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segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

O nome dela é Helena

Houve uma vez um país muito grande e bonito demais, mas um tanto abandonado. Era tanta terra, tanta, eram sertões inteiros sem alma vivente a não ser as almazinhas dos bichinhos do agreste que comem pau, pedra, cactos e sobrevivem. Também era uma terra santa, dadivosa se bem tratada, farta se bem nutrida. Ali, vivendo entre os animais e o sol, entre os bicharocos e a terra batida,  à revelia de seu destino, crescia uma menininha.
O casal tinha vindo do sul, que maravilha! Visitavam tudo, olhavam cada renda da feira, compravam com parcimônia, bastava para eles encher os olhos.
Naquele dia  visitaram um sítio e foi quando a viram. Seus olhos se tocaram e se embaçaram. A pequenininha chegara vinda do terreiro das galinhas e segurava uma pena que passava pelo rosto, feliz com seu brinquedo. Veio para perto e tocou com a mãozinha suja o colo, o vestido da mulher marejada. E foi ficando, foi encostando de mansinho, ora nela, ora nele e os dois juntos não eram mais um casal completo. Levaram para o sul a menina dos calangos. Que foi com eles como se fosse natural, como se esperasse apenas e a vida toda, pelos pais que teria. 
Dizem que foi feitiço. 
Eu tenho minhas dúvidas. Acho que foi uma troca de bem querer. As vezes temos demais e só repartir alivia. As vezes temos de menos e a fome de amor nos faz mais sensíveis ao afeto que transborda pelo chão. 

sábado, 11 de setembro de 2010

Anjo

Abriu os olhos e ainda estava escuro.
Suspirou e virou-se de lado, daqui à pouco deve amanhecer.
Mas  cada vez que abria os olhos, o escuro zombava dela. É que o futuro zombava dela. Porque tinha que ser assim. No seu mundo tudo ocorria em pulsos. Os minutos se demoravam, se recusavam até que a tensão era grande demais e passava-se um quarto de hora em um átimo.
Percebia as diferenças de ser, sabia que a mancha cinzenta que tinha no braço era a maldade e não se conformava. Sempre que queria ser feliz e via a mancha, o riso cristalino se turvava.
Abriu os olhos e sentiu que era dia. Nunca conseguira abrir os olhos no instante exato do amanhecer.
Mas não tinha importância. Nada tinha importância. E voltou a dormir e sonhar que era anjo.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Fragilidade

Foi um momento tenso.
Ela chamou, mas ele queria brincar e fugiu pelo portão entreaberto.
O carro freou bruscamente e fez um barulho irritante até parar completamente.
Na rua, o cãozinho tremia de medo.
A menina foi buscá-lo muito assustada também, mas sentia alívio por vê-lo sem ferimentos ou dores.
Agradeceu à senhora que dirigia o carro, que também estava em choque com o susto.
Entrou em casa e com o cãozinho no colo subiu até seu quarto.
Chorou um pouco abraçada a ele e depois suspirou bem fundo.
Compreendia de forma aguda e absoluta a fragilidade de existir.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Docinho

Estavam no supermercado e ela queria um doce.
Vovó foi com ela até onde estivera a prateleira de bombons e outras guloseimas. Mas nada encontraram...
Ela puxou vovó pela mão e disse: -" Vem cá, vovó, eu sei onde tem!!" E ao chegar ao universo dos doces, abriu os bracinhos: "- eu não falei, vovó, estavam aqui o tempo todo."

domingo, 31 de janeiro de 2010

Verso

Aprendeu a recitar um versinho e treinara bastante antes de se aventurar. Quando teve certeza, chamou mamãe e falou, com as mãos nas costas e balançava um pouco o corpo.
Sabia de cor, mas ansiosa disse "drentro".
Mamãe nem percebeu e a abraçou com força, - que gracinha!
Mas ela não gostou de ter errado. Ficou muito tempo com o pensamento em círculos, como pude? Como pude errar?
Franzia a testa; e se eu errar de novo quando papai chegar?
Assim, na hora de declamar, ficou muda. Balançava o corpinho da mesma forma, mãos nas costas, mas a cabeça pendia para o lado, não queria, não queria errar.
Disse apenas: -" Outro dia."
Mamãe não insistiu, que reconhecia em si aquela teimosia.
Umas semanas depois não se lembrava do verso e nem se lembrou também de que tinha errado.


quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Estranheza

Era a primeira vez que passava uns dias fora de casa e sozinha, sem os pais e a irmã.
Sentira que poderia ficar, mas quando viu o carro do pai dobrar a esquina, assustou-se.
Entrou na sala com a tia, que a segurava pela mão e falava com ela doce e suavemente, mas ela nem ouvia.
Olhou os móveis que já conhecia  tanto, como se fossem novos, que estranha luz que não havia antes e esses cheiros tão agudos, de onde vieram.
Continuava a ouvir surdamente a voz familiar.
Notou então que a tia esperava uma resposta.
-"Ahn?"
Agora ouviu a pergunta.
Balancou a cabeça assertivamente, abrindo bem os olhos.
Foi brincar com os gatinhos lá no quintal.
Quando se deu conta era quase noite, era hora do banho e do lanche.
Acho que posso, pensou concluindo.


sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Um castelo

Mamãe segurava  sua mão esquerda bem presa a dela e também carregava a irmã no outro braço.
Iam atravessar a avenida e chegar ao mar.
Às 8:00 hs era bom aproveitar o sol e a praia.
Na areia não gostava dos pequenos animaizinhos que apareciam dos buracos.
Queria uma areia sem sobressaltos, um mar mais doce, um sol menos brilhante e o vento sem embaraços.
Mas ali, naquela hora, tudo que podia fazer era uma construção um pouco torta com a areia que tinha umedecido com àgua do baldinho verde.
A irmã suspirou na esteira. Ela olhava os próprios dedinhos, encantada com a luz entre eles.
Mamãe estava de óculos, não podia saber para onde ela olhava.
- " Olha o meu castelo?"
-"Que beleza filhinha, quem vai morar nele?"
Ela não sabia. Virou um pouquinho a cabeça e pensava nas princesas que conhecia.
Mamãe perguntou se ela queria um picolé. Chupou o gelo-uva com força, até que ficasse totalmente branco.
Agora tinha o palitinho do picolé!
Com ele, pensou, vou poder construir um castelo muito mais bonito.


sábado, 14 de novembro de 2009

Espere!

Estava muito quente. Queria entrar na piscina, mas fazia meia hora que tinha almoçado e mamãe pediu que ela esperasse mais um pouco.
Nada para fazer, ficou sentada com as mãos sob as coxas e balançava as perninhas. Uma havaiana caiu e ela esticou-se toda para alcançá-la com a ponta do pé.
Enrolou um cacho do cabelo de mamãe, que conversava com Tiamarta. Com os olhinhos pedia: - "já posso ir? já posso ir?" Ela sabia que deveria esperar mais uma volta do relógio. Lembrava daquela vez em que tinha mergulhado logo depois do almoço e sentiu-se muito mal. Bem que mamãe tinha falado, mas ela queria muito encontrar todas as cinco pedrinhas...
A nenén dormia em seu carinho, bem protegida do sol e do calor. Às vezes queria que a irmã já pudesse brincar com ela. Pequena como era, ia se afogar...
Com o indicador começou a desenhar o contorno dos azulejos e contava baixinho - um, dois, três... e recomeçava - um, dois, três. Depois, deu um suspiro, pegou um travesseirinho, colocou entre a cabeça e o braço e deitou-se no banco de alvenaria.
Quando acordou, mamãe chamava: - Vamos nadar?

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Aprendizado

Ganhou uma balinha e nunca tinha visto uma. Ficou segurando o embrulhinho bem apertado na mão direita. Quando mamãe chegou para buscá-la e abriu a mão melada, sorriu e levou-a para lavar. Deu-se conta de que a criança não conhecia a gulodice, foi até a cantina e comprou duas novas. Mostrou para a filha como desembrulhar e colocou a bala na boca. A menina repetiu o gesto. Enquanto caminhavam para casa, -"Olha mamãe, os gatinhos fazendo folia!" deixou cair a bala...
Abaixou-se para pegar, mas mamãe explicou que estava suja. Ela chorou um pouquinho e deixou-se levar pela mão e enxugava o choro com a outra.
Quanto aprendizado!

sábado, 31 de outubro de 2009

Animação

Estava sentada no tapete em frente a TV e assistia a um desenho animado. O tempo ainda não tinha horas para ela. O elástico da calcinha incomodava um pouco; ela ajeitou e ficou com a mão por ali e se acariciava. Ficou esquecida do mundo, distraída com seu corpo e olhava para a TV sem reparar nas imagens. Mordia a ponta de um cacho de cabelo e deitou-se de costas com os joelhos dobrados. Balançava levemente as pernas, gostava daquela coceirinha.
Mamãe entrou para chamá-la para o banho. Ao vê-la distraída, antes de pegá-la no colo perguntou:
Quer fazer xixi, querida?

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Um presente

Com papéis coloridos e uma tesoura sem ponta, recortou vários animais para a fazenda. Depois passou cola com capricho e pregou os bichinhos na grande folha de papel verde. O porco era gordo e rosa-choque e o boi acabou ficando sem uma orelha, mas isso não tinha importância. Depois de colar, apertava a mão espalmada sobre o recorte e esperava um pouco. Restinhos de cola ficaram grudados nos dedos e ela passou alguns instantes retirando aquela pele postiça. O indicador da mão esquerda ainda ardia naquele corte que havia feito com a folha de papel. Segurou a cabeça com as duas mãos apoiando os cotovelos na superfície da mesa e admirou o resultado. Decidiu desenhar uma árvore perto do chiqueiro, uma árvore carregada de frutas vermelhas e redondas.
Depois escreveu bem forte no canto do papel:
Para o papai.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Pequenininha

Com os pés sujinhos de terra, entrou no pátio e foi jogar amarelinha. Quando chegou ao céu, reparou que subia, pela inclinação do terreno. Já ouvi dizer que o céu não é acima e fica por toda parte. Mas ela estremeceu de prazer ao pensar que chegara ao paraíso, ela que sempre pedira com fé ao senhor, que a ajudasse a encontrar uma ou outra pedrinha.
Passou o pé sobre a marca do céu para apagá-la, já que iria morar ali, precisava de mais espaço.
Com o giz desenhou umas flores, enfeitando sua nova casa e já planejava desenhar o quarto, quando ouviu mamãe chamar. Correu até a porta da cozinha e ganhou um docinho de goiaba, era a hora do lanche. Voltou para o céu e comia o doce e limpava o açúcar cristal na bainha do shortezinho. Acompanhou uma trilha de formigas, algumas carregavam pedaçinhos verdes, outras voltavam apressadas para buscar mais.
Vovó olhou pela janela e comentou: Que graça, ela sabe brincar sozinha!

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Dor de cabeça

Um dia frio e ventoso, que frente fria!
Estou pensando em um balanço feito de madeira e corda, os nós bem firmes embaixo do retângulo de madeira. Preso em um galho de mangueira, ouve-se o ranger do galho, a corda esfolando a árvore, a criança balançando lenta e pensativa, com o rostinho apoiado na mão que segura a corda.
Dentro de casa os sons cativos da rotina, uma torneira aberta, alguém batendo em bifes na cozinha, outra criança chora, um copo de vidro se quebra.
-"Quer biscoito de polvilho?" Ela diz que não com a cabecinha.
-"Vem pra dentro, está ventando". Ela diz que não com a cabecinha e faz um beicinho.
-"Ah, não vai chorar agora, papai já está chegando para almoçar, hoje tem batatas fritas!"
Por fim desce do balanço e vai até a janela da sala, espera avistar o carro do pai.
Mas hoje ele não vem. Está ligando para casa para dizer que vai demorar, que precisa atender mais três pacientes.
Paciência.
A mamãe, a filha e a nenê vão almoçar juntas, mas sozinhas.
A menininha pega uma batata frita, molha no catchup e fica chupando o molho. Está tristinha, ninguém sabe o que ela tem. Talvez tenha febre ou dor de cabeça...
Afinal, quando temos consciência de dores de cabeça? Até quando a dor de cabeça é vaga e absorvente como uma tristeza sem sentido? Eu também não sei. Não é com um esfolado, nem como dor de barriga, nem dor de vacina. É dor de pensar, uma dor abstrata bem concreta.
Enrolada em umas cobertas, olhando o tempo lá fora, não sei se a dor é insolação ou solidão.
Mas tem um pé na saudade.