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sábado, 10 de setembro de 2011

Médicos veterinários

Ontem, dia do médico veterinário, estive às voltas com tantos e nem me lembrei de cumprimentá-los. Frenética e assustada, com dúvidas ainda se deveria fazer meu pobre cão passar por uma experência muito infeliz mas restauradora, só o Miguel me acalmava, sempre tão presente e solidário.Depois da cirurgia, pela primeira vez em toda a vida do meu cachorro pude ver seus cílios, não é que estavam mesmo para dentro?
E foi assim, em uma clínica veterinária - Vet Service - que passei boa parte da tarde,torcendo pelo meu animal.
A não ser pelo estresse que um flanelinha causou ao insultar o cachorrão, que eu tentava conter com focinheira e mordaça, no porta-malas da camionete, para a aplicação do sedativo, correu tudo bem.
O flanelinha abobado, dançava na frente do cachorro e com ironia dizia: " é o Mike Tyson" . E eu aos gritos dizia: Saia daí que ele é bravo!   (Se acontecesse algum desastre a culpa seria minha, claro...)
Agora é acompanhar a recuperação e agradecer a todos que fizeram parte dessa pequena saga do melhor amigo doente.
Parabéns, veterinários! E muito obrigada!

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Fragilidade

Foi um momento tenso.
Ela chamou, mas ele queria brincar e fugiu pelo portão entreaberto.
O carro freou bruscamente e fez um barulho irritante até parar completamente.
Na rua, o cãozinho tremia de medo.
A menina foi buscá-lo muito assustada também, mas sentia alívio por vê-lo sem ferimentos ou dores.
Agradeceu à senhora que dirigia o carro, que também estava em choque com o susto.
Entrou em casa e com o cãozinho no colo subiu até seu quarto.
Chorou um pouco abraçada a ele e depois suspirou bem fundo.
Compreendia de forma aguda e absoluta a fragilidade de existir.

terça-feira, 23 de março de 2010

Cuidado

Tenha cuidado quando sair  porque o portão às vezes fica aberto. É preciso fechá-lo com muito zelo para evitar que os cães vão à rua.
Quando o mestre de obras chegar, lide com ele com atenção. É um senhor simpático, carioquíssimo, com sua trena e seu boné. Ontem ele esquadrinhou a varanda e deu seu preço. Hoje fará o serviço.
Tenha cuidado quando voltar porque se o portão estiver aberto os cães poderão sair.
É preciso que o mestre de obras e os cães não se encontrem. Os cães já farejaram tudo por onde ele passou. Ficaram curiosos com este cheiro novo na varanda.
Por isso, se entrar pelo portão tenha cuidado. Feche, tranque, cuide.




quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Baianas

Depois de mais de uma hora de caminhada, resolvemos sentar em um banco de praça e recuperar o fôlego. Ficamos conversando e vimos, do outro lado, uma cadela bem vira-latas, velhinha, que cochilava ao lado de um sem-teto adormecido.
- " Vem cá, meu docinho", ouvimos de uma baiana magra, simples, de uns 30 anos. Foi chegando com um prato de plástico azul cheio de ração e muitos ossos de frango. A cadela levantou com dificuldade, chegou perto do prato, deitou-se e começou a comer os ossinhos, mastigando com vontade. Não parecia estar faminta como meu pobre cachorro, que está em dieta. Aquele encontro era uma rotina. Foi comendo devagar, escolhendo no prato. A baiana, enquanto isso, falava com ela e conferia tudo, a barriga, as orelhas, os dentes. Conversava normalmente como se falasse com uma boa e querida amiga. Quando sobrou só a ração, "docinho" parou de comer. Bahiana ralhou com ela - "quer dizer que você só come osso e carne! Assim não dá, precisa comer a ração". Com um garfo, pegava alguns grãos e tentava dar de comer à cadela, que já estava mais que satisfeita. Ficaram as duas conversando mais um pouco. Quando a cadela voltou pro seu canto, Bahiana sumiu, deixando por ali o prato com ração. Daí a pouco ela volta e traz nos braços outra cadela do mesmo tipo, mas meio sarnenta e recém- parida. Bahiana falava com o motorista de táxi da praça - "Pois sabe que ela resolveu parir no fundo daquele terreno baldio, cheio de entulhos e mato com espinhos. E queria que eu entrasse lá, para ver os filhotes, vê se pode. Assim que eles estiverem crescidos, vou arranjar a castração."
Nisso, a cadelinha branquela mastigava com prazer a ração do prato azul. Comeu tudo enquanto Bahiana apertava-lhe as tetas cheias de leite, procurava carrapatos e falava com ela. Quando uma terminou de comer, a outra encheu o prato azul de água; a cadelinha bebeu bastante. Só quem já amamentou pra saber a sede que dá.
Ficaram por ali mais um pouco e do mesmo jeito que chegou, foi-se embora a baianinha.
Miguel e eu, hipnotizados com aquele amor, mas já descansados, fomos almoçar moqueca de camarão.
Nosso Senhor do Bonfim certamente abençoa essas criaturas do mundo e da complacente Bahia.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Voltar a ser

Tenho esperanças de voltar a ser. No piano, vários papéis empilhados, causam uma impressão de desleixo. Contas a pagar. Quando eu voltar a ser, as contas não mais atrasarão.
Sobre o mármore na cozinha, umas frutas esperam para serem lavadas e empilhadas na fruteira. Falta de tempo, falta de ânimo. Quando eu voltar a ser, vou comer todas as frutas que comprar.
Os vidros das janelas estão sujos, choveu e choveu e os vidros estão muito sujos. Vai chover de novo, mas tenho que me preparar para limpá-los. Vidros sujos escurecem as sombras e as penumbras.
O cão se coça no jardim, curtindo o prazer da coceirinha. Preciso banhar o cão e talvez o gato. Acho que posso deixar para amanhã, mas amanhã sem falta, se não chover de novo.
As malas estão por desfazer, roupas sujas, roupas usadas, uns tênis, coisas de toucador e eu sei, em algum cantinho está um bombom Garoto.
No quarto de quem mora fora, tudo está em ordem. A ausência organiza. O silêncio limpa.
Vou varrer a casa e depois trocar as roupas de cama, mas antes preciso falar com a Beth sobre as aulas de ginástica. Se ela puder vir, convido para um chá com bombas de chocolate. A Beth nem vai reparar, talvez me ajude a reparar tudo, talvez faça um curativo no meu machucado.
Preciso comprar pão, vou de bicicleta, ou melhor vou pedir ao meu menino que busque o pão, de bicicleta. Lá fora, o sol arde, aqui está confortável por causa do ar, não vou sair, vou esperar que alguém vá e compre, vou deitar um pouquinho, minha cabeça dói.
Amanhã, quando acordar, estarei menos ferida, quem sabe amanhã mesmo, volto a ser.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Ele some...

Não sei ainda porque insisto. Fico pensando que ele é um bom sujeito, que gosta de trabalhar e faz bem seu trabalho. E quando tudo vai bem, de repente ele some. Fico na mão. Ninguém mais faz tão bem. Várias vezes pensei em mudar radicalmente. Acabou, nunca mais quero o serviço dele.
Mas volto atrás. Quem sabe ele tomou jeito.
Meu cachorro e ele são amigos, ele vem aqui em casa, desde que o Haus era filhote.
Logo que mudamos para cá, dei a ele um aquário de tamanho médio que estava meio esquecido entre meus guardados e a partir disso ele tem uma gratidão que não acaba. Claro que sempre foi muito bem tratado com café fresco e banana, que é o que ele come.
O aquário? Deve ter quebrado faz tempo. Peixes afogados, família desfeita, depressão, serviços atrasados, alcoolismo...
Mas quando volta, volta feliz, querendo trabalhar e capricha...
Até sumir de novo. É aí que eu fico me perguntando porque continuo insistindo.

terça-feira, 14 de julho de 2009

Tenho

Minha casa, meu caminho, minha vida. Minha mãe, meus irmãos, minhas irmãs. Minha filha, meu marido, meu cão, meu gato. Minha bolsa, meu celular, meu computador.
Sou uma senhora de posses...

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Descupinizador

Esteve aqui em casa o desratizador, descupinizador e des-outros-bichos-que-não-me-lembro. Mandei fazer o serviço completo. Arrasta móveis daqui, empurra móveis pra lá e meu roda-pé arrancou-se de tanto cupim. Convivemos e sobrevivemos em pé de igualdade com tantos outros seres... a solidão é mera impressão. O rapaz, de grandes bigodes, (por que eles sempre usam bigodes?), sapatos barulhentos e aquela haste comprida de onde saem todos os venenos, arrasou.
O Haus preso no canil, quando viu aquilo, uivou, alucinado. O Felipe, escafedeu-se. Casa toda fumigada, o maior pampeiro, tratei de sair também, abandonei às traças, o navio.
Quando voltei algumas horas depois, já escurecia e as nódoas do veneno no chão não incomodavam tanto. O serviço tem garantia de 2 anos. Eu não tenho garantia nenhuma. Tomara que os descupinizadores cósmicos se esqueçam de mim.

terça-feira, 19 de maio de 2009

Estações

Ah, o outono... Há momentos de um silêncio tão pungente que dói. Aquele espaço-tempo entre o sono e o despertar que parece infinito. O outono é assim, tão inesgotável, ao mesmo tempo que encanta, deixa já saudades.
Lá, adiante, bem em frente a mim, um cão ignora o outono. Sente a dor do inverno, sente a sede do verão, mas ignora as estações suaves.
Um dia ainda vou criar uma nova estação. Estas que temos não têm mais jeito.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Bolinhas de gude

Tocaram a campainha. Fui abrir, eram meninos vendendo bolinhas de gude para um trabalho do colégio. Caras de pau! Mas achei bonitinho estarem se virando, comprei logo quatro. Caras as bolinhas, cinquenta centavos cada. Todas idênticas e das mais comuns, vidro verde cheio de bolhazinhas. Guardei numa gaveta qualquer, fui fazer o almoço. Hoje de manhã havia mais uma bolinha verde depositada no vaso ao lado da porta, onde tem uma placa "cuidado com o cão".
Talvez não tenham achado outros compradores de bolinha de gude. Mas pode ser também que eles tenham me presenteado pela minha bondade.

domingo, 5 de abril de 2009

Sem comentários...

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Latidos

O som é agudo. Mas não corre atrás da gente. Fica ali, parado, agudo, agudo. Tem dias que silencia. Mas volta agudo de novo. O que acontece? Alguém precisa cuidar desse bicho. Ele anda em todo o jardim, ele ouve quem passa na rua e late, late muito. Ninguém liga se está latindo... Só eu fico aqui aflita. Som agudo, medo, pânico. Um bicho doido pra ganhar um cafuné ou um petisco.

Dentro de mim...

A visita foi agendada para as catorze horas. O interfone tocou as duas e um. Atendi, abri a porta e lá fora o segurança esperava em sua bicicleta. Disse a ele que estava tudo bem e o tal moço entrou aqui em casa - garagem, porta de entrada, sala, corredor. Pediu um copo d'agua. Ligou para a firma para concluir o serviço. Ele estava dentro da minha cozinha... E eu olhei pro tênis dele e achei lindo. Subitamente, gelei. Podia ser qualquer um. Podia ser o ladrão, o bandido, o doido. Podia ser até o padre. Dei-me conta de que não tinha idéia de quem colocara aqui dentro... O moço foi embora e eu fechei a porta, tremendo.
A partir de hoje só se entra aqui se o cachorro estiver preso na corrente, bem em frente ao portão. Quem quiser tem que se submeter a passar por ele, abaixar a cabeça e não lhe olhar nos olhos.
É sim, uma ameaça.
Sim, meu cão é uma fera.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Domésticos


O cão espiou o gato que andava devagar.

O gato viu o cão e deitou-se malemolente.

O cão ficou quieto e o gato bocejou.

O cão suspirou e saiu, foi deitar-se perto da cozinha.

O gato por fim entrou em casa, subiu no sofá. Lambia-se todo.

Estranhas criaturas estes animais domésticos...