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quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Vacinas

O veterinário veio vacinar meu rottweiler, o Haus, neste fim de semana. O bicho é bruto com quem é estranho, faz cara feia e rosna, mas é um bobão engraçado e peculiar com os da casa. Montei um esquema infalível há alguns anos. Aviso ao veterinário que prepare tudo  na sala, o cachorro preso lá no canil. Qaundo ele já está com as seringas na mão, armo o barraco. Cachorro com enforcador e focinheira, o caseiro passa a guia do enforcador por baixo da dobradiça do portão mais forte que tenho e puxa com toda a força; e  eu dou uma prensada vigorosa nele, entre a parede e o portão, entendeu? Ele fica imobilizado - que é o que ele mais detesta, mas é rápido e sem complicações. O veterinário chega nesta hora, seringas prontas em punho faz a aplicação, sai de cena, liberto o cachorro e faço-lhe um agrado - "muito bem, bonito"- bolachinha, carinho, bolachinha - e ficamos todos contentes. Mas mesmo que nada saia da rotina, sempre fico tremendo por uma boa meia hora. Quero que dê tudo certo, mas que aflição!
Pensando bem deve ser a emoção de ver meu animal vacinado e saudável pelo próximo ano.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

O último sono

-"Tita, estou com o gatinho da Helena, ele é cinzinha, tem o peito e as luvinhas brancas e olhos verdes."
Algumas horas depois a Tiaberé tocou a campainha e eu chamei a Helena para ver pela janela. "Olha, filhinha ela está com uma caixa, o que será? Vai abrir a porta pra ela."
Helena desceu as escadas levando a chave do portão que, ela já sabia, tinha um "joguinho" para abrir.
E ouvi a voz da Tice subindo as escadas com ela que dava risadinhas deliciosas.
As duas entraram com a caixa e de lá saiu um gatinho minúsculo e assustado.
Helena estava encantada, olhos brilhantes, carinha vermelha e feliz.
Uma senhora japonesa de Osasco era a dona da ninhada de  vira-latinhas. Quando entregou o Felipe disse  que queria que ele fosse muito amado e bem cuidado ou  deveríamos devolvê-lo. Nunca me esqueci disto.
Passamos por tanta coisa juntos...
- O Miguel foi comigo  ao veterinário. Pedi  que levasse o Felipe  no colo que eu iria passar de carro na esquina  e seguiríamos juntos. Ao parar o carro pude ver o Miguel desesperado com o gatinho mais desesperado ainda subindo-lhe pelo pescoço! Antes de chegar ao consultório, paramos no primeiro pet shop do caminho e compramos uma bela caixa de transporte que temos até hoje.
- A visita à Dra Márcia para as vacinas e um primeiro exame - "Olha só, ele tem o rabinho quebrado!"  Explicou-nos então que ele deveria ter ascendência de gatos siameses, raça em que é comum rabinhos partidos, ou então quebrara-se na confusão dos muitos filhotes embolados na barriga da mãe.
- A difícil decisão de castrá-lo para que não marcasse teritórrio em cada canto e eu que não sabia nada de animais fui gostando muito do assunto. Vi os efeitos da acepromazina pela primeira vez - ele olhava para mim, fixamente e o veterinário perguntou, ele já está sedado? e eu: Não, ainda está de olhos bem abertos!!!
E aprendi, fui  aprendendo com ele.
Conheci uma sala de cirurgia veterinária, observei a forma de prender o bichinho para o procedimento e assisti boquiaberta ao evento tão simples e objetivo.
Viemos para casa e rimos muito do pobre, tontinho pelo efeito da anestesia tentando andar pelo corredor e já o amávamos tanto; ele  nos tornou uma família mais feliz. 
- Helena telefonou para o Miguel: "Papai, o Felipe sumiuuuuuuu"  e toca a chorar!  Havíamos procurado por toda parte ele tinha desaparecido e procuramos de novo e de repente ouvimos um miadinho bem fraco, que vinha de onde? De onde?  Na desordem do quarto da Helena, cheio de brinquedos, roupinhas e livros havia uma gaveta de escrivaninha aberta. Ele havia se enfiado atrás da gaveta e poderia ter sido amassado se alguma alma mais organizada passasse por ali.
Foi o primeiro dos muitos resgates.
- Teve o telhado altíssimo do vizinho da frente que eu escalei sem medo até voltar a colocar os pés no chão com o gato no colo e começar a tremer;
- O telhado da área de serviço da vizinha de baixo de onde foi pescado pelo Miguel com uma rede improvisada;
- O telhado da casa da esquina onde ele sobreviveu três dias de inverno e chuvas às custas de pedaços de carne que  a boa alma que morava embaixo, já saturada de tantos miados, jogava pra ele;
- A grande aventura no Rio quando ele sumiu por quase uma semana e foi encontrado por acaso no telhado de um sobrado de pé direito bem alto, que ficava ao lado de um terreno baldio. Neste terreno estava um felino desconhecido que um caçador de gatos imaginou que pudesse ser o meu. Às três da manhã, Miguel e eu fizemos estrepolias dignas do Cirque para resgatá-lo;
- As patadas na Poli e sua liderança absoluta entre os Rottweilers da casa;
- O salto que deu sobre o dorso da Poli, feito um tigre sobre um búfalo quando ela cismou com o Fred - o outro gato - que ele nem gostava muito;
- Os inúmeros passarinhos, borboletas, morcegos e pererecas que capturou e veio nos oferecer ou comer nos  escondidinhos da casa;
- A hepatite tóxica  depois de ter comido o rabo de um calango provavelmente temperado com agrotóxicos;  - O soro de hidratação no colo da veterinária e a carinha de fastio e raiva do gato adoentado;
- A noite que passou internado quando tripudiou todos os funcionários da clínica e em meio aos rás e fus, ao ouvir minha voz, miou feito um filhotinho;
- A terrível esporotricose, que eu já tinha visto em pessoas e que começava a se tornar epidêmica entre os gatos no Rio. O tratamento demorado e zeloso - salvá-lo, acreditar nele e em mim, não desistir.
Foi a esporotricose que diagnostiquei clínica e microscopicamente que me fez pensar em cursar uma nova faculdade e abrir de vez meu coração e os livros de veterinária.
O aprendizado, as novas amizades, todos os outros bichos, várias espécies, vários tamanhos.
Helena e seu gato juntos, mais de 15 anos salvando vidas, pricipalmente a minha.
Hoje que estou velando o último sono torporoso e dispnéico do meu estimado amigo, ainda quero que ele fique mais um pouco com a gente. Nunca desisti dele. Mas hoje não posso mais.
Ele precisa partir, vai gato,  ser  anjo na vida.
Nos veremos na quarta dimensão, onde me disseram que os gatos são só o sorriso.



terça-feira, 25 de agosto de 2009

Mordidas

"-Já levei sete mordidas de cachorro!"
"-Sete? Tem certeza?"
Eu tinha. Fiz as contas de novo, lembrando cada incidente e eram sete.
O meu tio descascava uma laranja para mim, de uma forma toda especial em que, depois de descascada, com um canivete, ele fazia uma tampa em forma de cone. Ao espremer a laranja, formava-se um poçazinha de suco, deliciosa.
"- Quando for assim, fale que foram seis ou oito. Porque sete é conta de mentiroso."
Fiquei muito nervosa. Meu Deus, ele achava que eu estava mentindo. Mas eu não estava. E se dissesse que foram seis ou oito, aí sim estaria mentindo.
Em casa eu havia aprendido direitinho a não mentir. O máximo que se permitia era uma ou outra omissão, mas mentir, jamais.
Fiquei numa sinuca e nunca mais fui a mesma. Sempre que preciso dizer um número, esfrio só de pensar que pode ser o maldito sete de mentiroso. E se for o sete vou ter que mentir e se mentir vou estar mentindo, se não mentir vão achar que estou mentindo. Droga. Lembro-me que meu tio apertou levemente a laranja descascada e me mostrou o suco. Não tinha mais graça.
Depois disso, sempre que me encontrava com ele ficava infeliz, não tinha assunto, queria ir pra casa. E ele sempre que me encontrava, beijava meu rosto e sua barba por fazer me machucava um pouco. Resolvi que não queria encontrá-lo mais. Pelo menos até que eu levasse mais uma mordida e pudesse dizer com sinceridade -" Já levei oito mordidas de cachorro."
Acho que foi por isso que resolvi estudar veterinária. Uma mordida eventual acabaria acontecendo ao lidar com os animais...
Estou mentindo até hoje...

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Que remédio!

Todo mundo que tem ou já teve um gato sabe como é difícil dar remédio para eles. Comprimido até que é possível, se a pessoa for esperta e for objetiva e bruta.
Pega-se o gato preso entre as pernas, com a mão esquerda abre-se bem a boca até ver a goela lá no fundo e coloca-se o mais profundamente possível, o comprimido.
Mas existem riscos. Se não for fundo o suficiente, o gato cospe e se for fundo demais pode ir parar no pulmão...
Tenho gatos há 14 anos, sempre deu certo, nenhum acidente.
Mas hoje foi diferente. O veterinário receitou gotas e mls...
Fiz o procedimento habitual, o Felipe muito estressado depois da visita ao veterinário com coleta de sangue e pareceu-me que tudo estava bem, primeiro as gotas depois meio ml da seringa.
Soltei o gato e fui lavar as mãos.
Quando voltei - pânico! O gato babava horrores! Uma gosma branca e preguenta, e babava e babava. Será que intoxiquei o coitado?
Levei um tempo para lembrar que as gotas de plasil são muito amargas...Coitado...vidinha mais ou menos, como diz minha cunhada.
Mas o mais triste de tudo é que ele deve ter "secretado" todo o remédio. E agora? Aplico uma nova dose? Espero o próximo horário?
Resolvi passar na farmácia e comprar a medicação em comprimidos.

domingo, 14 de junho de 2009

Essa é bruta!

Enquanto estava cursando a faculdade de Medicina Veterinária aqui no Rio, participei de atividades variadas e curiosas. Fomos, certa vez, passar um fim de semana na fazenda, onde poderíamos manipular os animais e fazer pequenas cirurgias. Em um dia cheio de emoções, aprendemos a colocar cabritos no chão, deitados de lado, imobilizados para qualquer procedimento.
A maioria dos meus colegas é bastante jovem, eu sempre soube que tarefas em campo poderiam ser um problema para mim. No curral, além dos cabritos assustados, estavam os colegas, o professor e os peões da fazenda, curiosos e olhando divertidos nossa falta de jeito.
Resolvi que ia mostrar serviço. Chegou minha vez. Seguindo a orientação do professor, agarrei firmemente uma orelha e o rabo do meu cabrito, apoiei o joelho na lateral de sua barriga, levantei o animal do chão e pressionando com o joelho para frente, deitei o bicho de primeira.
Foi aí que ouvi um peão falando pro outro, admirado: "-Essa é bruta!"

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Um rapaz bonito

Quando abri a porta do elevador no meu andar, percebi luzes e movimentos no apartamento até então vazio, ao lado do meu. Gostei de ter companhia e fiquei curiosa...quem será?
Fui cuidar do jantar e então ouvi um latido de filhote. Como sou veterinária, fiquei ainda mais interessada.
No dia seguinte encontrei com ele e seu cachorro. Deve ter uns trinta e cinco anos, bem feito de corpo, uma cara boa, um olhar fugidio...
Segurava pela coleira, um cão pastor, filhote bonito e agitado. Saiu com ele até o pátio do predio. Quando retornei, no fim da tarde, vi o estrago. As lindas plantinhas do jardim destruídas...
Depois de uma semana compreendi: - o rapaz é biruta. Não trabalha, fica o dia todo em casa e as vezes sai com o cachorro, ali para o pátio. Será que toma tarjas pretas? Será que alucina?
Mora sozinho, ninguém vem visitá-lo, não tem parentes?
Talvez eu me mude daqui...Não sei não. Estou com um mau pressentimento...