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quarta-feira, 5 de maio de 2010

Felizes para sempre

Fico aqui pensando, pensando.
Alguns dias são muito melhores que outros e hoje é um dia vazio.
Um dia lindo na verdade, mas vazio como a camada invisível de ozonio.
Penso que as historias de vida, quando sobrepostas, podem ser transformadas em pequenos sonetos de amor.
Podemos brincar com os finais das histórias. E se não houver nenhuma boa alternativa, ainda que o caos tenha se instalado montanha abaixo, ainda podemos dizer:
E"foram felizes para sempre", seja lá o que for que isso signifique.

domingo, 27 de setembro de 2009

Partida

Ah, as criancinhas pálidas que carreguei no colo.
Os pensamentos atróficos, os tensos, os inflamados que avaliei sob a lupa.
As cicatrizes genéricas de batalhas vencidas, que revelam a luta renhida que se travou ali.
As pequenas interferências do dia a dia, que anotei em meu caderno e passei ao largo.
Os traumatismos e as confusões, as calcificações esporádicas que desdenhei pela falta de importância.
Os grandes corações cheios de dores e lembranças, numa síndrome definitiva de ninho vazio.
Ah, a primavera. Um corpo jovem, atlético, negro que repousa agora sobre miríades luminosas do campo visual profanado, hemorragia cerebral.
A ingenuidade de um corpo jovem, grávido, sólido, que reluta em adormecer antes de acordar.
A insensatez da desnutrição do menino pardo e louro.
Um grito rouco e metálico de faca no metal, que não avisa sua indiferença diante do trágico.
O folhetim que se joga fora depois da página virada.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

B-I-C-I-C-L-E-T-A

Hoje está um dia claro e fresco. Resolvi pedalar na praia. Peguei minha garrafinha de água, coloquei no suporte da minha magrinha e fui saindo, animada. Na rua percebi que os pneus estavam muito vazios. Voltei. Onde está a bomba de calibragem? Ali. Não dava pressão. Os pneus ficaram mais murchos que antes. Resolvi ir até a portaria do condomínio, ao lembrar que como os seguranças fazem suas rondas de bicicleta, eles deveriam ter alguma bomba por ali. Tinham, mas estava quebrada também. Voltei para casa, injuriada, procurei pelas outras duas bombas que tenho certeza, estão bem guardadas...Não achei. Detesto quando planejo alguma coisa e não sai. Aí lembrei da minha bicicleta velhinha, que eu comprei num impulso logo que mudamos pro Rio. Ela estava em forma, pneus calibrados e eu pude sair com ela. Pensava em quanto sou teimosa; entrei fechado demais em uma curva e quase caí. Lembrei de quando eu resolvi aprender a andar de bicicleta e fiquei rindo sozinha. Bom, eu não sou a única nesta família que prima pela teimosia. Todas somos muito custosas e quando nos reunimos, há sempre discussões figadais. Cada uma tem seu ponto de vista e o defende vivamente e em geral cada uma vai embora com a própria opinião ainda mais elaborada.
Eu resolvi aprender a andar de bicicleta em umas férias que passei na fazenda do Hércules. Puxei fundo pelos meus neurônios mais antigos, mas não me lembro porque decidi aprender a andar de bicicleta naquele dia. Com certeza, alguém zombou de mim e eu encafifei. Lá havia uma bicicleta bem velha, sem freios, pneus carecas e murchos, guidon meio torto. O espaço que eu tinha para aprender era em um declive do terreno, de terra batida e era preciso fazer curvas bem fechadas, porque ali em volta daquela pequena clareira, havia muitos limoeiros. Com a companhia de algumas galinhas e pintinhos alvoroçados, penei! Não sei quantas vezes caí e levantei e teimei. Mas acabei pegando o jeito e feliz e cansada, suja de terra e coberta de arranhões fui tomar banho.
Em tempo. Meus irmãos também são muito teimosos, apenas fazem menos barulho...