Mostrando postagens com marcador ideias. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador ideias. Mostrar todas as postagens

sábado, 29 de janeiro de 2011

Tempo de massagem

Já tive um trabalho, um violão, um bebê para criar. Imaginava que o tempo passava tão depressa porque eu não tinha o tempo. Agora tenho. Está aqui preso em minhas mãos mas continua escapando, inexorável...

Ganhei de presente da minha Helena, uma massagem. Apesar de certo constragimento em ser tocada por alguém desconhecido, cheguei no spa e segui as instruções com um certo embaraço e hesitação. Depois fui relaxando e sentia músculos adormecidos despertarem. A medida em que liberava tensões ouvia várias ideias brotarem em ramas de dentro da cabeça e discutiam aos gritos tentando chamar minha atenção. Terminada a massagem, meu corpo agradecido pela benção, senti aflorar um choro.  Era inesperado e manso mas como me fez bem.

domingo, 8 de novembro de 2009

A ideia e a joia

A ideia e a joia perderam muito de seu vigor e brilho, depois de abolirem seu acento agudo.
A idéia, de tão iluminada, era por si suficiente para se começar a criar. Aquela lâmpada acesa com raiozinhos das revistas em quadrinhos dizia tudo. Agora, coitada, é um aglomerado de vogais em meio a um acidente de percurso, pobre d.
Sei que ainda posso usar a idéia por uns anos. Mas este acento, coroava!
E a joia? Puro zircônio. Pedra falsa. Nunca mais terá tanto valor.
Algumas palavras nem sentem falta do tônus muscular do acento.
Mas estas duas, palavra, ficaram bem tristonhas.

sábado, 10 de outubro de 2009

Itinerário

Saiu muito cedo, comprou um pãocomqueijo na esquina, pegou o ônibus ainda vazio e sentou-se próximo à janela.
O motorista ligara o limpador de para- brisas na maior velocidade.
(Preciso fazer as unhas) pensou, enquanto dobrava a barra molhada do jeans.
Dentro do coletivo aquecido, avaliava a mudança de sua vida naqueles meses.
Antes não saía e agora quase todos os dias atravessava a cidade para estar na loja.
Acabou cochilando e em uma freada barulhenta abriu os olhos e viu um dia nublado mas claríssimo pela reflexão da luz nas nuvens.
(Dias nublados assim deixam o coração inquieto; nossa, que nariz grande e cheio de cravos tem aquele homem; será que já passamos pelo Pão de Açúcar.)
Ficou prestando atenção para tentar identificar alguma coisa, mas tudo parecia diferente.
O ônibus já estivera lotado e aos poucos os passageiros iam diminuindo.
Ficou apreensiva quando a última passageira desceu; resolveu perguntar ao motorista quanto faltava para chegar à rua Bosque.
O motorista disse que estava quase chegando ao ponto final, a garagem; e que o próximo ônibus deste itinerário só sairia daí a uma hora. (Como faço para chegar na Barra Funda.) O motorista nem ouviu, tinha descido do onibus esfregando as mãos, queria um café.
(Como pude perder o ponto. E agora como faço para chegar.)
Contou o dinheiro, pensou em um táxi, mas não fazia a menor idéia de valor da corrida.
(Estou perdida.)
Foi caminhando até um ponto e ficou por ali, lendo os letreiros dos ônibus, desanimada na estiagem úmida.
Então entrou no primeiro coletivo que seguia para o Bom Retiro.

domingo, 26 de julho de 2009

Go with the flow

Seu olhar mono-ocular, intenso e inquieto é verde cor de mar, no inverno. Emoldurando esta mirada há um conjunto harmonioso e tranquilo de expressões que às vezes duvida, às vezes compreende. Quando o vejo dormir ao meu lado, recostado à janela do ônibus que nos leva ao fim da viagem, reparo nas narinas minúsculas de seu nariz bem moldado, uma arte. E ele ressona tranquilo, um fluxo de ar constante e cadenciado. Em geral atento, acompanha a conversa e sorri em momentos oportunos. Sim, estou aqui. Sim, eu compreendo. As vezes o vejo distraído, os pensamentos parecem flutuar como bolhas de sabão a sua frente e ele se diverte com elas. Quando chamo pelo seu nome, as bolhas estouram simultâneamente e ele se desculpa e pede: Fala outra vez? Sim, eu falo. Tantas vezes quantas forem necessárias, para ter sua atenção e seu riso que desarma mesmo os mais belicosos. Ele é de paz. E quando passeio com ele, quero acreditar que algumas pessoas consideram que ele é meu menino e eu fico encantada com essa ideia.

sábado, 13 de junho de 2009

Ouvir, verbo de transição

Tem gente que nunca ouve. Os ouvidos estão ocupados por fones de ouvido. Conversar, faz tempo, deixou de ser divertido, é enfadonho. Trocar ideias nem pensar, cada um na sua opinião.
Trocava cartas de amor, trocava figurinhas e às vezes trocava dinheiro. Agora mal troco bons dias.
Faz tempo, namorar era sentar juntinho no sofá da sala e trocar carinhos, beijos, juras.
Minha filha divide. Divide o namorado com os amigos, convida todo mundo para ver o sol se por e compartilha suas ideias e decepções com um monte de gente, no twitter.
Estou tentando acompanhar este vendaval.
Só espero que não haja problemas no meu pitot.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Dentro de mim...

A visita foi agendada para as catorze horas. O interfone tocou as duas e um. Atendi, abri a porta e lá fora o segurança esperava em sua bicicleta. Disse a ele que estava tudo bem e o tal moço entrou aqui em casa - garagem, porta de entrada, sala, corredor. Pediu um copo d'agua. Ligou para a firma para concluir o serviço. Ele estava dentro da minha cozinha... E eu olhei pro tênis dele e achei lindo. Subitamente, gelei. Podia ser qualquer um. Podia ser o ladrão, o bandido, o doido. Podia ser até o padre. Dei-me conta de que não tinha idéia de quem colocara aqui dentro... O moço foi embora e eu fechei a porta, tremendo.
A partir de hoje só se entra aqui se o cachorro estiver preso na corrente, bem em frente ao portão. Quem quiser tem que se submeter a passar por ele, abaixar a cabeça e não lhe olhar nos olhos.
É sim, uma ameaça.
Sim, meu cão é uma fera.