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terça-feira, 25 de setembro de 2012

Insônia


Dona Insônia bateu a minha porta na noite passada, quando ia me deitar. 
Vim atendê-la com reserva e respeito, nos conhecemos faz muito tempo.
Ela entrou na sala como se a casa fosse dela, conferiu meus objetos com um ar de mofa, depois se sentou no sofá sem ser convidada. Sentei-me também e aguardei. Ela acendeu um cigarro e pediu um cinzeiro. Saí à procura de um pires para ela depositar suas cinzas. Inspirei fundo o aroma do vício, antevia o sabor.
Perguntei se desejava beber alguma coisa e ela deu de ombros. 
- Cerveja?
- Uma taça de vinho?
Trouxe-lhe umas trufas deliciosas e um copo de Coca-Cola. Nem tocou.
Pensei em um chá de frutas, ela agradeceu e acendeu mais um cigarro.
Para que ela finalmente fosse embora, engoli um sonífero com o vinho que ela rejeitara.
Eram mais de três horas da manhã. 

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Um vício

Vamos supor que avisem de última hora que a humanidade está condenada e que somente pessoas com menos de cinquenta anos e plena força de trabalho terão chance de serem escolhidas para cidades subterrâneas ou espaçonaves-cidades. Sim, porque é isso que assistimos em todos os filmes-catástrofes da atualidade. Estamos condenados,  mas para quando será o fim e de que forma? Talvez a gente vá morrendo aos poucos, diminuindo progressivamente como espécie até deixar o topo da cadeia alimentar. Mas duvido. Acho que nosso destino está selado e nosso asteroide exterminador já está à caminho. Então fico aqui pensando, pensando...  E resolvo que se em último caso meus dias estiverem contados,  optarei pelo sossego e calma de quem sabe o que quer: Vou comprar um pacote de cigarros e vou  fumá-lo inteiro! Saboreando cada baforada. Como costuma dizer o Miguel, também  ex-fumante, cigarro não é ruim. Cigarro é muito gostoso. Por isso é um vício.  Por isso é para sempre difícil conviver com a falta.  Mas em caso de emergência, quebro o vidro sem dó.

domingo, 27 de setembro de 2009

Desmanche

Faz um ano, levei a sério a decisão de parar de fumar. Com ajuda de medicação, muita disciplina e força de vontade, fui diminuindo, diminuindo até parar por completo.
Usei todas as receitas que as pessoas que não fumam e as que pararam de fumar me aconselharam.
Intimamente sentia que era importante manter as mãos ocupadas, já que, se estava distraída com alguma coisa manual, o cigarro queimava brochando no cinzeiro.
Comecei a escrever, voltei às tintas, aprendi a fazer mosaico e o melhor de todos os hábitos, resolvi fazer croché. Já tinha aprendido alguma coisa, nem sei quando e nem sei com quem. Sou naturalmente curiosa e quero experimentar mesmo que seja para deixar de lado em pouco tempo. Mas como frequentemente acontece, depois de alguns meses, acabo novamente interessada e em um patamar mais alto e mais experiente, como se subisse por uma escada helicoidal, experimento de novo.
"- Como você sabe que está na hora de fazer a trancinha?"
Ângela parou de trabalhar, olhou-me por cima dos óculos e disse: Você tem que contar, ?
Contar as carreiras? Desisti. Como poderia viajar meus pensamentos tendo que contar os pontos? Ah, nem...
E de uma outra vez:
"- Como faço este quadradinho? "
E a Martha: "- Faça uma trancinha de três pontos, dê uma laçada, faça outra trancinha."
"-Mas olha, não deu certo, está torto!"
"-Então, desmanche! Comece de novo."
Arrepiei. Desmanchar??? Ah, não, não vou desmanchar.
Muitas tentativas e erros depois, olhei desanimada para a pilha de pedacinhos de croché sobre minha mesinha. Com raiva, peguei todos e joguei no lixo.
Tinha feito um tapete simpático mas enrugado e olhei para ele com pesar. Não posso jogar tanta linha fora, é até pecado.
Peguei o tapete e estoicamente desmanchei.
Nada poderia ter sido tão restaurador.
A bolota de linha pedia para ser extinta. Precisei usá-la e desta vez, caprichei.
Fiz um outro tapete. Menor, mas menos enrugado.
Ok, vou desmanchar de novo!
Agora, já posso!

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Uma bolsa triste

Chove no paraíso tropical. Faz frio também. O gato e eu esperamos a chuva acabar de chover. Olhamos pela janela, as mãos no queixo, os cotovelos no parapeito. Enquanto isso caraminholas brotam, emergem, do fundo falso da minha bolsa. Olho para dentro e o espaço vazio está cheio de pequenos pulgões e traças. Alguns vermezinhos brancos e molengas deslizam entre fios de algodão. Alcanço algo macio e descubro que é um bem- casado esquecido depois de um casamento bêbado. Uma mancha escura com cheiro de chocolate lembra-me que comprei toblerones na última viagem. Um pedaço de fita do senhor do Bonfim era o desejo de ter algo que despedaçou. Um batom vermelho meio torto, salpicado de fumo de cigarros amassados pela pressa, também estão lá. (Só as pessoas que já carregaram maço de cigarro e batom sem tampa na bolsa conhecem essa imagem.) Ahn, também encontro uma lente gelatinosa da minha filha, ressecada e opaca. E uns pelos de gato amarelo, muito antigos, um gato que já morreu...
Cá entre nós, ainda bem que este fundo era falso.
Vou deixar isso pra lá e sair pra comprar uma bolsa nova, com cheiro de novidades.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Nebulosas

Vamos lá. O tempo passou depressa e eu nada fiz durante esses dias. Admito que o que me faltava era alcool e nicotina. Pronto...está feito.
Depois dessa viagem, eu posso dizer que é improvável o que desejo tanto e só falta despencar da escada e quebrar uns ossos, para tornar a fantasia real.
Vim procurar sossego, mas onde? No sono do gato. No ronco do cachorro. Na campainha que não toca. Na luz de segurança que não funciona.
Ok, hoje acabou, vamos todos dormir. Alguém aí, por favor, apague a luz.