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segunda-feira, 11 de abril de 2011

Volte a viver

Que bom que voce voltou! Sentia falta de uma alma feminina. Durante tantos anos convivemos, voce, eu  e as gatas.
Andei melancólica, sabe?  Senti o abandono, estou ainda  machucada.
Por que entregou suas chaves? Por que  foi embora?
Ontem, quando abriu a porta e entrou conferindo as diferenças foi que compreendi porque os meninos estiveram tão agitados!
Agora que está de volta, abra minhas janelas; andaram  fechadas  na maior parte do tempo e você sabe como  adoro o vento. Deixe-me bater as portas e sacudir as vidraças, esta sou eu.
Na cozinha, falta uma porta da pia, parece-me que estou sem um dente, pode providenciar?
E arranje um bom defumador, espalhe seu bons fluidos, volte a viver aqui plenamente.
Volte a viver.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Frigidaire

Tenho uma tendência a me desfazer sem traumas de objetos que perderam a função. Entretanto alguns ficaram grudados, um imprint, uma tatuagem nos sentidos. Marcaram época, são de outra década e não quero me desfazer deles: Uma geladeira side by side Frigidaire, uma das primeiras que chegaram em São Paulo depois que as importações foram liberadas, lembram? Era um mimo, enorme para minha pequena cozinha, que nem tinha um ponto de água para que o dispenser funcionasse. Mas a previsão era de que nossa casa própria ficasse pronta em um ano e lá teríamos espaço e ponto de água para aquela beldade.  Com a reviravolta da nossa vida, viemos para o Rio e a geladeira nos acompanhou, mas o nicho para a geladeira na casa que alugamos era pequeno e ela ficou lá na área de serviço, guardando os congelados. Depois de dez anos mudamos definitivamente e um dos detalhes que mais me empolgou quando vim conhecer a casa era o fato de a proprietária ter uma geladeira side by side exatamente igual a minha, com tudo funcionando.
Quando nos instalamos a geladeira passou a funcionar a todo vapor, mas lá se iam uns 17 anos... As borrachas das caixetas foram trocadas três vezes, sendo que em uma delas a Renata fez o favor de comprá-las para mim e trazê-las em sua bagagem, em geral já bastante generosa. Foi ótimo porque o encaixe era perfeito!
Atualmente ela está um pouco senil e ultrapassada mesmo... Não é frost free, não é ecológica. O motor do dispenser de água parou de funcionar. Não há um único técnico em todo o Rio de Janeiro que possa dar jeito nisso! Ninguém quer por a mão na madame...
Ainda vou pelejar mais um pouco. Afinal, assim como o Felipe - o gato - e a Explorer , essa frigidaire faz parte da história de nossas vidas.

terça-feira, 30 de março de 2010

Centrista

Quando era menina havia em casa uma entidade principesca: o telefone. Era preso à parede da copa e tinha uma manivela que girávamos para falar com outra entidade, essa mórbida! A centrista!  Ela atendia ao chamado com morosidade e tédio, era sempre desagradável, tinha uma voz irritante e eu tinha medo dela. Sempre imaginava que não ia acertar o número, ou que ia gaguejar, ai, eu quase chorava.
Lá em casa o telefone era o centro do mundo. Sempre que tocava, muitos iam correndo atender, mesmo sem estar esperando uma chamada. Éramos barulhentos e alegres.
Visitei muitas famílias e nunca vi a mesma cena. Em geral o telefone tocava várias vezes antes de reclamarem: - "alguém atende este telefone, pelo amor de Deus" - sem sequer sairem do lugar.
Lá em casa se as ligações aconteciam durante uma refeição (que eram seis, pelo menos) todos participavam indiretamente das conversas, sem maldade, apenas porque interagíamos e estávamos tão próximos.
Quem estava ao telefone e queria privacidade, podia no máximo ficar de costas para a mesa ou girar para a parede do lado da cozinha e dividir a conversa com a empregada da vez, bem pior...
Atualmente minha filha sente a vibração do celular, levanta, pede licença e vai para qualquer lugar da casa atender e resolver seus assuntos. Nada de centrista. Nada de conversas compartilhadas.
Não faz tanto tempo assim, andar falando e gesticulando sozinho pelas ruas era caso de hospício.
Agora muitos caminham, correm, pedalam pela ciclovia falando pelos cotovelos; ninguém liga; mas eu procuro sempre o quase imperceptível fiozinho que sai  da orelha e se perde dentro da roupa de fitness.
Gosto muito desta mobilidade. De poder estar colocando a roupa na máquina e proseando com a mamãe ao mesmo tempo. De poder saber notícias do mundo, de dentro do carro, durante uma viagem.
Mas o melhor de tudo mesmo é não mais depender de uma tal de centrista!

terça-feira, 2 de março de 2010

Goteiras!

Sempre considerei goteiras um problema social. Imaginava que quando estivesse em melhor situação financeira não sofreria com elas.
As goteiras aconteciam com frequência nas casas da minha vida no interior. As chuvas pesadas, o vento enlouquecido, mangas despencando sobre o telhado, telhas quebradas! Nada mais natural que goteiras. Fazia parte colocar panelas para aparar os pingos ou jorros dependendo da intensidade do evento. Um pano em volta da bacia também ajudava com os respingos. Muitas vezes era preciso deslocar a cama para não acordar sob o efeito da tortura do pingo sobre a cabeça. Quantas vezes vi lâmpadas acesas com água dentro, pela metade, como pode? Para mim era o próprio coquetel Molotov. Dava medo.
Depois da estação das águas, lá pelo fim de Março a chuva dava um tempo, os telhados secavam e era possível trocar as telhas quebradas; os quartos com o assoalho manchado iam ficando menos úmidos.
Puxa, tinha sido um pesadelo, bastava balançar a cabeça e esquecer.
Até começar tudo outra vez.
Depois que me casei, passei muitos anos livre delas - morava no sexto andar de um prédio de dez e o que torturava era a infiltração pelo cano corrompido do vizinho de cima.
Apesar de às vezes o vasamento ser pelos canos do esgoto, era menos humilhante.
Isso mesmo, goteiras são humilhantes! Acaba com a auto-estima até do pavão.
E hoje, que tenho um marido adorável, uma filha queridíssima e uma casa linda, cá estou de novo às voltas com as malditas.
Chove no quarto, chove na sala, chove no banheiro, no lavabo, no sótão.
O som dos pingos que muda de tom de acordo com o preenchimento da vasilha - de metálico e raso passa a gordo e profundo - é quase tão ruim quanto o som dos primeiros pingos de goteira no sinteco. Som seco e definitivo. Tec.....tec.....tec... Não há dúvidas. Goteiras!
Começo a compreender que elas são gotas divinas, uma espécie de remédio celeste para tratar a arrogância que às vezes adoece o coração.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Vigilante

Em um fim de semana, Miguel e eu fomos ao cinema no fim da tarde e depois ficamos passeando pelo shopping.
Já era noite quando chegamos em casa e nos demos conta de que não tínhamos levado a chave do portão.
Enquanto pensávamos em chamar um chaveiro e todas as implicações incluídas, resolvi tentar pular o muro que tem pelo menos uns dois metros. Usei nossa lixeira enorme encostada no paredão, o Miguel fez uma escadinha com as mãos, eu tomei impulso, subi na lixeira e olhei para dentro do jardim.
Nossa, era muito alto. Achei que não conseguiria impulsionar o corpo para cima mas resolvi tentar já que ando malhando bastante. Não é que consegui de primeira?
Mas a parte mais difícil era saber se o Haus sabia quem estava ali. Estávamos bastante seguros, ele sabe que estamos chegando quando ainda estamos na esquina, mas mesmo assim deu medo.
"-Haus?  Haus???"
E lá veio o bezerrão, língua rosa pra fora e aquele sorrisão cheio de  dentes. Quando me viu de cavalinho no muro virou a cabeçorra de lado, como fazem os cachorros quando não compreendem.
Deve ter pensado no que eu estava fazendo no lugar onde ficam as presas? Gatos e Gambás?
Conversei bastante com ele que mantinha a testa franzida até me lembrar que o melhor sentido do cachorro é o faro.
Joguei meus sapatos para ele cheirar e ele gostou da brincadeira e já ia indo carregando o troféu pro canil.
E eu, bem depressa pulei o muro e no jardim já fui chamando:
-Haus, aqui Haus!!
Decidimos, Miguel e eu, colocar uma chave do portão junto com a chave do carro. 



quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Lamentação

As cigarras lamentam.
Clamam pela chuva, por um pouco de sombra, por um eclipse do sol.
Estão há quase um mês cantando roucas, mas hoje é pura lamentação.
Muita vida espreita debaixo da terra seca. Querem explodir, mas aguardam.
Não posso prometer que chova hoje. Mas estarei cantando aqui dentro de casa, chamando uma chuva mansa, que seja abençoada por Deus e seus escudeiros.

sábado, 7 de novembro de 2009

Apagão

As luzes do bairro se apagaram quando eu estava a dois quarteirões de casa. Acabei de chegar, já pensando onde teria colocado as velas; e antes de abrir o portão, chamei o cachorro para ele saber também pela voz, que somos amigos.
Quando saí de casa, ainda estava anoitecendo, mas depois de uma hora, era puro breu. Quando consegui colocar a chave na fechadura e abri a porta de entrada, fui tateando, procurando o móvel onde costumo guardar velas, clipes, tesourinhas, fósforos. Achei as velas e nada dos fósforos. Fui seguindo pelas paredes em direção à cozinha, arregalando e piscando os olhos, um pouco tonta e aturdida.
Chutei a perna da mesa da sala, (quem mudou a posição dessa mesa sem me avisar?), cheguei depressa demais ao pequeno corredor e entrei na cozinha onde o pote de água do gato passou na minha frente e molhou meu pé. Finalmente cheguei ao fogão, acendi uma das bocas no automático, vi as horas no relógio do micro ondas e morrendo de tédio fui buscar a lanterna que fica no criado mudo do Miguel. Com a lanterna, as duas velas e uma cerveja que escolhi na geladeira, voltei para a sala, para o meu canto do sofá e esperei. Aqui dentro, eu e o gato, no quintal o cachorro e o resto do mundo, na rua.
Um calor absurdo - sempre ocorrem apagões no verão porque, é lógico, todo mundo liga o ar condicionado ao mesmo tempo!
Sem croche, sem livro, sem rádio, sem TV, sem Internet, sem Miguel, sem Helena, fui ficando comigo, me engambelando como diria a mamãe e quando vi no relógio do vídeo que eram dez horas, resolvi ir para a cama. Apaguei as velas, fui com a lanterna para o quarto, tomei um indutor de sono e desanimada com o calor, tive a ideia de deixar o ventilador ligado, caso a luz voltasse enquanto eu dormia. Quando apertei o interruptor a máquina começou a soprar. Oba, a luz voltou. Pena que tomei meu remédio para dormir...
Mas, espere aí... como acendi a vela com o acendedor automático elétrico, quando cheguei em casa? E a luz da geladeira quando escolhi uma cerveja? E os relógios???
Pois é...a luz voltou logo que cheguei e eu não tinha percebido.
A solidão e a saudade, mesmo compartilhada com os bichos, me deixam sem energia.
Além disso, miolos cozidos ao calor não funcionam bem.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Gente querida

Adoro receber gente querida aqui em casa.
Dias antes da chegada, já estou aflita, quero ser a fada-madrinha, quero que meus queridos se sintam especialmente felizes.
É certo que já hospedei pessoas amigas que depois se transformaram. Cheguei a cogitar se as mimei demais e descobriram que sou tola.
É uma pena porque, quando desisto de alguém, é para nunca mais, é para sempre.
Um amigo promissor se transformou, de um patinho novo, em um pato feio, estúpido, canalha.
Outra roeu a corda, libertou o leão e fugiu pela escada.
Relendo vejo que espontâneamente fui pontuando meu relato com lembranças de contos de fadas.
É que estes contos me impressionaram muito e sacodem ainda aqui dentro, sempre que sou traída e sempre que sou muito amada.
Na casa dos meus pais havia uma belíssima coleção de contos dos irmãos Grim. A coleção era acessível para qualquer um que se interessasse, ficava em uma estante sempre aberta, no hall de passagem, bastava colher, como uma fruta, do pé.
Passei muitas horas sozinha, lendo e relendo por puro prazer e aprendi muito com rãs e sapos que substituíam palavras, aprendi a calar na dúvida; o silêncio trata.
Quando vou receber um hóspede querido, quero que ele tenha disponível os livros de que gosta, o hobbie que pratica, o esporte que prefere, as comidinhas que dão prazer.
Quero cães e gatos adormecendo juntos e tranquilos, quero a maciez dos colchões da princesa da ervilhas, quero poder consolar completamente, preencher todos os cantinhos tristes ou difíceis.
Preciso que comam bem, preciso de boas risadas, gargalhadas também, preciso que chorem de rir. E também preciso de que sejam verdadeiros quando se emocionarem.
Porque quando forem embora, ficarão felizes e gratos por terem vindo, cheios de boas lembranças. Vão querer voltar.
E esta é a parte de que eu mais gosto.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Menos...

Certa vez comprei um banco, bem pequenininho. Posso colocar os pés enquanto descanso na poltrona. Uso, as vezes como mesinha para colocar meu suco. Há alguns dias fiz um paninho de croché para cobri-lo. Assim coberto, perdeu a identidade.
Às vezes usamos roupagens que não nos favorece. Uma blusa bege em uma pessoa bege, amarela a composição. Acho também que as cores que vestimos nos representam, principalmente quando vestimos uma roupa com pressa, com os minutos contados para pegar o elevador. Quando saio de casa vestida para correr, estou correndo desde que calço os tênis apropriados e bons. Volto da praia e tomo um banho quentinho antes de almoçar. Quase sempre visto um vestidinho velho, escrevo, tomo um chá. Esta parte do dia, com todos os desejos saciados, endorfinas fluindo, sabe a recordações e reminiscências. É o momento de reflexão, para arrumar as malas e identificar o que irá dentro dela. Sempre levo roupas de frio e muitas roupas de verão. Esta é minha expectativa mesmo que eu vá pro Himalaia.
Algumas pessoas tem carácter colorido e sabem misturar estampas, são elegantes e poderosas. Mesmo seus vestidinhos velhos tem uma estrutura aquecida, "vocês aí, sabem quem eu fui?"
Os cachecóis enfeitam melhor, os casacos caem bem, a roupinha de dormir parece um sonho.
Mas, deixa estar. Sou nova ainda, vou aprender a servir em todo tipo de roupa. Vou começar tirando o croché do banquinho. O menos em geral vale mais.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Descupinizador

Esteve aqui em casa o desratizador, descupinizador e des-outros-bichos-que-não-me-lembro. Mandei fazer o serviço completo. Arrasta móveis daqui, empurra móveis pra lá e meu roda-pé arrancou-se de tanto cupim. Convivemos e sobrevivemos em pé de igualdade com tantos outros seres... a solidão é mera impressão. O rapaz, de grandes bigodes, (por que eles sempre usam bigodes?), sapatos barulhentos e aquela haste comprida de onde saem todos os venenos, arrasou.
O Haus preso no canil, quando viu aquilo, uivou, alucinado. O Felipe, escafedeu-se. Casa toda fumigada, o maior pampeiro, tratei de sair também, abandonei às traças, o navio.
Quando voltei algumas horas depois, já escurecia e as nódoas do veneno no chão não incomodavam tanto. O serviço tem garantia de 2 anos. Eu não tenho garantia nenhuma. Tomara que os descupinizadores cósmicos se esqueçam de mim.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Um rapaz bonito

Quando abri a porta do elevador no meu andar, percebi luzes e movimentos no apartamento até então vazio, ao lado do meu. Gostei de ter companhia e fiquei curiosa...quem será?
Fui cuidar do jantar e então ouvi um latido de filhote. Como sou veterinária, fiquei ainda mais interessada.
No dia seguinte encontrei com ele e seu cachorro. Deve ter uns trinta e cinco anos, bem feito de corpo, uma cara boa, um olhar fugidio...
Segurava pela coleira, um cão pastor, filhote bonito e agitado. Saiu com ele até o pátio do predio. Quando retornei, no fim da tarde, vi o estrago. As lindas plantinhas do jardim destruídas...
Depois de uma semana compreendi: - o rapaz é biruta. Não trabalha, fica o dia todo em casa e as vezes sai com o cachorro, ali para o pátio. Será que toma tarjas pretas? Será que alucina?
Mora sozinho, ninguém vem visitá-lo, não tem parentes?
Talvez eu me mude daqui...Não sei não. Estou com um mau pressentimento...

quarta-feira, 6 de maio de 2009

A rosa mais alta

Minha roseira-trepadeira espalhou-se muro acima e a rosa mais alta espia a rua lá fora.
Estava vendo fotos antigas da nossa casa, antes de comprarmos. É curioso como fomos fazendo pequenas modificações, aqui e ali um detalhe, hoje é outro o jardim que conta nossa história. E eu que achava que não havia nada a ser modificado, que tudo estava perfeito, quando nos mudamos...