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sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Cozido e assado

Qual a diferença entre cozinhar e assar?
Comi uma cocada assada com sorvete outro dia, delícia de sobremesa.
Também comi uma cocada mole, suculenta até - é, estava na Bahia- que deve ter sido cozida.
Parece-me que o cozimento depende de se colocar o alimento na água para ferverem juntos e apurar o sabor.
Assar, por outro lado, é um processo que não sei explicar. Entendo mas não explico.
Resolvi fazer um bolo bem fofo, receita da Luciana, uma delícia.
Caprichei nas medidas, nas temperaturas, no cuidado com ventos e barulhos que pudessem assustar a massa. Mas o forno não estava bem e o bolo cozinhou. Ficou feito um pudim, daqueles feitos em banho-maria, que é uma outra forma de cozinhar. Não tinha nada de fofo. Ficou elástico, com gosto de milho e coco, mas não tinha nada isso na receita.
Improvisei uma sobremesa, recheando quadradinhos do bolo cozido com doce de leite e embrulhei.
Vamos ver se embrulho nessa os meus hóspedes...
Mas quis fazer outro bolo, desta vez assado. Caprichei de novo, usei outro forno, marquei o tempo com o despertador da cozinha e vim aqui, escrever. O cheiro está muito bom.
Daqui a pouco o despertador vai tocar e eu vou ver se saiu certo. Ou será que espero o bolo esfriar. Será que abro a porta do forno bem devagarinho para ver se cresceu. Ou acendo a luzinha do forno para ver a cara do bolo. Será que espeto um palito para ver se cozinhou? Não, cozinhou não, assou!
E ainda dizem, para as coisas muito fáceis, que são como receita de bolo. Eu, hein?
Puxa, não tenho mais nada a dizer.
Vou lá conferir.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Baianas

Depois de mais de uma hora de caminhada, resolvemos sentar em um banco de praça e recuperar o fôlego. Ficamos conversando e vimos, do outro lado, uma cadela bem vira-latas, velhinha, que cochilava ao lado de um sem-teto adormecido.
- " Vem cá, meu docinho", ouvimos de uma baiana magra, simples, de uns 30 anos. Foi chegando com um prato de plástico azul cheio de ração e muitos ossos de frango. A cadela levantou com dificuldade, chegou perto do prato, deitou-se e começou a comer os ossinhos, mastigando com vontade. Não parecia estar faminta como meu pobre cachorro, que está em dieta. Aquele encontro era uma rotina. Foi comendo devagar, escolhendo no prato. A baiana, enquanto isso, falava com ela e conferia tudo, a barriga, as orelhas, os dentes. Conversava normalmente como se falasse com uma boa e querida amiga. Quando sobrou só a ração, "docinho" parou de comer. Bahiana ralhou com ela - "quer dizer que você só come osso e carne! Assim não dá, precisa comer a ração". Com um garfo, pegava alguns grãos e tentava dar de comer à cadela, que já estava mais que satisfeita. Ficaram as duas conversando mais um pouco. Quando a cadela voltou pro seu canto, Bahiana sumiu, deixando por ali o prato com ração. Daí a pouco ela volta e traz nos braços outra cadela do mesmo tipo, mas meio sarnenta e recém- parida. Bahiana falava com o motorista de táxi da praça - "Pois sabe que ela resolveu parir no fundo daquele terreno baldio, cheio de entulhos e mato com espinhos. E queria que eu entrasse lá, para ver os filhotes, vê se pode. Assim que eles estiverem crescidos, vou arranjar a castração."
Nisso, a cadelinha branquela mastigava com prazer a ração do prato azul. Comeu tudo enquanto Bahiana apertava-lhe as tetas cheias de leite, procurava carrapatos e falava com ela. Quando uma terminou de comer, a outra encheu o prato azul de água; a cadelinha bebeu bastante. Só quem já amamentou pra saber a sede que dá.
Ficaram por ali mais um pouco e do mesmo jeito que chegou, foi-se embora a baianinha.
Miguel e eu, hipnotizados com aquele amor, mas já descansados, fomos almoçar moqueca de camarão.
Nosso Senhor do Bonfim certamente abençoa essas criaturas do mundo e da complacente Bahia.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Cabo Cunha

Houve um tempo em que eu colecionava sonhos. A princípio por questões terapêuticas, depois por hábito, depois de birra e depois porque não conseguia parar de lembrar e anotar. Estou revivendo isso porque em uma viagem que fiz a Salvador, faz mais de 20 anos, um gatuno oportunista entrou em meu quarto do hotel 5 estrelas, como se fosse meu acompanhante e levou uma máquina fotográfica, uma bolsa com várias roupas, uma sacola cheia de patuás e meu Deus, meu gravador de sonhos. Quase enlouqueci de vez. Onde estariam meus filhinhos sonhos recém nascidos?
O hotel passou a me tratar como se eu fosse uma princesa, com presentes e cortesias.
No dia seguinte escalaram o cabo Cunha, um baiano ajeitado e cheiroso que ficou circulando comigo do hotel para a delegacia porque haviam encontrado pertences de várias pessoas que haviam sido roubadas da mesma forma. Cabo Cunha me levou para ver quem era o assaltante quando conseguiram prendê-lo. O último objeto que consegui resgatar foi o gravador. Senti minha vida fluir de novo, recuperava meu inconsciente.
Voltarei a Salvador no mês que vem. Desta vez não levarei cadernos nem gravador de sonhos até mesmo porque perdi o hábito de recordá-los.
Levarei uma vontade muito grande de me acertar com a cidade que dizem ser hospitaleira, alegre e linda. Tomara que eu seja recebida de braços bem abertos.
E agora fiquei aqui pensando...qual será atualmente a patente do então cabo Cunha?