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domingo, 25 de julho de 2010

Pontos de crochê

Escrevi para voce umas histórias feitas em pontos de crochê. Cada ponto é uma letra, cada desenho, uma palavra e cada carreira uma oração. Os parágrafos são as carreiras cheias, impermeáveis.
Escrevi pontuando, de maneira displicente e obstinada, espelho do meu pensamento, que é assim mesmo : uma contradição. Mas é que quando vem a ideia, escrevo do começo ao fim, quase que de uma vez, porque concluindo evito perder o fio. Na releitura poucas vezes  substituí  uma palavra, ou acentuei  uma proparoxítona esquecida. A displicência é meu jeito de ser, vou jogando e brincando com a vida, o capricho não é tão importante para mim como é a sinceridade. E voce bem sabe disso.
Usei  linha de algodão, que é bem macia e fica ainda melhor depois de lavada diversas vezes. Com o uso, as pontas vão se desfazendo, mas os textos não são lá nenhum pergaminho valioso. Fiz para o dia a dia, está mais para um caderno de menino hiperativo, que precisa ser passado a limpo.
Parece pouco para durar o ano todo... Mas voce vai ver que no avesso a  história é outra, e outros textos serão lidos se a página estiver de ponta-cabeça. ( Ponta-cabeça é tão paulistano, acho que prefiro o nosso "mineirismo" - de cabeça para baixo.)
São para usar na cozinha, para enxugar as mãos ou qualquer outra coisa mais pungente; e para pegar a travessa quente com sua refeição.
As entrelinhas ! Quase que me esqueço delas. Ali estão alguns tesouros. Vá procurá-los se estiver triste, se a saudade doer demais, se precisar de um amigo. Coloquei ali palavras de conforto e poesia; algumas piadas e as risadas para fazer coro com as suas; e também os mimos das nossas conversas tão boas enquanto estivemos juntas.
Mas isso tudo é só o começo. Fico por aqui, mas vou continuar pontuando meu crochê.
Mesmo que seja só uma forma de passar o tempo, até a próxima vez.

domingo, 4 de outubro de 2009

Mercedes

Ah, Mercedes, sua "negra" cabeleira e seu canto triste, assum preto argentino .
Ao ouvi-la cantar Violeta Parra, volto aos 17 anos e também agradeço à vida que tanto me há dado.
Na voz de Mercedes cantando Violeta, passei momentos profundos, de pura introspecção.
Foi a Renata, quem me mostrou a dupla Violeta-Mercedes.
A voz da Renata, era delicada e triste nesses versos tão bonitos. Ainda é.
Mercedes cantava forte, era densa, poderosa. Proibiram o seu canto e depois cantou no exílio.
Mas isso faz tanto tempo...
E hoje, de par em par a janela se abriu no céu para Mercedes entrar.
Que ela possa cantar agora com os querubins verdadeiros

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

A fonte

"Deixa-me, deixa-me fonte, dizia a flor a chorar, eu fui nascida no monte, não me leve para o mar." Este verso de Vicente de Carvalho, que aprendi e decorei quando era ainda menina, desde ontem não me sai da cabeça. Ocorre que me sinto assim, levada pela correnteza, eu e outras florezinhas.
Bonito e bucólico é o monte; e o mar também tem seus encantos. Mas é muito triste ter que partir. Quando penso na flor pálida, sendo levada assim de roldão, lembro-me da Renata, aquela de nós que sempre parte para poder voltar. Talvez viver julho fosse menos intenso se morássemos todos próximos, se nos víssemos sempre. O relevo acidentado dessas férias sempre machuca e dói quando vai acabando...
Outra poesia, esta do Gonçalves Dias, assim expressa a dor de separar-se: Debruçada nas águas de um regato, a flor dizia em vão à corrente, onde bela se mirava: "ai, não me deixes não". Comigo fica ou leva-me contigo, dos mares à amplidão... e assim vai mostrando, linda e tristemente que a roda viva é inexorável. Algumas flores querem ir, acompanhar as águas. Outras querem ficar, cansadas que estão de chegadas e partidas...e eu, entre uma flor e outra, sou das que preferem ficar aqui.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Passar o tempo

Esperava uma notícia boa e abri a revista revirando as páginas. Ali havia muito lixo, muita preocupação com o lixo do mundo, mas o que eu precisava mesmo era de uma notícia boa. Podia ser uma nota de rodapé, mas queria que fosse boa. No máximo, encontrei relatos de outras pessoas que também tem esperanças. Assim, fui ficando mais calma e repassei as páginas mais devagar, desta vez absorvendo informações melancólicas. Reparei em algumas fotos muito profissionais e lembrei-me da minha irmã que faz questão de enquadrar bem seus temas, em plena era digital. E isso é muito bom. Já que é para fazer, vamos fazer logo bem feito, assim temos menos para jogar fora, menos lixo.
Pensei num salão ao fim do carnaval, todo aquele confete e serpentina embolados, misturados a cacos de vidros e cerveja derramada. O carnaval já passou, mas voltará no próximo ano. O carnaval é minha atual esperança. Laçado assim à distancia de quase um ano, tenho lastro para ir me dividindo e me divertindo enquanto a vida e a banda passam lá fora.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Julho

Julho é um mês muito especial. Chance de encontrar todo mundo e falar e falar e falar.
Nem sempre dá certo, mas é a época do ano com as maiores probabilidades.
É quando a Renata vem, os pequenos estão em férias, a agitação das moléculas aumenta e todos preparam seu dó de peito para poder ser ouvido. Na casa da mamãe, o "bunker" da família, bebemos vinho e coca-cola, nos abraçamos muito, contamos novidades e repetimos velhas e boas histórias, que todo mundo sabe de cor, mas relembrar nos emociona e sempre acabamos alegremente renovados. Todo mundo fala de todo mundo e como isso é saudável! Reparamos em cada detalhe, as novas rugas, os quilos extras de um, os quilos a menos de outro, as novas cores e cortes de cabelo, e concluímos que a vida está um ano mais velha.
É bom envelhecermos todos juntos.
E lembrar das pessoas que há anos estão completas e que não mais envelhecem .