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quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Sabiá

Estarão todos surdos?
Minha querida, estarão todos ouvindo e fingem?
Lá no fundo, o melhor é cantar e contar para você e com você.
Solidão é um canto, um pouco de paz, vasculhe lá dentro e encontre uma nova música, um velho amigo, alguém para dividir um doce.
Lá dentro, bem lá no fundo, somos nossos  próprios ouvintes, ternos e fiéis.
Mesmo que esteja longe, você pode falar com a gente, deixe-se ouvir, deixe fluir.
A memória é uma companhia tão agradável, escolha uma lembrança, leve-a para passear com você pela casa, dance com a lembrança e eventualmente empurre para debaixo do tapete, a hipocrisia e a falta de amor.
Queria contar histórias engraçadas para animar seu dia, falta-me a destreza com a saudade para lembrar e dar risadas.
Um jovem sabiá ensaia, vem cantar aqui seu canto pobre, é ainda tão novo...
Mas nós podemos cantar com força, eu lembro de cantarmos afinadas e fortes, vamos transformar este sabiá curioso e jovem naquela canção tão bela que haveremos de ouvir.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Ordem e desordem

Estou lendo "O andar do bêbado", do Leonard Mlodinow.
Também estou organizando por ordem alfabética, a partir do sobrenome do autor, meus livros da biblioteca de aquisições recentes que fica no quarto. São  livros dos últimos dois anos; e são muitos.
Em ordem alfabética, as outras ordens se perderam. . Depois de ajeitados nas prateleiras, senti a força do caos. Ali não há padrões. Cada livro tem um tamanho, uma espessura, cores distintas... eu quase não gosto...
Fiz uma lista desses livros no Excel e agora encontra-se bem depressa qualquer um  que esteja lá.
Descubro que alguns são "estrangeiros", vindos da biblioteca geral que temos no sótão, com mais de quinhentos exemplares. São velhos, cheiram a mofo, têm traças... São aqueles que a memória resgatou e que foram lidos mais uma vez.
Deve ser bom ser lido outra vez.
Mesmo que isso signifique ser Fernando Pessoa e estar ao lado de um tal de Pereira.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Desejos

O meu maior desejo, o que eu mais queria mesmo era poder,  com 50 anos assistir a minha vida em DVD.
Se organizasse tudo, ou contratasse minha irmã especialista, teria uma coleção riquíssima, separada por tópicos:
romance, aventuras, os clássicos, didáticos... Sim, porque assistiria conforme minha disposição do momento.
Se precisasse de uma memória que escapa ou de uma data, se preciso ver de novo o quanto tenho sido amada, se tenho que  me convencer de que fiz o melhor possível.
Mas o melhor de tudo seria poder rever todas as pessoas que cruzaram minha vida e que muitas vezes, até sem perceber contribuíram para que eu tivesse esta natureza sensível e o olhar brilhante e vivo que agora vejo refletido no espelho.
E também poder compartilhar essas lembranças com todos os atores, figurantes e  cenários que me deram esta bagagem.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Positivo

Um dia, num post-it cor de rosa, estava escrito: o exame deu positivo.
A letra trêmula era da Dona Lourdes, a faxineira, que antes de sair deixou este recado, sem saber do que se tratava.
Havia um número de telefone. Eu liguei; e depois de ler, ouvi. Seu exame deu positivo.
Queria compartilhar mas tinha medo. Depois perdi o recato e espalhei a novidade:
Chegou minha vez, estou positiva!
Desde então, espero e diariamente me preparo para ver e brotar e ter e ver nascer a minha boa ideia.

Papéis

Dúvida atroz. O tempo alterna momentos de lucidez azul e solidão cinzenta. Quando vejo a luz-penumbra, decido: vou andar de bicicleta. Em seguida sinto um vento frio e barulhento e tudo são sombras.
Calculo o tempo que perdi nestes pensamentos melancólicos, quantas vezes mais o tempo vai oscilar assim, sem cumprir seu compromisso de ser verão.
Espero pelo Apocalipse, que se não tem data marcada pode ser a qualquer hora.
Sinto os cheiros mais intensos e meu nariz investiga com desânimo, que há muita comida deteriorada nas prateleiras da minha memória.
Mesmo assim, decido salvar alguns dos objetos cobertos de pó e reminiscências.
Depois de limpar, escovar e classificar, poderei usá-los como peso de papel, quantos papéis.
Já fui uma bruxa, um alfinete de cabeça grande, Romeu, o pai Tomás, Joana D'arc, o Gato de Botas.
Observo que preferi papéis de essência masculina, para expor nos personagens a força que pretendo em mim.
Distraída em representar, assimilo a couraça e escondo em uma redoma de ferro, meu coração sensível.