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domingo, 18 de março de 2012

Berenice

São Paulo não é a mesma sem Berenice. Ela é a cidade. Trabalho e dedicação. Harmônica e sutilmente agressiva  é acolhedora mas pode ser enérgica quando alaga, esfria, garoa...
A cidade tem suas dores e algo de misterioso em suas gavetas do centro.
Beré aproveita a cidade que adotou e frequenta a melhor programação de shows, concertos e dos cinemas.
Sua casa, joia rara incrustada entre muitos prédios é um oásis para os amigos e suas famílias.
Ali acontecem  a introspecção e estudos; festas juninas e jantares íntimos com lareira; ali se instala quem precisa de conforto e cuidados.
Ir a São Paulo sem Berenice tem uma fração de desamparo e medo.
Só ela sabe transformar a cidade bela e rude em uma bucólica vila da Europa.
Agora imaginem a Europa em sua companhia!
Deve ser o máximo, não é, Renata e Edmur?

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Para a Letícia

Deixei passar um dia para que fosse surpresa.
Receber parabéns no dia do aniversário é ótimo, mas no dia seguinte, eu pelo menos sinto uma certa tristeza. Como teria dito o Drummond: - Era isso?
Nem sei quantos anos fez esta criatura tão linda.
Como a carreguei no colo vou evitar fazer muitas contas...
Mas é certo que temos muito em comum; boas e más semelhanças.
Ela herdou do pai a brancura da pele e o tom dos olhos, mas tem o corpo com a plasticidade do corpo da mãe, da tia...
Não é dos melões, mas das laranjas;
Não é das palmeiras, mas das roseiras;
Nem é do verão escaldante do Recife, mas da suave sombra de São Paulo, que a acolheu friamente mas de braços bem abertos.
Lembro-me de vê-la envolta por uma blusa quentinha, "oversized", com mangas bem longas de onde surgem desconfiadas, as mãos finas e delicadas.
Um gato em seus domínios.
Continue caminhando assim figurinha, em busca do seu sonho mais ousado.
Ouse, ouse, use e abuse da vida, que você nem vai sentir como passa rápido.
Passa rápido demais para se entristecer e perder o trem.
Entre logo na estação mais próxima e embarque, vá em frente ser feliz!


quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Meu vigia

Vou-se embora!
Vou pra São Paulo e deixo você aí a cuidar de tudo.
Concentre-se nos portões e nos muros mais baixos, não se deixe ver por quem está fora.
Esconda-se.
Faça suas rondas, todas as noites, todas as horas.
Você não sente medo, não encrespa o pescoço, mas não seja tão possessivo, deixe em paz os passarinhos...
Cuidado com a piscina, não vá escorregar e afogar-se.
De dia pode descansar, com as bochechas pregadas no chão e seu novo olhar amendoado e saudável.
Ou deitar-se ao sol, ou as vezes à sombra.
Barriga para cima, se espojando relaxado.
Vou-me embora, mas eu volto.
E se tudo estiver bem você ganha um abraço, um cheiro e um bisckoc

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Promessa

Eu prometi. Era só isso o que eu tinha a dizer sempre que perguntavam de olhos arregalados : Como você pôde??? Eu não deixaria de jeito nenhum! Sua única filha! Por que vocês a querem tão longe ? Você não tem medo, não? Coitada! E o Miguel, não falou nada? E se acontecer alguma coisa com ela, como vai ser?
Foi muito difícil. Meu coração arrebentava e eu estava morta de medo.
Já tive meus dias de virar ninguém em São Paulo, entrar na dança, ser uma a mais na multidão. Tinha mais ou menos a idade dela, mas estava casada, tinha alguém com quem dividir os sustos e as filas de pré-estreia nos cinemas. Era um porto seguro e é ainda.
-"Mas ela vai morar com quem? Sozinha? Mas que absurdo" diziam, fazendo não com a cabeça.
É que aprendi em casa, desde novinha a cumprir promessas. Sempre foi assim e é desta forma que se adquire confiança e segurança. Prometeu, cumpra!
Quando mudamos para o Rio, ela com 9 anos, completamente sem amigos, nova, a estrangeira no colégio, com um sotaque particular, foi complicado para ela.
Deixou amizades sólidas em São Paulo; algumas duram até hoje!
Via sua tristeza, sentia com ela as dificuldades de ser ingrediente novo em uma massa de bolo: bata bem as claras em neve e junte devagar, delicadamente, até que a mistura fique homogênea.
Disse: - "filha, por enquanto você precisa viver onde vivemos, não há outra forma. Estude, aprenda, desenvolva suas habilidades naturais. Quando chegar a hora, se ainda quiser ir para São Paulo fazer faculdade, você vai.
E foi isso que ela fez. Ela cumpriu e eu tinha prometido.
Ela é a mesma que não desgrudava da minha perna, que estranhava todo mundo e só queria o meu colo, e que chorava de ficar roxinha, perdia o fôlego. Ela se fortaleceu, ora, desenvolveu-se.
Não, eu não a empurrei para longe de mim.
Eu a empurrei para perto de si mesma.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Destino

Frio e chuva. São Paulo. Atrasada, pego um táxi. O motorista escolhe o caminho menos pior. Ele nasceu em São Paulo, conhece muito bem a cidade, é taxista faz mais de 30 anos.
Meu telefone toca. É ela. -" Onde você está? Estou no táxi, chego aí em 15 minutos. Passe o telefone pro taxista que vou dizer a ele qual é o melhor caminho. Ele sabe, já chego aí. Não, ele não sabe, passe o telefone para ele. Hummmm, ela quer falar com você...Quem? Ela. Tá."
Ele escuta, ela fala.
-"Mas já estou fazendo este caminho! Sim, sim, não, sim, pode deixar, eu sei, está bem..."
Aflição. Dirigindo e falando ao celular. Não pode dar certo. "Olhe o guarda! O farol fechou!"
Uma lástima. Buzinas, motos, flanelinhas, balinhas.
Chego, 20 minutos atrasada. Esqueci que era tão difícil. É fácil esquecer.
Lá dentro, está escuro, mas aquecido. Cafezinho, água, poltrona confortável.
-" Olhe o que eu fiz!" Olhei. "Não, não gostei. Pode fazer de novo?" -" Posso". -"Então faça. Volto daqui um mês."
Dizem que chegar não importa. Que o importante é a viagem. Será?

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Direção

Nunca gostei de dirigir. Carro pelo menos, não.
Aprendi com instrutor, nas ruas do Sumaré, sem grandes alardes, algo necessário, mas enjoado. Fiz exame médico, psicotécnico e deixei pra lá. Quase um ano depois telefonaram avisando que se eu não fizesse a prova prática ainda naquele mês, teria que começar tudo de novo. Exame médico, psicotécnico...
Marquei a prova e fui. Nada aconteceu de extraordinário. Fiz o que o professor pediu e passei. Recebi a carteira e pronto, podia dirigir em São Paulo.
Ganhei um fusquinha amarelo, usado, mas bem ajeitadinho, do Miguel.
Ele ficou no estacionamento ao lado do nosso prédio, por quase um ano. Dirigi 500 Km com ele.
A lembrança me vem agudamente, do cheiro do interior do carro, dos dias frios, da chuva, do medo.
Tinha a impressão de que ali dentro do carro, se reuniam muitas pessoas que tagarelavam, discutiam. Era o caos. Compreendi que tinha medo do interior.
Resolvi aprender a pilotar motocicleta.
Havia um curso excelente da Honda, ali perto do Detran.
Aprendi a dirigir moto grande, (uma CB400), fiz o curso direitinho - tinha uma parte teórica em que eram mostrados acidentes e situações de risco para assustar mesmo os mais afoitos.
Então fui fazer a prova prática. Tomei bomba. Queimei uma faixa na hora de fazer o circuito em oito... Mas assim que pude, fui fazer a prova outra vez. Tomei bomba de novo, desta vez porque achei que tivesse queimado a faixa, mas não tinha... Da terceira vez, eu consegui.
Então ganhei do Miguel uma XLX- 250 cilindradas, uma graça, uma moto de trilha, alta e elegante. Tinha que dar partida no pedal, não tinha moleza não.
Aí sim, de capacete, luva, botas e muitas vezes capa de chuva, lá ia eu onde tivesse que ir.
Levei uns sustos, passei por momentos ruins no trânsito, mas não caí, nunca machuquei. Sentia uma segurança que não tinha conhecido ao dirigir meu fusquinha. Foi assim, pilotando a moto que conheci a cidade.
Perdi o medo de dirigir carro e fazia o trajeto que precisasse, sem prazer, mas também sem traumas. O prazer mesmo era com a moto.
Depois tive a Helena, passei por uma grande cirurgia e precisei rever minhas prioridades.
Vendi a moto com pesar e comecei a carregar minha pequena para a pediatra, para a escolinha, para o teatro nos fins de semana e por causa dela, fui desenvolvendo uma coragem que não achava que tivesse.
E agora, em uma época em que ela precisa aprender a dirigir, os primos estão ganhando seus carros e autonomia, fico torcendo por eles. Afinal, São Paulo está 20 anos mais entulhada que na minha época, todas as cidades estão mais perigosas.
Espero que toda essa geração tão tecnológica possa experimentar o prazer de ir e vir no banco do motorista, dirigindo de fato.

terça-feira, 16 de junho de 2009

Pranchas e guarda-chuvas


O gingado característico dos meninos das praias deve ter a ver com carregar pranchas de surfe.
Nunca participei de uma aula de surfe mas os professores devem instruir sobre como caminhar na praia, andar de bicicleta, tomar uma água de coco sem "pranchear" as pessoas em volta. Aquilo é uma arma. Os meninos carregam a prancha na horizontal que forma um T com seus corpos esguios. Volteiam pra lá e pra cá e todo mundo parece sair incólume. Deve haver um segredo...
Eu sempre tive medo e só de pensar que uma prancha pode me atingir quando estou pegando um jacaré, sinto um frio no estômago e quero voltar para a areia. Ou para o calçadão que é definitivamente o meu lugar.
Em São Paulo, não há praia, mas há chuva. Muita chuva. E lá meu maior problema são os guarda-chuvas... Avenida Paulista, chuvarada de fim de tarde, todo mundo saindo do trabalho, todos armados com seus guarda-chuvas abertos. Como sou ligeiramente mais alta que a média das pessoas, as malditas pontas de guarda-chuvas ficam bem na altura dos meus olhos. Assim, se estou sem o meu, fecho os olhos e saio tateando as pontas e me esquivando. Quando estou com a sombrinha aberta, uso meio inclinada, para me proteger das pontas muito mais do que dos pingos de chuva.
Saudade das minas gerais...