Amenidades
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domingo, 19 de dezembro de 2010
Venha
terça-feira, 22 de dezembro de 2009
2001 - 2010
Neste mundo idealizado não havia aquecimento global e nem inundações.
Havia grande desenvolvimento das comunicações - do espaço era possível conversar com a filhinha na sala de casa, através de imagens em tempo real. Não havia ainda a internet...
Havia momentos, quando era muito nova, que a solidão me conduzia ao sono, o tédio era soberano.
Hoje fico pensando na facilidade que temos de comunicação e como é divertido estar com todo mundo, mesmo vestindo uma camisolinha rota.
Que bom que estou viva e sinto tanto prazer!
Não ferva ainda, planeta, não estou pronta.
sexta-feira, 13 de novembro de 2009
Promessa
Eu prometi. Era só isso o que eu tinha a dizer sempre que perguntavam de olhos arregalados : Como você pôde??? Eu não deixaria de jeito nenhum! Sua única filha! Por que vocês a querem tão longe ? Você não tem medo, não? Coitada! E o Miguel, não falou nada? E se acontecer alguma coisa com ela, como vai ser?
Foi muito difícil. Meu coração arrebentava e eu estava morta de medo.
Já tive meus dias de virar ninguém em São Paulo, entrar na dança, ser uma a mais na multidão. Tinha mais ou menos a idade dela, mas estava casada, tinha alguém com quem dividir os sustos e as filas de pré-estreia nos cinemas. Era um porto seguro e é ainda.
-"Mas ela vai morar com quem? Sozinha? Mas que absurdo" diziam, fazendo não com a cabeça.
É que aprendi em casa, desde novinha a cumprir promessas. Sempre foi assim e é desta forma que se adquire confiança e segurança. Prometeu, cumpra!
Quando mudamos para o Rio, ela com 9 anos, completamente sem amigos, nova, a estrangeira no colégio, com um sotaque particular, foi complicado para ela.
Deixou amizades sólidas em São Paulo; algumas duram até hoje!
Via sua tristeza, sentia com ela as dificuldades de ser ingrediente novo em uma massa de bolo: bata bem as claras em neve e junte devagar, delicadamente, até que a mistura fique homogênea.
Disse: - "filha, por enquanto você precisa viver onde vivemos, não há outra forma. Estude, aprenda, desenvolva suas habilidades naturais. Quando chegar a hora, se ainda quiser ir para São Paulo fazer faculdade, você vai.
E foi isso que ela fez. Ela cumpriu e eu tinha prometido.
Ela é a mesma que não desgrudava da minha perna, que estranhava todo mundo e só queria o meu colo, e que chorava de ficar roxinha, perdia o fôlego. Ela se fortaleceu, ora, desenvolveu-se.
Não, eu não a empurrei para longe de mim.
Eu a empurrei para perto de si mesma.
Foi muito difícil. Meu coração arrebentava e eu estava morta de medo.
Já tive meus dias de virar ninguém em São Paulo, entrar na dança, ser uma a mais na multidão. Tinha mais ou menos a idade dela, mas estava casada, tinha alguém com quem dividir os sustos e as filas de pré-estreia nos cinemas. Era um porto seguro e é ainda.
-"Mas ela vai morar com quem? Sozinha? Mas que absurdo" diziam, fazendo não com a cabeça.
É que aprendi em casa, desde novinha a cumprir promessas. Sempre foi assim e é desta forma que se adquire confiança e segurança. Prometeu, cumpra!
Quando mudamos para o Rio, ela com 9 anos, completamente sem amigos, nova, a estrangeira no colégio, com um sotaque particular, foi complicado para ela.
Deixou amizades sólidas em São Paulo; algumas duram até hoje!
Via sua tristeza, sentia com ela as dificuldades de ser ingrediente novo em uma massa de bolo: bata bem as claras em neve e junte devagar, delicadamente, até que a mistura fique homogênea.
Disse: - "filha, por enquanto você precisa viver onde vivemos, não há outra forma. Estude, aprenda, desenvolva suas habilidades naturais. Quando chegar a hora, se ainda quiser ir para São Paulo fazer faculdade, você vai.
E foi isso que ela fez. Ela cumpriu e eu tinha prometido.
Ela é a mesma que não desgrudava da minha perna, que estranhava todo mundo e só queria o meu colo, e que chorava de ficar roxinha, perdia o fôlego. Ela se fortaleceu, ora, desenvolveu-se.
Não, eu não a empurrei para longe de mim.
Eu a empurrei para perto de si mesma.
quarta-feira, 11 de novembro de 2009
Cinco ou seis sentidos
Ao ver, encare a verdade de frente. Olhe para sua imagem, seu reflexo no espelho e reflita sobre o bom e o bem. Amadureça com a franqueza das frutas e aceite o significado da passagem pelo tempo.
Ao ouvir, não se deixe levar pelos floreios, maneirismos de intérprete.
Escute, sinta o som, que flui e se espalha. Se não o puder recolher como uma concha, espere, os sons viajam e voltarão.
Cheire, para destilar e purificar sua bebida, inale profundamente; miríades de efervescência excitarão seu cérebro, que compreenderá que excessos eliminar e que sutilezas faltam naquele bouquet.
Saboreie, mastigue, processe os valores da fome. Apure o paladar para definir que detalhes refrescantes, apimentados, eróticos, calmantes, enfim, toda a percepção sensorial que puder obter dos alimentos.
Percorra a superfície das pessoas e das coisas como se fosse adivinhar um presente, entusiasme-se! Até mesmo o áspero e o rugoso têm sentido e razão próprios.
Perdoe as imperfeições de ser. Não há graça no igual, apenas no equivalente e no novo. Arrisque-se!
Voce já sabe que é da natureza alternar-se entre caça e predador.
Ao ouvir, não se deixe levar pelos floreios, maneirismos de intérprete.
Escute, sinta o som, que flui e se espalha. Se não o puder recolher como uma concha, espere, os sons viajam e voltarão.
Cheire, para destilar e purificar sua bebida, inale profundamente; miríades de efervescência excitarão seu cérebro, que compreenderá que excessos eliminar e que sutilezas faltam naquele bouquet.
Saboreie, mastigue, processe os valores da fome. Apure o paladar para definir que detalhes refrescantes, apimentados, eróticos, calmantes, enfim, toda a percepção sensorial que puder obter dos alimentos.
Percorra a superfície das pessoas e das coisas como se fosse adivinhar um presente, entusiasme-se! Até mesmo o áspero e o rugoso têm sentido e razão próprios.
Perdoe as imperfeições de ser. Não há graça no igual, apenas no equivalente e no novo. Arrisque-se!
Voce já sabe que é da natureza alternar-se entre caça e predador.
terça-feira, 14 de julho de 2009
sábado, 4 de julho de 2009
vc
Estou um pouco irritada com meu braço, que ainda dói, mesmo para teclar.
Mas hoje, como é sábado, tenho vontade de ficar mais tempo em casa, esperando que alguém venha me chamar para sair, vamos ao cinema; ou para comer uma pizza de noite e beber.
O tempo lá fora cheira a rosas mas eu respiro o ar viciado da sala de jantar, eu respiro o gosto dos pressentimentos.
Palavras, palavras, são como as pamonhas de Piracicaba, alento dos domingos de manhã em São Paulo.
Latem os cães da minha rua aqui no Rio e chamam, venham cuidar de nós, que estamos aqui presos para sempre e isso não é vida, nem de cão. Eles latem vogais, as mesmas de sempre.
Quem diria que eu teria uma filha que tecla com todos os dedos das duas mãos, isso em tempos contemporâneos, é tão pouco comum...
Começamos a lidar com teclados, cada vida mais cedo na vida, depois já está tudo automatizado, monótono e ninguém mais apreende o jeito datilográfico de teclar.
Pior ainda, já se aprende a teclar quando se aprende a falar e acabam falando truncado como se fala hoje, palavras curtas, as vezes só consoantes que se fazem bem entender, juntas ou separadas. Por exemplo vc. Tudo tão óbvio nesta palavra que um dia já foi enorme e se consumiu no tempo; quando não se escrevia quase nada ainda, ela ocupava uma linha inteira. Agora, duas consoantes autonomáticas já dizem tudo: é vc que quero, é vc que vejo ao meu lado. Fico preocupada pensando se vc também virou consoante; eu não, sempre fui feita de vogais, eu combino com todo mundo, vou aos passeios agregada a tantas outras palavras, mesmo em rimas sou mais fácil de combinar. Vc, que pode fazer valer um argumento, subtrai a possibilidade de ser cordial e compassivo.
Pode ficar aí mesmo, do lado de fora, enquanto eu descanso em um casulo matinal.
Mas hoje, como é sábado, tenho vontade de ficar mais tempo em casa, esperando que alguém venha me chamar para sair, vamos ao cinema; ou para comer uma pizza de noite e beber.
O tempo lá fora cheira a rosas mas eu respiro o ar viciado da sala de jantar, eu respiro o gosto dos pressentimentos.
Palavras, palavras, são como as pamonhas de Piracicaba, alento dos domingos de manhã em São Paulo.
Latem os cães da minha rua aqui no Rio e chamam, venham cuidar de nós, que estamos aqui presos para sempre e isso não é vida, nem de cão. Eles latem vogais, as mesmas de sempre.
Quem diria que eu teria uma filha que tecla com todos os dedos das duas mãos, isso em tempos contemporâneos, é tão pouco comum...
Começamos a lidar com teclados, cada vida mais cedo na vida, depois já está tudo automatizado, monótono e ninguém mais apreende o jeito datilográfico de teclar.
Pior ainda, já se aprende a teclar quando se aprende a falar e acabam falando truncado como se fala hoje, palavras curtas, as vezes só consoantes que se fazem bem entender, juntas ou separadas. Por exemplo vc. Tudo tão óbvio nesta palavra que um dia já foi enorme e se consumiu no tempo; quando não se escrevia quase nada ainda, ela ocupava uma linha inteira. Agora, duas consoantes autonomáticas já dizem tudo: é vc que quero, é vc que vejo ao meu lado. Fico preocupada pensando se vc também virou consoante; eu não, sempre fui feita de vogais, eu combino com todo mundo, vou aos passeios agregada a tantas outras palavras, mesmo em rimas sou mais fácil de combinar. Vc, que pode fazer valer um argumento, subtrai a possibilidade de ser cordial e compassivo.
Pode ficar aí mesmo, do lado de fora, enquanto eu descanso em um casulo matinal.
quinta-feira, 2 de julho de 2009
Quer ler a sorte?
Tenho uma prima muito sensível e muito ligada em esoterismo. Ela se impressiona com facilidade e qualquer assunto agressivo ou violento a deixa fora de si. Sempre foi muito bondosa e está sempre pronta a ajudar e ouvir todos que possam precisar, mesmo que seja um desconhecido no farol.
Uns meses atrás, uma colega de trabalho convidou-a pra visitar uma cartomante, que era muito hábil em decifrar o passado e prever o futuro.
Um dia antes da consulta com a cartomante, minha prima estava muito nervosa. Parecia que se preparava para uma grande cirurgia exploratória. Quase não dormiu, pensando que a cartomante talvez descobrisse evidências e detalhes passados que há muito havia guardado em um cantinho escuro do armário.
Outro dia nos encontramos para um café e eu logo perguntei sobre a consulta. Ela arregalou os olhos antes de engolir seu pedaço de pão de queijo e começar a jorrar palavras.
-" Ela sabia de tudo, do Ademar, meu primeiro namorado, que segundo ela era o grande amor da minha vida e que eu jamais deveria ter abandonado. Falou da minha dificuldade para engravidar e do meu sucesso com a minha filha, que aliás será a única. Em um momento, a cartomante usou as cartas do Tarot. Pediu-me que fizesse perguntas para ela responder. Resolvi perguntar se eu iria morrer jovem. A cartomante ficou muito irritada, disse que poucas pessoas tinham coragem de fazer essa pergunta, mas que ela responderia. Depois de embaralhar, começou a virar lentamente as cartas e então apareceu a figura do enforcado. A cartomante, muito brava disse-me: Agora por favor tire a figura certa do baralho para que eu não tenha que lhe dar uma má notícia."
Minha prima tremia ao contar com detalhes como escolheu a carta do montinho designado pela mulher. E, adivinhem, ela acertou em cheio a carta salvadora!
E a cartomante disse: "Você vai viver muitos anos ainda, ficará velhinha. Poderá ajudar muita gente durante muitos anos... "
Contou-me que saiu da consulta aliviada e feliz. Perguntei se ela realmente gostaria de viver assim tanto tempo. Respondeu que estava feliz não pela longevidade, mas por saber que ainda iria ajudar muitas pessoas...
Uns meses atrás, uma colega de trabalho convidou-a pra visitar uma cartomante, que era muito hábil em decifrar o passado e prever o futuro.
Um dia antes da consulta com a cartomante, minha prima estava muito nervosa. Parecia que se preparava para uma grande cirurgia exploratória. Quase não dormiu, pensando que a cartomante talvez descobrisse evidências e detalhes passados que há muito havia guardado em um cantinho escuro do armário.
Outro dia nos encontramos para um café e eu logo perguntei sobre a consulta. Ela arregalou os olhos antes de engolir seu pedaço de pão de queijo e começar a jorrar palavras.
-" Ela sabia de tudo, do Ademar, meu primeiro namorado, que segundo ela era o grande amor da minha vida e que eu jamais deveria ter abandonado. Falou da minha dificuldade para engravidar e do meu sucesso com a minha filha, que aliás será a única. Em um momento, a cartomante usou as cartas do Tarot. Pediu-me que fizesse perguntas para ela responder. Resolvi perguntar se eu iria morrer jovem. A cartomante ficou muito irritada, disse que poucas pessoas tinham coragem de fazer essa pergunta, mas que ela responderia. Depois de embaralhar, começou a virar lentamente as cartas e então apareceu a figura do enforcado. A cartomante, muito brava disse-me: Agora por favor tire a figura certa do baralho para que eu não tenha que lhe dar uma má notícia."
Minha prima tremia ao contar com detalhes como escolheu a carta do montinho designado pela mulher. E, adivinhem, ela acertou em cheio a carta salvadora!
E a cartomante disse: "Você vai viver muitos anos ainda, ficará velhinha. Poderá ajudar muita gente durante muitos anos... "
Contou-me que saiu da consulta aliviada e feliz. Perguntei se ela realmente gostaria de viver assim tanto tempo. Respondeu que estava feliz não pela longevidade, mas por saber que ainda iria ajudar muitas pessoas...
domingo, 28 de junho de 2009
Queijo esquecido
Um cachecol vermelho, esquecido no sofá, se insinuando entre almofadas e mantas e gato.
Volte. Vem semear de pequenos lembretes minha casa imensa e vazia.
quinta-feira, 25 de junho de 2009
Dor
Sentir dor me deixa cansada. Quero parar de brincar...Agora chega de dor.
O ideal seria eu ficar quieta, deixar minhas células se recomporem. Eu ficaria aqui em casa envergonhada de ter caído e reclamando.
Não consigo, quero fazer minhas coisas, seguir minha rotina e meu corpo reclama: - Dói, dói dói, dói. Ou pior: DORRRRRRRRRRRRRRR.
Já contei meu tombo pra tanta gente que perdi a conta. É que está na cara que eu caí. A única alternativa possível teria sido alguém, (o Miguel?) ter esfregado várias vezes o ralador de legumes no meu rosto e depois ter dado uma sequência de socos. Penso todo o tempo em acidentes maiores, de carro, de avião, de trem. Penso nos suicidas que não conseguiram e que sentem uma vergonha dupla.
Quero escrever sobre coisas bonitas, mas dôo tanto...
Suportem por uns dias essas lamentações. Prometo ficar mais animada no fim de semana, mesmo porque minha querida, ex "demenor", estará nos visitando.
O ideal seria eu ficar quieta, deixar minhas células se recomporem. Eu ficaria aqui em casa envergonhada de ter caído e reclamando.
Não consigo, quero fazer minhas coisas, seguir minha rotina e meu corpo reclama: - Dói, dói dói, dói. Ou pior: DORRRRRRRRRRRRRRR.
Já contei meu tombo pra tanta gente que perdi a conta. É que está na cara que eu caí. A única alternativa possível teria sido alguém, (o Miguel?) ter esfregado várias vezes o ralador de legumes no meu rosto e depois ter dado uma sequência de socos. Penso todo o tempo em acidentes maiores, de carro, de avião, de trem. Penso nos suicidas que não conseguiram e que sentem uma vergonha dupla.
Quero escrever sobre coisas bonitas, mas dôo tanto...
Suportem por uns dias essas lamentações. Prometo ficar mais animada no fim de semana, mesmo porque minha querida, ex "demenor", estará nos visitando.
domingo, 21 de junho de 2009
Helena

Nasceu cuspindo, como se eu, interiormente, fosse de chocolate, que ela abomina.
Logo deixou claro que não tinha problemas renais, "fiquem todos calmos".
Quando respirou, baliu tão fracamente que ninguém naquela sala acreditaria que um mês depois estaria cantando ópera para todo o quarteirão ouvir.
Tudo correu bem, ela foi para o berçário sob os protestos do pai, que queria ficar com ela só mais um pouquinho.
Só a vimos novamente à noitinha, para a primeira mamada. Passei o dia louca de saudade, tomei um banho para esperá-la e quando ela chegou ficamos juntas pelejando um pouquinho e logo a enfermeira já veio levá-la. -" Já?" Bem, eu a tinha colocado ao meu lado na cama, (eu e aquele casulinho quente) e o Miguel estava perto, na cama de acompanhante. Estávamos os três exaustos e nossos primeiros momentos juntos passamos dormindo...
A pediatra veio fazer uma visita e afirmou que suas notas ao nascimento foram: 9-10-10. Eu, que estava recostada, sorridente e relaxada, sentei pra perguntar: - nove? Por que nove?
Desde que ela nasceu, aliás desde que eu nasci, eu quero dez, eu quero o máximo, eu quero tudo. E foi com ela que aprendi a respeitar os bons e os maus momentos, a ser mais tolerante, comigo, com ela, com o mundo todo. Fui ficando mais feliz.
O inverno tinha começado no dia anterior e fazia um frio...
Fomos para casa dois dias depois e começamos a conhecer nossa menininha, fortaleza frágil, castelo de cartas sempre reconstruído, cada vez mais determinada, cada dia mais intensa e definitiva.
Com medo de que ela me perdesse, tratei de ensiná-la a ser auto-suficiente, capaz de reagir e seguir em frente. O que eu não sabia é que a convivência com ela me transformaria em alguém mais estruturado, mais definido, um castelo pra valer, de pedras e metais.
Aos 21 anos, ela é uma mulher intensa e apaixonada. Defende suas opiniões com avidez e bons argumentos. Um amigo dela disse certa vez, que ela, mesmo estando errada, está certa. Ela tem convicção e auto-estima e vá lá, não gosta de perder... Mas afinal, quem gosta?
Logo deixou claro que não tinha problemas renais, "fiquem todos calmos".
Quando respirou, baliu tão fracamente que ninguém naquela sala acreditaria que um mês depois estaria cantando ópera para todo o quarteirão ouvir.
Tudo correu bem, ela foi para o berçário sob os protestos do pai, que queria ficar com ela só mais um pouquinho.
Só a vimos novamente à noitinha, para a primeira mamada. Passei o dia louca de saudade, tomei um banho para esperá-la e quando ela chegou ficamos juntas pelejando um pouquinho e logo a enfermeira já veio levá-la. -" Já?" Bem, eu a tinha colocado ao meu lado na cama, (eu e aquele casulinho quente) e o Miguel estava perto, na cama de acompanhante. Estávamos os três exaustos e nossos primeiros momentos juntos passamos dormindo...
A pediatra veio fazer uma visita e afirmou que suas notas ao nascimento foram: 9-10-10. Eu, que estava recostada, sorridente e relaxada, sentei pra perguntar: - nove? Por que nove?
Desde que ela nasceu, aliás desde que eu nasci, eu quero dez, eu quero o máximo, eu quero tudo. E foi com ela que aprendi a respeitar os bons e os maus momentos, a ser mais tolerante, comigo, com ela, com o mundo todo. Fui ficando mais feliz.
O inverno tinha começado no dia anterior e fazia um frio...
Fomos para casa dois dias depois e começamos a conhecer nossa menininha, fortaleza frágil, castelo de cartas sempre reconstruído, cada vez mais determinada, cada dia mais intensa e definitiva.
Com medo de que ela me perdesse, tratei de ensiná-la a ser auto-suficiente, capaz de reagir e seguir em frente. O que eu não sabia é que a convivência com ela me transformaria em alguém mais estruturado, mais definido, um castelo pra valer, de pedras e metais.
Aos 21 anos, ela é uma mulher intensa e apaixonada. Defende suas opiniões com avidez e bons argumentos. Um amigo dela disse certa vez, que ela, mesmo estando errada, está certa. Ela tem convicção e auto-estima e vá lá, não gosta de perder... Mas afinal, quem gosta?
sábado, 13 de junho de 2009
Ouvir, verbo de transição
Tem gente que nunca ouve. Os ouvidos estão ocupados por fones de ouvido. Conversar, faz tempo, deixou de ser divertido, é enfadonho. Trocar ideias nem pensar, cada um na sua opinião.
Trocava cartas de amor, trocava figurinhas e às vezes trocava dinheiro. Agora mal troco bons dias.
Faz tempo, namorar era sentar juntinho no sofá da sala e trocar carinhos, beijos, juras.
Minha filha divide. Divide o namorado com os amigos, convida todo mundo para ver o sol se por e compartilha suas ideias e decepções com um monte de gente, no twitter.
Estou tentando acompanhar este vendaval.
Só espero que não haja problemas no meu pitot.
Trocava cartas de amor, trocava figurinhas e às vezes trocava dinheiro. Agora mal troco bons dias.
Faz tempo, namorar era sentar juntinho no sofá da sala e trocar carinhos, beijos, juras.
Minha filha divide. Divide o namorado com os amigos, convida todo mundo para ver o sol se por e compartilha suas ideias e decepções com um monte de gente, no twitter.
Estou tentando acompanhar este vendaval.
Só espero que não haja problemas no meu pitot.
domingo, 26 de abril de 2009
O tempo...
No meio das tardes, sei que estará tudo bem se eu passar assim por aqui muitas vezes mais.
Quer dizer que estive com ela, que pude cheirar as dores e desconfortos, quase como um cão molosso. Pude cozinhar para ela, pude conferir as pintas e sinais e ouvir as risadas, coisas que vão ocupar minhas lembranças até a próxima vez.
Boa viagem, Pequena, bom destino, boas semanas...
Em sua roda viva ainda selvagem muitos pequenos ajustes serão burilados pelo tempo.
Sempre o tempo. Que já andou limando minhas arestas e até hoje anda...
sexta-feira, 17 de outubro de 2008
Um colo
Quem quiser pode se aninhar, sei embalar muito bem.
Também sei cantar e fazer dormir. Meu cafuné, disse-me minha filha, é gostoso e relaxante.
É um colo grande, confortável, para pessoas de qualquer idade.
Há vinte anos se formou e para sempre.
Pode ser compartilhado com gatos e outros bichinhos.
Mas saibam que ele tem dona e a preferência será sempre dela.
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