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quarta-feira, 24 de março de 2010

Ontem

Bem em frente ao mar, existe um país anônimo e envolto em brumas. Passei por ali em uma viagem sem rumo e vi pessoas curiosas, entretidas com  um jogo de tabuleiro, que não consegui decifrar.
As crianças brincavam de roda e havia fogueiras. A lenha crepitava e havia a luz do fogo e a névoa do inverno e o cheiro do assado, das batatas, do minho verde.
Bem depois do mar, depois dos mistérios do mar.
Pombos, corvos, gaivotas e o matraquear das maritacas.
Parece que foi ontem...

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Avidez

Fui ver o mar, precisava da imensidão.
Somente ela nos devolve a humildade e a consciência de ser o grão, o quase nada.
Ao olhar a opulência orgulhosa  e ávida das águas, chorei um pouco.
Lembrei-me de um navio que certa vez vi no horizonte e que em seguida perdeu-se.
Bobamente, fiquei com pena de mim, eu que tenho tanto a perder.
Um casal feliz, cheio de assunto, andava em ótimo ritmo na ciclovia e eu compreendi.
Eu tenho esta felicidade também. E muitas outras.
Não posso permitir que o medo espalhe suas tintas de polvo.
Minhas rosas vermelhas olham para mim, boquinhas abertas. Têm uma avidez serena.
A felicidade é verde, preciso aguar minhas plantas.
Só depois vou descansar um pouco.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Um castelo

Mamãe segurava  sua mão esquerda bem presa a dela e também carregava a irmã no outro braço.
Iam atravessar a avenida e chegar ao mar.
Às 8:00 hs era bom aproveitar o sol e a praia.
Na areia não gostava dos pequenos animaizinhos que apareciam dos buracos.
Queria uma areia sem sobressaltos, um mar mais doce, um sol menos brilhante e o vento sem embaraços.
Mas ali, naquela hora, tudo que podia fazer era uma construção um pouco torta com a areia que tinha umedecido com àgua do baldinho verde.
A irmã suspirou na esteira. Ela olhava os próprios dedinhos, encantada com a luz entre eles.
Mamãe estava de óculos, não podia saber para onde ela olhava.
- " Olha o meu castelo?"
-"Que beleza filhinha, quem vai morar nele?"
Ela não sabia. Virou um pouquinho a cabeça e pensava nas princesas que conhecia.
Mamãe perguntou se ela queria um picolé. Chupou o gelo-uva com força, até que ficasse totalmente branco.
Agora tinha o palitinho do picolé!
Com ele, pensou, vou poder construir um castelo muito mais bonito.


segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Cassiel

"- Ela insiste em dizer que comeu isso, aqui!! Mentira, ?"
Um casal gordinho passou por mim no calçadão e foi somente isso o que ouvi. Eles caminhavam bamboleantes, roupinhas básicas e confortáveis e iam indo, tagarelando.
Eu estava correndo, no sentido contrário, já bastante cansada depois de quarenta minutos.
Não chovia mais e o mar estava prateado pelo reflexo das nuvens pesadas. Tratei de me distrair imaginando que se eu fosse um dos anjos caídos do filme "Asas do Desejo", estaria ouvindo muitas outras conversas, outros sons e todos os pensamentos...

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

A fonte

"Deixa-me, deixa-me fonte, dizia a flor a chorar, eu fui nascida no monte, não me leve para o mar." Este verso de Vicente de Carvalho, que aprendi e decorei quando era ainda menina, desde ontem não me sai da cabeça. Ocorre que me sinto assim, levada pela correnteza, eu e outras florezinhas.
Bonito e bucólico é o monte; e o mar também tem seus encantos. Mas é muito triste ter que partir. Quando penso na flor pálida, sendo levada assim de roldão, lembro-me da Renata, aquela de nós que sempre parte para poder voltar. Talvez viver julho fosse menos intenso se morássemos todos próximos, se nos víssemos sempre. O relevo acidentado dessas férias sempre machuca e dói quando vai acabando...
Outra poesia, esta do Gonçalves Dias, assim expressa a dor de separar-se: Debruçada nas águas de um regato, a flor dizia em vão à corrente, onde bela se mirava: "ai, não me deixes não". Comigo fica ou leva-me contigo, dos mares à amplidão... e assim vai mostrando, linda e tristemente que a roda viva é inexorável. Algumas flores querem ir, acompanhar as águas. Outras querem ficar, cansadas que estão de chegadas e partidas...e eu, entre uma flor e outra, sou das que preferem ficar aqui.

terça-feira, 30 de junho de 2009

Noviças

Caminhando, quase chegando a um ponto de ônibus, vi descer da condução duas mocinhas de hábito. Elas caminhavam uns 5 metros a minha frente e eu podia ouvir os sons de uma conversa animada e risadinhas divertidas. Acertei meu passo com o delas, tentando manter a mesma distância. Só as via de costas, elas vestiam uma túnica rosa-perdido, amarrada na cintura por uma corda simpática; um véu marrom (ou seria melhor dizer castanho?) e umas sandalhinhas de dedo, bem simplesinhas. Eram tão femininas e delicadas dentro daquela roupa pesada... A túnica as cobria completamente, inclusive as mãos porque as mangas eram grandes demais para elas. O véu escuro, descia até o tornozelo, densa cabeleira com movimento amplo, animado também. Enquanto andavam eu só podia ver seus calcanhares rosados e fortes, recém-nascidos a cada passo. Cheguei mais perto, queria saber sobre o que falavam, até que senti meu rosto queimar de vergonha. Sosseguei e fui acompanhando a dupla, até que elas continuaram em frente, em direção ao mar, meninas do Rio que são; e eu virei à esquerda, seguindo meu caminho para casa.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Desenhos do mundo.

Uma linha tênue e ligeiramente curva desenha o horizonte, no mar.
Fui seguindo com o olhar este desenho até chegar a um navio que pontuava a linha.
Aquele montão de mar e um naviozinho interrompia a harmonia e se desenhava duramente em vermelho e branco.
Fiquei pensando em todas as linhas interrompidas na superfície do mar.
E fiquei muito triste.

terça-feira, 2 de junho de 2009

Para onde vamos?

Destroços no mar. Objetos flutuam, esperanças mergulham.
Neste dia frio, inverno tropical, capitulamos.
Vamos chorar um pouco e depois seguir adiante.
Moto contínuo do mundo.