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terça-feira, 24 de abril de 2012

Espinho

Subiu na bicicleta e começou a pedalar. Um ruído estranho, arranhado, de lata tornou o passeio impossível. Viu que o pneu traseiro estava murcho. Ficou muito triste.
- Pai, estraguei a bicicleta! Estou muito pesada para ela.
Já estava na fase de usar somente uma rodinha auxiliar.
Então o pai explicou:
- Acontece mesmo com todas as bicicletas. É preciso chamar um - como poderia dizer - consertador de bicicletas que vai trocar a câmara, uma espécie de boia que fica dentro do pneu.
Sua infelicidade era palpável em torno dela.
Por que sentia, lá no fundo que destruía o que mais amava.
O consertador trocou a câmara e disse assim:
- Era um espinho, agora está tudo bem.
Pedalou um pouco na garagem, mais calma e conformada. Não era uma rosa.
Já era o momento de tirar a segunda rodinha.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Normalidade

Guardei as bicicletas no quartinho de guardar, somente a minha ficou aqui na garagem. Também guardei os enfeites de Natal, dois dias antes do dia de Reis. Embalei os travesseiros novos, lavamos as toalhas de piscina e as roupas de cama dos hóspedes.
Só ontem quando minha última visita foi-se embora reparei na decoração de Natal do condomínio.
Aquelas luzes não brilhavam mais que meu interior, cheio de alegria e de felicidade.
Nas alegrias, gritei e bebi com todas as minhas forças e rouca, espantei os demônios da solidão naqueles momentos tão compartilhados.
Na felicidade, aquela que vai convivendo placidamente conosco durante o tempo que dura, estive serena e realizada.
Agora tudo volta ao normal e a minha bicicleta espera por mim para irmos à praia, sozinhas para ver o mar.
Volto a escrever e a revisar meus textos com a dedicação de quem deve fazer o melhor possível.
Minha geladeira voltou a ser espaço para verduras e frutas, não há mais sorvetes e nem pavês ou queijos gordos.
As cervejas também acabaram, olha o mundo de novo se repetindo.
Acima de tudo acredito nesse repetir-se.
Porque somente a tolerância e a empatia tornam viver  mais confortável.
E passar pelos mesmos caminhos, reconhecendo suas pedras e seus tropeços nos torna mais fortes e capazes.
Vamos descobrindo o que há de novo nas entrelinhas.
Depois de guardar a nostalgia, é de novidades que precisamos.
Vamos lá Ano Novo, mostre sua cara!

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Jararaca

-Você está com medo?
-Medo? Não e você?
-Não tenho medo de nada, disse balançando a cabeça.
-Nem de cobra?
-Cobra? ...só um pouco.
-As vezes aparecem Jararacas por aqui...
-Onde???
-Neste mato em volta dos condomínios. Ouvi dizerem que de tempos em tempos aparece alguém picado de Jararaca lá no "Copador".
-Para de brincadeira, vai.
O João e o Paulo estavam em suas bicicletas. O Paulo era muito pequeno e não alcançava o selim. Pedalava em pé sobre o quadro, gingando o corpo para os lados.
Ficaram em silêncio por algum tempo.
E o João - vamos apostar corrida até o semáforo!  Na velocidade, o Paulo mais parecia um macaquinho de circo.
No meio da disputa o João freou a bicicleta, derrapou, passou por cima do guidon  e foi se aboletar um metro à frente. Levantou-se num átimo e gritava: a jararaca, a jararaca!
O Paulo foi chegando devagar e caiu na risada.
É um galho de árvore, seu burro!
E foi acudir o amigo com o coração disparado.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Vento

Nossa estrelinha brilhou o dia todo hoje. Muito calor, poucas nuvens no céu azulíssimo. Perdoem se falo tanto do céu e do sol. Não me canso de admirar, enche minha alma. Mas como ia dizendo, no meio da tarde a brisa quente foi encorpando, encorpando, agitou-se, difícil até andar de bicicleta. Pensei que fosse acabar em um vôo rente ao chão mas nem por isso menos emocionante. Na volta, depois de alimentar o cachorro e beber um litro de água, senti uma inquietação; é que o vento às vezes  insano  fazia pausas...tudo muito parado, uma quietude de deserto. E de novo o vento e eu sozinha aqui neste casarão... Anoiteceu, tem uma lua... e eu só escuto o vento prender a respiração...e começa a soprar... Acho que vou trazer o cachorro para aguardar comigo aqui no sofá. Somos só nós dois, as cigarras chamando chuva e o vento que enche o peito de ar e segura! 

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Papéis

Dúvida atroz. O tempo alterna momentos de lucidez azul e solidão cinzenta. Quando vejo a luz-penumbra, decido: vou andar de bicicleta. Em seguida sinto um vento frio e barulhento e tudo são sombras.
Calculo o tempo que perdi nestes pensamentos melancólicos, quantas vezes mais o tempo vai oscilar assim, sem cumprir seu compromisso de ser verão.
Espero pelo Apocalipse, que se não tem data marcada pode ser a qualquer hora.
Sinto os cheiros mais intensos e meu nariz investiga com desânimo, que há muita comida deteriorada nas prateleiras da minha memória.
Mesmo assim, decido salvar alguns dos objetos cobertos de pó e reminiscências.
Depois de limpar, escovar e classificar, poderei usá-los como peso de papel, quantos papéis.
Já fui uma bruxa, um alfinete de cabeça grande, Romeu, o pai Tomás, Joana D'arc, o Gato de Botas.
Observo que preferi papéis de essência masculina, para expor nos personagens a força que pretendo em mim.
Distraída em representar, assimilo a couraça e escondo em uma redoma de ferro, meu coração sensível.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Voltar a ser

Tenho esperanças de voltar a ser. No piano, vários papéis empilhados, causam uma impressão de desleixo. Contas a pagar. Quando eu voltar a ser, as contas não mais atrasarão.
Sobre o mármore na cozinha, umas frutas esperam para serem lavadas e empilhadas na fruteira. Falta de tempo, falta de ânimo. Quando eu voltar a ser, vou comer todas as frutas que comprar.
Os vidros das janelas estão sujos, choveu e choveu e os vidros estão muito sujos. Vai chover de novo, mas tenho que me preparar para limpá-los. Vidros sujos escurecem as sombras e as penumbras.
O cão se coça no jardim, curtindo o prazer da coceirinha. Preciso banhar o cão e talvez o gato. Acho que posso deixar para amanhã, mas amanhã sem falta, se não chover de novo.
As malas estão por desfazer, roupas sujas, roupas usadas, uns tênis, coisas de toucador e eu sei, em algum cantinho está um bombom Garoto.
No quarto de quem mora fora, tudo está em ordem. A ausência organiza. O silêncio limpa.
Vou varrer a casa e depois trocar as roupas de cama, mas antes preciso falar com a Beth sobre as aulas de ginástica. Se ela puder vir, convido para um chá com bombas de chocolate. A Beth nem vai reparar, talvez me ajude a reparar tudo, talvez faça um curativo no meu machucado.
Preciso comprar pão, vou de bicicleta, ou melhor vou pedir ao meu menino que busque o pão, de bicicleta. Lá fora, o sol arde, aqui está confortável por causa do ar, não vou sair, vou esperar que alguém vá e compre, vou deitar um pouquinho, minha cabeça dói.
Amanhã, quando acordar, estarei menos ferida, quem sabe amanhã mesmo, volto a ser.

domingo, 21 de junho de 2009

Queda

Caí da bicicleta...Estava na melhor parte do percurso, um descida ventosa e meu boné voou. Frenei profundamente. A bicicleta empinou feito um cavalo selvagem. A bicicleta, meu ipod, meu polar e eu estamos todos esfolados. De todos, só eu cicatrizo, regenero. Ainda bem!

terça-feira, 16 de junho de 2009

Pranchas e guarda-chuvas


O gingado característico dos meninos das praias deve ter a ver com carregar pranchas de surfe.
Nunca participei de uma aula de surfe mas os professores devem instruir sobre como caminhar na praia, andar de bicicleta, tomar uma água de coco sem "pranchear" as pessoas em volta. Aquilo é uma arma. Os meninos carregam a prancha na horizontal que forma um T com seus corpos esguios. Volteiam pra lá e pra cá e todo mundo parece sair incólume. Deve haver um segredo...
Eu sempre tive medo e só de pensar que uma prancha pode me atingir quando estou pegando um jacaré, sinto um frio no estômago e quero voltar para a areia. Ou para o calçadão que é definitivamente o meu lugar.
Em São Paulo, não há praia, mas há chuva. Muita chuva. E lá meu maior problema são os guarda-chuvas... Avenida Paulista, chuvarada de fim de tarde, todo mundo saindo do trabalho, todos armados com seus guarda-chuvas abertos. Como sou ligeiramente mais alta que a média das pessoas, as malditas pontas de guarda-chuvas ficam bem na altura dos meus olhos. Assim, se estou sem o meu, fecho os olhos e saio tateando as pontas e me esquivando. Quando estou com a sombrinha aberta, uso meio inclinada, para me proteger das pontas muito mais do que dos pingos de chuva.
Saudade das minas gerais...

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Tralha...

Cada dia que passa, agrego coisas novas a minha tralha de ir correr...
No princípio era eu, de tênis comum, camisetinha básica, um short..
Precisei de um tênis que tivesse amortecimento, para não estragar meus já envelhecidos joelhos.
Daí precisei de uma garrafinha de água, senão depois de 10 minutos não consigo nem respirar.
Fiz um suporte de crochê para prender a garrafinha na cintura e poder andar com as mãos livres. Aliás, fiz vários, até conseguir fazer um realmente eficaz.
Para amenizar as rugas, óculos escuros. Para diminuir os efeitos negativos do sol, boné e muito protetor solar. Pelo menos o protetor passo em casa mesmo, antes de sair, a não ser que eu esqueça... normal... Aprendo a lição torrando...
É sempre bom levar um troco, caso tenha uma súbita vontade. Nunca usei, mas meu suporte de crochê tem um espaço especial para este troquinho. E também tem espaço para dois ou tres lenços de papel, porque meu nariz escorre sempre que termino a corrida e começo a caminhar em direção ao carro. É, vou de carro até a padaria porque depois já engato a hora de academia na Contours. Recebi instruções da minha professora : Se vou correr uma hora e depois vou pra academia, preciso comer alguma coisa entre uma e outra... Pois é... levo uma bananinha...
Em um dia muito feliz, ganhei um polar. Uma beleza. Agora controlo tudo, adoro essa sensação.
Já saio de casa com ele. Mas às vezes, esqueço o relógio e fico com aquela faixa sem sentido, me apertando a boca do estômago até voltar pro carro. Ou, esqueço a faixa. Ódiooo!
Num outro dia muito feliz, mais recente, ganhei um Ipodizinho delícia, tratei de encher de músicas e uso sempre nas corridas e nas pedaladas. O Ipod é do tamanho de uma pen drive e os fones de ouvidos são bastante delicados. Hoje aconteceu de eu levar os fones...mas esqueci o Ipod...
Bem, acho que preciso exercitar meu cérebro. Mas tenho a certeza de que esqueci de alguma coisa...