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segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Balanço

Herdei de minha mãe, o hábito de balançar. Antes de dormir, na fila do banco, quando estou sozinha pensando na vida, quando não tenho mais nada para fazer. Balanço para me ninar, para me confortar, para fazer contas de cabeça, para pegar no sono.
Como mamãe sempre se balançou, acreditava que todo mundo fazia o mesmo. Mas não, as pessoas estranham. Uma amiga da família, com Alzheimer, em um momento de lucidez, exclamou para mamãe, que lhe fazia companhia: -"Mas a senhora balança, hein!?" E caiu na risada.
Não é aflição, não é aquele jeito de agitar as pernas ou os pés. É uma cadencia, num ritmo muito próprio, o corpo todo participa. Meu abraço também tem balanço, acho que danço quando abraço.
Ocasionalmente encontro alguém com esse gingado na alma, a quem abraçar é pura harmonia, é infinito prazer.
Acho que tem alguma coisa a ver com as marés...

domingo, 27 de setembro de 2009

Desmanche

Faz um ano, levei a sério a decisão de parar de fumar. Com ajuda de medicação, muita disciplina e força de vontade, fui diminuindo, diminuindo até parar por completo.
Usei todas as receitas que as pessoas que não fumam e as que pararam de fumar me aconselharam.
Intimamente sentia que era importante manter as mãos ocupadas, já que, se estava distraída com alguma coisa manual, o cigarro queimava brochando no cinzeiro.
Comecei a escrever, voltei às tintas, aprendi a fazer mosaico e o melhor de todos os hábitos, resolvi fazer croché. Já tinha aprendido alguma coisa, nem sei quando e nem sei com quem. Sou naturalmente curiosa e quero experimentar mesmo que seja para deixar de lado em pouco tempo. Mas como frequentemente acontece, depois de alguns meses, acabo novamente interessada e em um patamar mais alto e mais experiente, como se subisse por uma escada helicoidal, experimento de novo.
"- Como você sabe que está na hora de fazer a trancinha?"
Ângela parou de trabalhar, olhou-me por cima dos óculos e disse: Você tem que contar, ?
Contar as carreiras? Desisti. Como poderia viajar meus pensamentos tendo que contar os pontos? Ah, nem...
E de uma outra vez:
"- Como faço este quadradinho? "
E a Martha: "- Faça uma trancinha de três pontos, dê uma laçada, faça outra trancinha."
"-Mas olha, não deu certo, está torto!"
"-Então, desmanche! Comece de novo."
Arrepiei. Desmanchar??? Ah, não, não vou desmanchar.
Muitas tentativas e erros depois, olhei desanimada para a pilha de pedacinhos de croché sobre minha mesinha. Com raiva, peguei todos e joguei no lixo.
Tinha feito um tapete simpático mas enrugado e olhei para ele com pesar. Não posso jogar tanta linha fora, é até pecado.
Peguei o tapete e estoicamente desmanchei.
Nada poderia ter sido tão restaurador.
A bolota de linha pedia para ser extinta. Precisei usá-la e desta vez, caprichei.
Fiz um outro tapete. Menor, mas menos enrugado.
Ok, vou desmanchar de novo!
Agora, já posso!

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Tudo jóia

Há alguns meses, participei de uma festa onde estava a maioria dos nossos amigos. Em meio a muita alegria e disposição, conferíamos as diferenças de cada um, mais gordo, mais magro, mais velho, esticado, enrugado, tudo muito realçado pelas roupas elegantes e adornos delicados. Ali estava o melhor de cada um. Enquanto circulávamos pela festa distribuindo beijos (dois) e elogios (vários) dei-me conta de que por aqui ainda se usa a expressão - Tudo jóia? Lembro-me de que era um cumprimento comum nos meus idos vinte e poucos anos, mas como passei uma temporada estudando com gente bem mais jovem, tinha perdido o hábito de ouvir.
Nesta festa, entre pessoas de meia idade bem sucedidas, o "tudo jóia" era geral. Até eu me peguei falando tudo jóia lá pelo meio da festa.
Muitas pessoas exibiam suas jóias e aí a expressão era ainda mais feliz.
Em tempo de contenção de despesas, o mundo preocupado com o que há de vir, somado aos riscos de ser assaltado, usar jóias passou a ser mais que ostentação, uma burrice.
Comprar jóias então só é viável para aqueles que desprezam o serviço de bordo da primeira classe das frequentes viagens ao exterior, por uma boa noite de sono.
Ainda assim, bem escondidinho, todo mundo tem umas jóias de família, que são guardadas pelo valor afetivo muito mais do que pelo valor efetivo.
As jóias voltaram a ser os tesouros escondidos ou perdidos da época dos piratas.
E quando podemos vê-las assim, em dias de festa, só nos resta mesmo dizer com segurança: "Tudo jóia!"

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Natureza selvagem

Quando vou para a academia a pé, caminho pelas ruas do Recreio. Entre as grandes avenidas ,há várias ruazinhas pitorescas, sempre muito arborizadas, com prédios simpáticos de até três andares.
Lembro-me sempre de cidades do interior e sua simplicidade.
Há uma rua em particular que adoro. Passo por ali mais ou menos às 9:00 hs e vejo o chão coberto de folhagens e flores caídas durante a noite, lindas imagens de caleidoscópio. Invariavelmente alguns empregados desses prédios estão varrendo a calçada e tudo fica limpinho, uma tela em branco para a próxima arte da natureza. De repente, uma cornetinha toca e eu já sei! É um padeiro que leva, montado sobre um triciclo, um tabuleiro cheio de rosquinhas e outros acepipes. Algumas pessoas aparecem na janela para pedir ao padeiro que as espere. Sinto um conforto quentinho quando vejo esta cena tão íntima de cumplicidade.
Mas ainda vejo um hábito de cidades anteriores, quando empregados varrem a rua com o esguicho da mangueira de água. Quando era novinha, olhava admirada essa força de limpeza da água, nas duras pedras das calçadas. Mas hoje, com o instinto ecológico que o momento global precisa, sinto uma estranha inquietação. E como acontece nos safaris em que observamos os bichos em seu habitat, sem interferir em sua natureza selvagem, vou seguindo adiante entristecida, desolada.