida pela metade, lenços bonitos, grãos em cumbucas, pulseiras brilhantes, pipoca estourada, espigas de milho, flores, pentes, leques, tudo muito colorido e sempre disposto de uma maneira estudada, com método.
Confesso que sinto medo de olhar, de prestar atenção... afinal, eu não tenho nada a ver com isso.
Este medo de olhar torna tudo ainda mais intrigante. Procuro pelos espíritos, será que me vêem, querendo-não querendo olhar? As oferendas, me disseram, devem ser deixadas ali até se deteriorarem. Mas alguém tira de lá... Alguém tira. Estas pessoas que não temem, não ligam, não estremecem diante do místico, devem ser mesmo pragmáticas... Ou são os lixeiros, cujo pragmatismo está no salário do fim do mês.
Assim, encontro garrafas de bebida pela metade, lenços bonitos, grãos em cumbucas, pulseiras brilhantes, pipoca estourada, espigas de milho, flores, pentes, leques, tudo muito colorido e sempre disposto de uma maneira estudada, com método.
Confesso que sinto medo de olhar, de prestar atenção... afinal, eu não tenho nada a ver com isso.
Este medo de olhar torna tudo ainda mais intrigante. Procuro pelos espíritos, será que me vêem, querendo-não querendo olhar? As oferendas, me disseram, devem ser deixadas ali até se deteriorarem. Mas alguém tira de lá... Alguém tira. Estas pessoas que não temem, não ligam, não estremecem diante do místico, devem ser mesmo pragmáticas... Ou são os lixeiros, cujo pragmatismo está no salário do fim do mês.
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